14/08/2020 às 17h43min - Atualizada em 14/08/2020 às 17h00min

Museu Nacional reforça seu legado histórico em meio à pandemia

Após desastre em 2018, instituição pública se reinventa e reconstrói proximidade com o público

Isabela Carvalho Siqueira - Editado por Alinne Morais
O Museu Nacional no parque Quinta da Boa Vista. Foto: Isabela Carvalho

O entardecer carioca no dia dois de setembro de 2018 foi marcado por uma tragédia envolvendo a primeira instituição científica nacional. Criado por um decreto de D. João IV, em julho de 1818, o Museu Nacional nasceu da necessidade de popularizar conhecimentos e estudos sobre ciências naturais e antropologia em terreno brasileiro. Devido a uma falha em um ar-condicionado, o espaço cultural, localizado no parque Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, no ano que completava 200 anos de aniversário, teve perdas irreparáveis em seu patrimônio.

 

Anexado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1946, o MN contava um acervo de 20 milhões de artefatos, onde 80% foi levado pelo incêndio. Indo muito além do prejuízo de valor material, o desastre representou a desvalorização da produção de pesquisa científica, educação e história brasileira presente no até então, considerado maior museu de ciências naturais e antropologia da América Latina.
 

O Museu Nacional vinha sofrendo um período de cortes de verbas voltada a manutenção de sua estrutura e buscava recursos para reforma do palácio assim como estabelecimento de um sistema de incêndio e pânico. Algumas peças foram salvas em decorrência de uma estratégia da instituição pública, tais como conjunto de vertebrados, botânica, o espaço da biblioteca e edificações no horto no parque na zona norte carioca.



A estrutura neoclássica do palácio foi atingida assim como os aposentos reais de suma importância, tal como a sala do trono, que contava com as pinturas do italiano Mario Bragaldi, um grande marco do período de segundo reinado. Outros objetos de importância histórica foram perdidos assim como seus valores simbólicos, dentre eles:  os diários de campo da imperatriz Leopoldina, esqueletos de dinossauros, peças do conjunto Egito Antigo e Greco-Romano, cabeças mumificadas e objetos e áudios referentes a culturas indígenas brasileiras que sequer existem mais. 

 

Com doações vindas de coleções da Itália, Egito, Japão, Peru e Nova Zelândia, verbas do Ministério da Educação (MEC), governo da Alemanha, British Council Brasil e R$ 300 mil vindo de pessoas físicas e jurídicas o Museu Nacional deu início ao projeto de reconstrução do espaço histórico. A primeira etapa das obras iriam começar no mês de abril, com salas nobres, ornamento e estátuas de musas como focos principais.

 

No entanto, em decorrência da pandemia de COVID-19, em março, o processo de reestruturação do espaço e resgate de peças foram interrompidos por tempo indeterminado. A atitude preventiva foi em respeito às medidas de isolamento social no estado do Rio de Janeiro. A partir disso, a instituição cultural, por meio de plataformas digitais, passou a reforçar a sua importância como um espaço público aberto a comunidade. 


O Museu Nacional Vive 

Lives, webinários, IGTvs, vídeos e exposições de artefatos online. O espaço histórico desenvolveu formas de alcance e reflexão com seu público através de conteúdos digitais. Oficinas educativas, conversas sobre pesquisa, extensão e assuntos relacionados a ciências naturais e história foram organizados pelo Núcleo de Comunicação em parceria com os professores, pesquisadores, colaboradores e a direção do museu.

 

No site oficial http://www.museunacional.ufrj.br e no @museunacional1818, projetos como a Programação para os 202 anos do Museu Nacional e a série Museu Nacional Live possuem disponibilidade de acesso. Os temas que foram apresentados são variados, dentre eles: As Mulheres das Ciências no Paço de São Cristóvão, Descobrindo o Museu Nacional: um pequeno guia de viagens pelo nosso website, QUIZ do Museu Nacional/UFRJ, Projeto Coral Vivo e Mulheres com Ciência.

