10/08/2020 às 08h20min - Atualizada em 10/08/2020 às 06h59min

E agora, quem poderá nos defender?

Impasse contratual entre Televisa e Grupo Chespirito impede que os lendários seriados continuem sendo exibidos

Juliana Aguiar - Revisado por Mário Cypriano
Foto: Divulgação
“Puxa! Repuxa! Recontrapuxa!”  

Na sexta-feira, 31 de julho de 2020, o público brasileiro recebeu uma notícia que movimentou as redes sociais e que custou para que todos acreditassem ser verdade e não mais uma fake news.  Após 36 anos de exibição no SBT, Chaves, Chapolin e as demais criações de Roberto Gomez Bolaños (1929-2014), não seriam mais exibidas a partir de 1º de agosto.

“Sim, pois é, pois é, pois é!”

Por meio de um comunicado, a emissora de Silvio Santos informou que a Televisa, emissora mexicana detentora dos direitos das produções, enviou uma notificação à empresa informando sobre a suspensão do contrato "por causa de um problema pendente a ser resolvido com o titular dos direitos das histórias". De acordo com o site Na Telinha, a Televisa e o Grupo Chespirito, administrado pelos herdeiros de Bolaños e dono dos roteiros escritos por ele, não chegaram a um acordo sobre os direitos da série, provavelmente no momento de renovação contratual. O SBT informou ainda que segue em negociação para voltar a exibir os seriados.

"A exibição dos seriados Chaves, Chapolin e Chespirito estaria garantida até 31 de julho, com possibilidade de renovação entre as partes, o que verbalmente havida sido confirmado. No entanto, a negativa em relação ao acordo com o grupo detentor de direitos intelectuais sobre as histórias, chegou a apenas poucos dias do fim do contrato. O SBT lamenta a decisão, principalmente em respeito ao seu público, que acompanha fielmente os seriados há tantos anos na emissora. A emissora continua na torcida para um acordo entre as duas empresas mexicanas o mais rápido possível e, se isto acontecer, teremos o prazer de informar aos fãs de 'Chaves', 'Chapolin' e 'Chespirito', imediatamente".
 
Para tentar entender qual teria sido “a causa, motivo, razão ou circunstância” do impasse contratual, conversamos com o jornalista Antonio Felipe Purcino, administrador do Fórum Chaves, considerada a maior comunidade brasileira de fãs de Chaves e Chapolin na internet. Confira!
 
Pela primeira vez em 36 anos de exibição permanente, no Brasil, os seriados criados por Roberto Bolaños deixaram de ser exibidos. Como o Fórum recebeu a notícia do fim das exibições dos programas? Vocês já esperavam que isso pudesse acontecer? Seria o fim de uma era do humor?
Foi uma notícia inesperada e muito impactante. Não esperávamos que, de repente, as séries saíssem do ar - e em todos os lugares possíveis. É um cenário incerto e que nos preocupa, já que não sabemos até quando esse imbróglio ficará sem solução. Mas acreditamos que haverá algum acordo e as séries voltarão a divertir o público de toda a América Latina.
 
Vocês acreditam que haja uma possibilidade real de um acordo do Grupo Chespirito com a Netflix ou até mesmo na criação de uma plataforma própria para transmitir e comercializar os episódios ou há mais chances de um novo acordo com a Televisa?
É difícil falar em algo com a Netflix, já que tudo é especulação nesse momento. Quanto a um streaming próprio, não existe nada nesse sentido em discussão. Trata-se de uma notícia falsa que circula por aí. Imaginamos que deverá haver um acordo, mas não há como precisar quando será.
 
“Chaves” foi dublado em mais de 50 idiomas e exibido em mais de 20 países. É indiscutivelmente sucesso por onde passou, mas a impressão é de que no Brasil o amor ou diria até fanatismo é latente, mesmo passado tantos anos do fim das gravações, o conteúdo reprisado há anos, e até mesmo o falecimento de muitos atores, nada tirou encanto. Por que Chaves é um fenômeno permanente no Brasil?
Sem dúvida, o Brasil é o país onde a série mais se consolidou na cultura popular. Fenômeno devido às sucessivas reprises nesses 35 anos, que deixaram as séries perenes no imaginário do público. Outro aspecto importante a ressaltar é o humor atemporal e universal de Chespirito. As piadas e situações podem ser entendidas e geram o risco hoje, como geravam há 20, 30 anos. E, também, são personagens e momentos que ressoam entre o público numa forma de identificação. Todos conhecemos uma senhora meio ranzinza, um menino mimado, um cara que não gosta muito de trabalhar, que vivem os dramas da vida, mas também dão uma risada disso tudo.
 
O Fórum Chaves é a maior comunidade dos fãs aqui, no Brasil. Entrevistaram os atores e o filho do próprio Bolaños, participação na organização de eventos e tem o reconhecimento do Grupo Chespirito. Como tem sido o retorno dos seguidores nesse momento, eles apenas expõem a tristeza pelo fim das exibições ou também propõem ações?
Tem sido um momento bem difícil para todos. Quando demos a notícia, foi como se caísse uma bomba sobre todos nós. O impacto e o choque são comparáveis aos da morte do Roberto Gómez Bolaños, em 2014. Os fãs têm se mostrado engajados no movimento pela volta das séries, se manifestando nas redes sociais e reforçando nossas ações.
 
