26/04/2019 às 02h01min - Atualizada em 26/04/2019 às 02h01min

A mulher nas telas do cinema

Quando você assiste um filme, quem você está vendo?

Gabrièlle de Faria Sarro
Internet/editado

A mulher é forte, é frágil, é isso e aquilo, é o que ela quiser ser e o que ela se faz. Na tela, escrever mulher é um desafio. Isso porque não é nada fácil ser uma mulher no mundo real; você é de um jeito, se mostra de outro, cada pessoa que te conhece ou que te segue em qualquer rede social te vê de uma forma diferente, sem contar os estereótipos e o “a mulher deve” do nosso velho patriarcado. Por isso, analisar as mulheres desenvolvidas no cinema consiste em muitas esferas.

Alguns filmes são pensados para mostrar o ponto de vista da mulher, em como ela percebe o mundo a sua volta. Exemplo de filme é 'O silêncio dos inocentes' do diretor Jonathan Demme de 1991, a câmera é posicionada em primeira pessoa, na perspectiva de Clarice Starling (Jodie Foster), a protagonista do filme e agente do FBI, nesta posição é possível sentir todos os olhares dirigidos a ela, seja pelos colegas de trabalho ou pelo próprio assassino em série Bufalo Bill. Dessa forma o espectador realmente se sente na pele da personagem, com todo o desconforto e às vezes medo. Clarice está em um cargo que não é considerado “coisa de mulher” e o mesmo fato se aplica ao filme ‘Capitã Marvel’, dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck de 2019, Carol Danvers (Brie Larson) também está em um ambiente onde julgam não ser dela, porém diferente do filme ‘ O silêncio dos inocentes’, ‘Capitã Marvel’ não tenta mostrar como Carol vê o mundo, mas sim, como ela se defende dele.

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Outros filmes mostram as diferentes relações que a mulher tem consigo e com os outros. ‘Kill Bill’ (2003,Tarantino), é um clássico filme sobre vingança e sobre como caçar seus inimigos, mas ele também retrata de forma nada convencional a dor que uma mãe sente ao perder a filha e toda a fúria que este tipo de trauma pode trazer a uma pessoa. Ainda no meio familiar, o relacionamento entre mãe e filha em ‘Lady bird’, a hora de voar’ (2018) é abordado de uma forma tão real que a diretora Greta Gerwig comentou em entrevista para o The hollywood reporter, “Quando eu estava distribuindo o roteiro, e por ser uma história de amor entre mãe e filha, todo homem com quem eu conversava, que foi criado com irmãs ou teve filhas dizia, eu conheço isso, essa é minha esposa e minha filha ou esta é minha irmã e minha mãe e caras que não,diziam eu não conheço esse tipo de briga, eu nunca vi isso, por que como ele saberia que este relacionamento é assim.” Além da dinâmica entre as duas, elas, individualmente, Christine McPherson (Saoirse Ronan) e Marion McPherson  (Laurie Metcalf) tem de lidar com o fato de que a filha Chirstine está crescendo e se tornando independente.

Já no filme nacional ‘Que horas ela volta’ dirigido por Anna Muylaert de 2015, a relação mãe e filha se expande num contexto social, nós vemos uma mãe, Val (Regina Casé), que teve de deixar a filha, Jéssica (Camila Márdila), muito cedo e se mudar para outro estado para conseguir estabilidade financeira e sustentar a família. As preocupações com a garota se diferem entre a felicidade de ter a filha por perto, a forma como a menina se comporta, o fato de Jéssica não aceitar a posição social em que foi colocada, o orgulho que Val sente pela garota e o medo de que ela, Jéssica, tome as mesmas decisões que a mãe. A personagem Val, de Regina Casé, traz muitas camadas, além da relação com a filha, ela tem de lidar com a barreira de classes, onde, no outro lado desta barreira temos a patroa Bárbara (Karine Téles), juntas elas representam dois extremos de uma sociedade, o conflito entre as duas, que já existia pois, Val é como uma segunda mãe para o filho do casal, sendo esta outra camada da personagem e Bárbara, a patroa e mãe do menino não entende e não aceita esta relação e com a chegada de Jéssica, o conflito que já existia se intensifica, mas sempre de forma submissa, já que uma é patroa da outra.

No clássico pop ‘O Diabo Veste Prada’ de 2006, dirigido por David Frankel, o convívio entre as mulheres na revista Runaway se reveza entre, materiais, companheirismo, competição e muita pressão, assim como qualquer ambiente de trabalho. A não ser, claro, que este ambiente de trabalho seja a Nasa nos anos 60, durante a Guerra Fria e você seja uma mulher negra,se for este o caso as coisas ficam muito mais complicadas, esta é a história contada em ‘Estrelas além do tempo’ (2017,Theodore Melfi), que fala sobre Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), três mulheres brilhantes que mesmo com todas as chances contra elas fizeram coisas extraordinárias, e mantiveram uma amizade baseada em confiança e esperança.

Por fim, não importa o ângulo que se analisa uma personagem, quando ela é bem pensada e criada com profundidade as pessoas se identificam, seja mulher ou homem, por que, sim, temos diferenças, mas nossos sentimentos mais básicos como amor, medo, esperança, raiva, são os mesmos, é por isso que um clássico se torna um clássico em qualquer época ou lugar. A personagem mulher pode ser escrita de qualquer forma, o problema é quando ela é pensada superficialmente, sem uma história, como se fosse um robô programado para ser de um jeito específico e sem significação, os filmes são um retrato da sociedade, mas principalmente são de grande influência para esta mesma sociedade, e é por causa dessa influência que a representatividade se torna um fator tão importante.
 


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