27/07/2020 às 11h00min - Atualizada em 27/07/2020 às 11h35min

Em nome do consumo, indústria da moda polui e explora pessoas

Em entrevista, a professora de moda da UEL explica os motivos da poluição dessa indústria

Thaynara Junqueira - Editado por Larissa Barros
Reprodução / Pixabay

A indústria da moda emite cerca de 8% a 10% de gases-estufa e é o segundo setor da economia que mais consome água no mundo. Para compreender o porquê ela é considerada a segunda mais poluente do mundo, conversamos com a professora do curso de Design de moda da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, Maria Antonia Romão.

Segundo ela, a moda é um processo sócio histórico, construído sob a lente do mundo moderno ocidental. Sendo então o reflexo de um determinado contexto, tempo e espaço. Além de ser o eco da sociedade, do sujeito e da vida coletiva. 

“A sociedade construída após a segunda Revolução Industrial [século XIX], vai ter como primícia que para sermos livres precisamos consumir. E, para consumir precisamos ter várias opções de consumo”, afirmou Maria Antonia.

Para Maria Antônia, a moda se torna o maior canal de expressão do modo de ser e de se apresentar a esse mundo, tendo o vestuário como principal representante. Sendo assim, toda cadeia envolvida no vestuário vai ecoar essa necessidade do que é passageiro, rápido e a ânsia pelo novo que permeia toda a sociedade.  

Agora vem a questão, por que a moda polui? Porque ela está extremamente ligada ao homem contemporâneo em todas as suas facetas, na produção, representação, desejo e consumo. E em nome desse desejo usurpamos do meio ambiente, tudo o que podemos e, descartamos cada dia mais por não desejar o que era novo, porque agora nós não queremos aquilo, queremos o novíssimo”, explicou. 

Dado que o processo produtivo da indústria polui a água, o solo e o ar, a busca pelas novas tendências, incentiva o consumo e o descarte incorreto em massa, prejudicando drasticamente o meio ambiente. A professora explica que os impactos ambientais vão desde o cultivo a extração da matéria prima até o descarte incorreto desse objeto e produtos dele. 
 

“O impacto social entra na fase em que para justificar a necessidade de uma produção em grande escala constante e de baixo custo, nós vamos empregar o uso da mão de obra escrava e até mesmo infantil”, destacou. 

De acordo com a pesquisa feita pela fundação Walk Free, divulgada em 2018, o setor da moda é segundo que mais explora pessoas, ficando atrás apenas do setor de tecnologia. Em 2019, foi divulgado pelo aplicativo Moda Livre,  que mais de 35 marcas estavam envolvidas com casos de mão de obra escrava no Brasil.

A professora universitária ressalta que estamos iniciando uma trajetória que não tem volta, pois a civilização está em crise. “Estamos vendo isso nitidamente nesse momento atual da pandemia. E a mercantilização do desejos do sujeito contemporâneo, nos levou a uma exploração cruel do trabalho humano e da natureza, que a gente não pode mais aceitar”, conta.

Segundo Maria Antonia Romão, a única forma de conseguirmos mudar essa situação, é nos afastarmos dos ideias ecocapitalistas que nos induzem a esse consumo desenfreado. “Precisamos na verdade reestruturar todo o modo de produção, é preciso repensar como produzimos, porque produzimos, o que produzimos e quem produz”, finaliza a professora da UEL.

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