Ainda na linha da pergunta anterior, a ideia do manifesto que foi criado, foi sugestão dos seguidores ou da equipe do Fórum? Qual a meta de assinaturas? Como está a participação?
O manifesto foi criado conjuntamente entre o Fórum e os diferentes grupos, fã-clubes e comunidades de fãs do país. Cerca de uma hora depois da notícia, iniciamos um grupo no WhatsApp com representantes de todas essas comunidades para discutir ações coordenadas. E, dele, saiu nosso manifesto, pelo qual buscamos o máximo de assinaturas possível. Neste momento, já temos mais de 35 mil assinaturas. É um instrumento a mais que temos para levantar nossa voz pela volta das séries à televisão mundial.
 
Florinda Meza, Maria Antonieta e filhos de Bolaños se pronunciaram sobre o ocorrido. Vocês acreditam que se Chespirito estivesse vivo, apesar da idade avançada, seria mais fácil de resolver esse impasse, sem deixar de exibir os programas?
Creio que a situação seria a mesma, em virtude do pouco caso que a Televisa faz das séries, infelizmente. Hoje, para a emissora, são apenas um produto a mais. Não as veem como o patrimônio que são para a cultura da América Latina.

    

Vale ressaltar que o fim da exibição dos seriados não se restringe ao brasil, a todos os países onde vinha sendo exibido. Chaves e Chapolin chegaram ao Brasil como parte de um imenso pacote de programas da Televisa adquiridos pelo SBT e eram exibidos como quadros do programa TV Pow!.

Segundo o site Fórum Chaves os seriados foram avaliados pelo alto escalão do SBT, que desaprovou os programas alegando que não iriam render, era uma produção fraca, com cenários e figurinos fracos. Entretanto, o diretor do núcleo de dublagem da emissora na época, José Salathiel Lage, convenceu Sílvio Santos de que os seriados eram bons produtos e poderiam render bons índices de audiência. Sílvio Santos ordena então a dublagem dos programas, iniciadas em 1983 e a estreia foi em agosto de 1984, em pouco tempo, fidelizaram audiência, tornando-se programas próprios.

Ricardo Gonçalves, de Campo Grande/MS, se declara fã apaixonado por Chaves e Chapolin. O farmacêutico de 40 anos, assiste os programas desde que era criança e também lamenta que os mesmos tenham saído do ar. “Para mim é terrível, porque desde que me entendo por gente, sempre assisti Chaves e Chapolin. E por mais que a gente saiba que os episódios são repetidos, é um entretenimento saudável que ainda temos acesso, é uma fonte de alegria, principalmente nesse tempo difícil que estamos vivendo. Então vejo com muita tristeza, o fato de não estar sendo exibido.
 
Ele não sabe dizer exatamente quando se tornou fã, mas acredita que foi o humor simples e inteligente, que passou a fazer parte do cotidiano, ligando a TV diariamente “na mesma hora e no mesmo canal”, para descobrir qual seria a nova desculpa do seu Madruga para não pagar o aluguel, conhecer o novo brinquedo do Kiko, ou para ver o Chapolin tomando suas pastilhas encolhedoras e dizendo: “Se aproveitam de minha nobreza!”. E claro, para ver o Chaves receber o senhor Barriga – e pesado- com uma cassetada. Quem nunca, não é mesmo? “O próprio Chespirito dizia que nunca apelou para violência para chamar a atenção ou prender o espectador. Humor que nos cativa e até emociona, como em alguns episódios que a gente fica emocionado, com nó na garganta”, lembra Ricardo.

Os anos passaram e Ricardo continuou gostando dos seriados, tanto que sua esposa, na época noiva, lhe deu um presente. Adivinhe o que era. Vou dar uma dica: “Mais ágil que uma tartaruga. Mais forte que um rato. Mais inteligente que um asno”. Se sua resposta foi: "Um Chapolin", acertou. E, há dois anos, ele tatuou o herói mexicano, eternizando o amor pelo polegar vermelho. 

Até que se tenham novas notícias, seja de um novo acordo entre o Grupo Chespirito e a Televisa ou qualquer outra solução vamos torcer para que brevemente todos os fãs como o Ricardo, e a jornalista que aqui escreve (peço humildemente licença para ser inclusa na lista), possamos ficar “todos atentos diante da tv” . “Espero que a situação se resolva o mais breve possível, que possa haver um acordo, para que o Chaves volte para a TV, porque ele faz parte da vida da gente”, finaliza Ricardo. 

 



Não temos uma fonte dos desejos nos pátios ou quintais de casa, onde jogamos moedas e esperamos ter nossos pedidos atendidos, mas podemos manifestar nossas opiniões nas redes sociais e assinar o manifesto criado pelo Fórum Chaves  http://bit.ly/VoltaCH.

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