08/08/2020 às 12h46min - Atualizada em 08/08/2020 às 12h49min

#Opinião: por que o mundo não precisa de super-heróis?: somos todos The Boys

Paulo Pereira - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte | Reprodução: Comixology
Há poucos dias terminei de assistir à primeira temporada da série em live action The Boys – Confira maiores detalhes no Artigo de Anne Hernandes, aqui. Concomitantemente fui à mídia original, as histórias em quadrinhos, e devorei o seu primeiro volume.
 
A HQ é uma criação do aclamado e contundente roteirista irlandês Garth Ennis e do seleto e detalhista quadrinista estadunidense Darick Robertson. Lançada entre 2006 e 2012 nos EUA pela Dynamite (Editora), a obra vem sendo publicada no Brasil através da Devir (Editora) e encontra-se hoje com o seu décimo volume em pré-venda.
 
Após ter passado por esta experiência crossmedia, o pensamento mais sólido que me ocorreu foi um registro do filme “Superman: O Retorno” (Superman Returns), de 2006. Dirigido por Bryan Singer, conta com o ator Brandon Routh no papel do “Homem de Aço” e Kate Bosworth encarnando a intrépida repórter Louis Lane.
 
No referido filme, consta que Lane ganhara o Prémio Pulitzer – famoso prêmio norte-americano voltado ao Jornalismo, Literatura e Composição Musical – com um artigo intitulado Why the World Doesn´t Need Superman (Por que o mundo não precisa do Super-Homem?).
 
Deste ponto de partida – nos termos de uma narrativa ficcional, todavia, com possíveis analogias para com a nossa realidade – podemos derivar em direção a uma questão: O mundo precisa (ou não) de super-heróis? A discussão não é nova tão pouco exclusiva das mídias Histórias em Quadrinhos e Cinema. Ainda assim, é singular, complexa, atual e volta à cena com The Boys. Aviso: Possíveis spoilers a seguir.
 
Os super-heróis enquanto gênero nas histórias em quadrinhos nasceram no finalzinho da década de 30 nos EUA. As  narrativas ilustravam com simplicidade a concepção maniqueísta do mundo, na qual os super-heróis claramente encarnavam o que havia de mais valoroso e profícuo. Os super seres davam vida a ideais perseguidos pela humanidade. Sobretudo por conta do contexto da grande guerra, a 2ª, que se avizinhava.
 
Neste ambiente, então, estrutura-se uma lógica: super-heróis são o exemplo a ser seguido, o modelo a ser copiado, o ícone máximo da bondade e da justiça. Evidentemente que o The American Way of Life, tão em voga à época, exercia enorme influência e também imprimia direção a tais histórias em quadrinhos.
 
Era o que os norte-americanos e todo o “mundo aliado”* de então queriam consumir. Vide o soco do Capitão América na cara de Adolf Hitler (em Captain America Comics #1 de 1939) ou As Tartarugas Ninja fazendo algo semelhante (em Teenage Mutant Ninja Turtles Adventures #64 de 1989).
 
Eles lutam, sacrificam-se, nos protegem, vencem guerras para nós... os super-heróis são demais! Apesar do sarcasmo aqui exposto, é preciso registrar que ao longo das décadas um outro direcionamento, mais complexo, iniciou um processo e humanização dos (super)heróis. Como resultado, proporcionou-se ao público maior identificação com as histórias.
 
Personagens lidando com dependência química, morte de entes queridos, corrupção e até mesmo infidelidade nos relacionamentos interpessoais são alguns exemplos da, digamos, aproximação comportamental entre homens e super-heróis. Foi-se para um estágio além da clássica e eterna luta do bem contra o mal.
 
Todas essas modalidades de contingências, as quais eu chamo de “Super Antropocentrismo”, o Antropocentrismo – uma espécie de doutrina que coloca o homem como o centro do universo, a referência máxima para todas as coisas do mundo – aplicado aos super-heróis, está presente em The Boys. E de forma explícita, sem filtros, com o foco sob o lado mais obscuro e agressivo do ser humano; digo super humano/super-herói.
 
É um recorte narrativo genial, pois estabelece um contraponto, uma polarização que desconstrói uma espécie de natureza divina e superior que está no cerne da natureza do super-herói. Passa-se a colocá-los “apenas” com seres dotados de poderes físicos e emocionais que a maioria dos humanos não possuem. Em suma, consegue-se perceber que poderes meta humanos não conferem caráter tão pouco a vivência de uma vida afinada para com a coletividade e comportamentos edificantes.
 
Garth Ennis demonstra que há mais, existe muito mais por detrás do “verniz de super-herói”. O Autor é explicitamente um crítico do gênero. Em função do fato, já criou diversos outros roteiros que cutucam (quando não escracham) a temática. Em parceria com Amanda Conner (desenhos) e outros parceiros, produziu a singular The Pro (A Pro, de 2002) que narras as desventuras de uma garota de programa que ganhou poderes de um alienígena voyeur.
 
