30/07/2020 às 18h26min - Atualizada em 30/07/2020 às 18h26min

Opinião: Cancelamento do GP Brasil pode significar o fim da Fórmula 1 no país

Não há contrato para 2021, e o impasse entre Rio e São Paulo pode fazer com que nenhuma das cidades fique com a corrida

Felipe Sousa
Pierre Gasly derrota Lewis Hamilton na briga pelo segundo lugar do GP Brasil 2019 (Foto: Red Bull Content Pool)
Na última sexta-feira (24), ao mesmo tempo em que a Fórmula 1 anunciava três novas datas ao calendário desta temporada, foi revelado também que as quatro corridas no continente americano não serão realizadas - Canadá, Estados Unidos, México e Brasil. Pesou na decisão o avanço do novo coronavírus nestes países: norte-americanos e brasileiros lideram o ranking de infecções, e mexicanos estão na sexta posição. Em comum, os três países receberem críticas pela forma com o qual lidaram com a pandemia. O caso canadense pareceu mais uma questão logística do que sanitária.

No anúncio do cancelamento das corridas, a Fórmula 1 declarou que está ansiosa para retornar à América no ano que vem. Mas, no caso do Brasil, é muito provável que a categoria tenha tido em 2019 a sua última corrida por conta do impasse entre São Paulo e Rio de Janeiro pela sede do GP Brasil. É uma questão complexa e que envolve vários fatores, inclusive políticos.

Na última renovação de contrato da corrida em Interlagos, o antigo chefão Bernie Ecclestone dispensou os promotores de pagar a taxa do promotor, usando como argumento os altos gastos da reforma do autódromo na casa dos 160 milhões de reais. Foi uma das últimas ações de Bernie, que logo depois vendeu a categoria para o conglomerado norte-americano Liberty Media.

Esse é um ponto chave para entender todo o imbróglio entre Liberty Media e os promotores paulistas. A Liberty teria interesse em retomar a cobrança das taxas no novo contrato, já que não viu um único centavo das três corridas disputadas no Brasil sob sua administração. Por outro lado, a organização de Interlagos teria oferecido um valor muito abaixo do que a Liberty costuma receber na organização de corridas em outros locais.

E, nesse cenário, surge o Rio de Janeiro. Se fala na construção de um circuito no Rio desde a demolição do Autódromo de Jacarepaguá, cujo terreno foi cedido para a construção do Parque Olímpico. Em maio do ano passado, a empresa Rio Motorsports venceu a licitação para a construção de um novo autódromo em uma área cedida pelo exército em Deodoro. Desde então a empresa vem tido problemas tanto com questionamentos em relação às garantias financeiras para a construção quanto a problemas envolvendo o terreno, uma área de Mata Atlântica – a licitação chegou a ser suspensa duas vezes por conta da exigência de um Estudo de Impacto Ambiental. Uma Audiência Pública para dar o aval à construção chegou a ser marcada para maio, mas foi suspensa pelo Ministério Público.

O fato é que no Rio não há autódromo e em São Paulo não há acordo. O cancelamento da corrida na capital paulista este ano azedou ainda mais a relação entre os promotores e a Liberty Media, envolvendo até ameaças de processo. E no Rio, tudo indica que não haverá tempo hábil para a construção do GP de Deodoro a tempo para uma eventual corrida no ano que vem – A própria situação da Rio Motorsports é um tanto quanto nebulosa, inclusive.

A Liberty Media parece estar mais inclinada a colocar o GP Brasil no Rio de Janeiro – cartão postal do país – mas não pensará duas vezes em dar adeus caso não haja condições para a realização da corrida. E, somado a tudo isso, há ainda o risco da Fórmula 1 sair da grade em TV Aberta: TV Globo e Liberty não entraram em acordo até o momento pela renovação dos direitos de transmissão, e a tendência é de que a categoria deixe a emissora após quase 40 anos, o que seria um duro golpe na popularidade da categoria no país.

A própria Rio Motorsports tenta se mexer para garantir a transmissão em TV Aberta da Fórmula 1, estudando enviar uma proposta pelos direitos para depois repassá-los localmente no país (incluindo a Globo). Ao mesmo tempo, a Liberty Media prepara terreno para o lançamento de seu próprio serviço de streaming, a F1TV.

Quem sai perdendo com todo esse impasse é o fã de Fórmula 1, que há anos coloca o Brasil como um dos líderes globais de audiência da categoria mesmo com a ausência de pilotos brasileiros no grid. Se o produto não for tratado com a seriedade e o carinho que merece por todas as partes, a categoria corre um sério risco de se tornar um esporte de nicho no país, algo que nunca ocorreu desde que o Barão Wilson Fittipaldi deu a partida nas transmissões de corridas no país em 1970.
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