Alguns anos antes, com Doug Braithwaite, foi responsável pela inusitada Punisher Kills the Marvel Universe (Justiceiro Massacra o Universo Marvel). O título deixa claro o mote da história publicada em 1995. Mais um exemplo é o sarcástico Hitman – cuja primeira aparição fora em 1993 –, um assassino de aluguel meta-humano inserido mesmo universo da trindade clássica DC Comics: Superman, Batman e Wonder Woman. Aqui a parceria foi com John McCrea.
 
The Boys desconstrói o mito dos super-heróis com maestria. E acidez. E escatologia. E violência. Sabe quando descobrimos que os nossos pais não são perfeitos e infalíveis como acreditávamos? É, guardadas as devidas proporções e muitas aspas, um pouco por aí. Um rito, uma dor que não pode ser abdicada, que precisa ser encarada.
 
Como estes desdobramentos, Ennis traz, inclusive, problematizações históricas e outras atuais importantíssimas. Mesmo em sua posição de homem branco, cis, heterossexual... consegue tocar em chagas ainda abertas da humanidade através dos seus “garotos” (e “garotas”) da obra. Sua origem Irlandesa – É sabida a conturbada relação história para com o Reino Unido – deve  ser uma das fontes de questionamentos e contundência no trato com as temáticas. Chuto.
 
Então, Garth parece ser o autor (Roteirista) perfeito para literalmente humanizar – e aqui a ação não é necessariamente algo bom – os super-heróis e retirá-los do seu altar. Um lugar que colocamos todos aqueles (e aquilo) que não compreendemos e que admiramos. Demonstrando não recear as críticas, o roteirista tira a maquiagem de bondade dos super-heróis à força e se coloca no limiar entre assertividade a agressividade no exercício das suas narrativas ácidas.
 
Atribuir características humanas ao super-heróis é dotá-los de sentimentos e pensamentos contraditórios, alguns vis, outros virtuosos... enfim, uma inevitável complexidade. Essa humanização, aqui, ocorre de forma escancarada. E ao descortinar esse processo, expõe uma prática recorrente que fazemos questão de ignorar: a procrastinação.
 
É, procrastinação. É ela que nos leva a deixar a nossa vida nas mãos do outro por não nos implicarmos com as responsabilidades. E olha... desde as ações mais banais até contextos sociais e políticos, o hábito é extremamente comum e aceito. É por procrastinar, que o mundo de The Boys elege os Super-Heróis como verdadeiros salvadores da humanidade. Entrega-se a estes “super seres” o poder de decisão de milhares de vida.
 
Esquivar-se das tarefas as quais precisamos realizar pode assumir status que vão desde as ações mais corriqueiras e banais até decisões sociais e políticas. Estas que estão intimamente relacionadas com os rumos não apenas de nossas vidas, como também com o que ocorre com uma cidade, país, continente.
 
Junto a este “deixar nas mãos do outro”, há ainda o “Fator Religião”. Quando nos esquivarmos das responsabilidades estamos, em uma última análise, aguardando por um “Salvador”. E nada mais trivial ao ser humano do que sacralizar o que não consegue explicar pela via do sendo comum. A Ciência, claro – alguma semelhança com o ciclo de realidade vivido atualmente? – é deixada de lado em nome do espetáculo que um herói (ou super-herói) é capaz de nos proporcionar.
 
Guy Debord, aposto, é uma referência para Ennis nesta trama toda. A sua denominada Sociedade do Espetáculo se encaixa perfeitamente como um dos pilares para do enredo de The Boys. Como se vê na obra, a valorização prioritária da imagem, a sua transformação em produto cultural está lá, inegavelmente e com muita força.
 
E é através da ação incessante das mass media (mídias de comunicação de massa) que essa imagem perfeita e sacralizada dos super-heróis é construída e mantida naquela ficção. E é, também, através dessa via que “Os Garotos” vão agir para literalmente desmascarar os super-heróis. Mais uma vez, será que podemos pescar algum dado de realidade aqui?
 
Em meio aos espetáculos, sensacionalismos e pós-verdades, The Boys é no mínimo um ponto de partida para a reflexão do que estamos fazendo com as nossas vidas ao nos alhear de certos posicionamentos. Não se trata de apologia à violência, tão presente na obra, mas o convite ao questionamento e a ação. Individual e coletiva. Penso que não precisamos de super-heróis, necessitamos ser mais assertivos.
 
Ah, no final do Superman: O Retorno, Louis Lane se encontra diante do computador pronta para começar a escrever. Apenas o título está pronto. E este é: “Why the World Needs Superman” (“Por que o mundo precisa do Super-Homem?”) Será? Eu fico com “Os Garotos”... e principalmente com nós mesmos, tomando as rédeas das nossas vidas.
 


*Referência aos países que nutriam apoio através de uma aliança militar e cultura para com os Estados Unidos da América durante a 2ª Guerra Mundial.
 

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