 

Em uma live realizada no dia 29 de abril, no perfil do instagram da instituição história, sobre gestão em período de pandemia, um dos pontos debatidos foram os desafios que o museu vem enfrentando. O convidado para o bate-papo semanal foi o diretor do museu, o Alexandrer Keller

“É absolutamente fundamental que a gente não deixe a sociedade fora desse processo, no nosso caso, a reconstrução do museu. O que nós temos feito? São ações vias plataformas digitais. A gente quer fazer um seminário para discutir o futuro do país e museus pós pandemia.” concluiu Alexandrer

 

Outro assunto mencionado na live foram os planos futuros para o espaço cultural no parque Quinta da Boa Vista

“A gente pensa em desenvolver mais projetos no terreno que recebemos do governo federal de mais ou menos 44 mil m², que é adjacente ao parque, estamos atuando para as novas instalações acadêmicas do museu e queremos construir um centro educacional, um laboratório ao ar livre, é um projeto de extensão” explicou o diretor do MN ao vivo

 

Museu Nacional - Panorama dos Acervos: Passado, Presente e Futuro

 
Capa Livro Museu Nacional - Panorama dos Acervos: Passado, Presente e Futuro

Capa Livro Museu Nacional - Panorama dos Acervos: Passado, Presente e Futuro

Imagem: http://www.museunacional.ufrj.br/
 

Na última sexta-feira (31) do mês de julho, foi lançado por meio de um webinário no canal oficial do Youtube da instituição histórica a obra Museu Nacional - Panorama dos Acervos: Passado, Presente e Futuro. A reunião online, contou com a apresentação do comunicador de Ciências do Natural History Museum, Khalil Thirlaway; Cristiana Serejo, vice-diretora e diretora adjunta de coleções da instituição; Soraia Salvador, dirigente do programa Wildlife Photographer of the Year Natural History Museum; Gabriela Bittencourt, cientista do Natural History Museum; Ruy Valka, curador do herbário e docente do museu. 

 

O livro digital é fruto de uma parceria com o Conselho Britânico Brasil e tem como foco principal fortalecer a missão do Museu Nacional como um espaço plural que estimula a memória nos unindo as origens do país. Para a vice-diretora, o museu deve ser visto como um local acessível a sua comunidade que busca adaptação em meio às novas demandas 

 

“O museu tem que estar sempre em conexão com a sociedade, é uma relação de retroalimentação. (...) Os museus têm que ser mais inclusivos, precisamos ter a visão de que não é para a elite, precisa trazer as pessoas e despertar sentimento de pertencimento. (...) É importante entender de onde a gente veio, nossa história, toda essa relação.” concluiu Cristina na conferência ao vivo 

 

Disponível para download gratuito, a obra, de acordo com a diretora adjunta das coleções também é fundamental para que o tamanho e importância dos acervos institucionais possam ser compreendidos

 

“Grandes tragédias nos fazem refletir sobre o significado dos nossos tesouros e como melhor podemos preservá-los e compartilhá-los com a sociedade. Estamos trabalhando nessa direção com o planejamento de novos prédios de coleções com segurança e sustentabilidade. (...) O Museu Nacional continua sendo uma casa de fazer e divulgar ciência e cultura de excelência. Precisamos do apoio de todos neste momento de reconstrução” - trecho finalizador do capítulo Panorama Geral dos Acervos, assinado pela vice-diretora.
 


INTERAÇÃO
A
Seção de Assistência ao Ensino (SAE) do Museu Nacional foi criada em 1927, em um momento na qual a ciência brasileira estava sendo desenvolvida. De acordo com seu fundador, o médico legista, antropólogo e professor, Edgar Roquette Pinto, a divisão nasce do intuito de tornar o Museu Nacional um espaço educacional e didático, estimulando assim, a relação escola-museu.  A partir disso, a ciência entra em um processo de popularização, deixando de ser um assunto distante e de difícil compreensão. 


Recentemente, a SEA afirmou sua missão como órgão mediador entre a pesquisa científica e a comunidade. Além disso, outros papéis foram destacados, como: auxílio de professores e estudantes, orientação do público visitante ao museu, criar exposições e campanhas assim como divulgá-las, promover cursos, palestras conferências e principalmente, emprestar a Coleção Didática para escolas.

 

O ex-educador mediador da SEA, jornalista e cientista social, Mateus Breyer acredita na importância dos conteúdos nas plataformas do MN. Entretanto, para ele, não se iguala ao valor de uma visita presencial e o objetivo da SEA era justamente oferecer uma “ponte direta com o público”. Como bolsista na UFRJ, Mateus teve contato com diferentes tipos de visitantes, esperado, programado (escolas privadas e públicas) e o estimulado por meio de ações no exterior do palácio

“Tinha um abrigo entre a Quinta da Boa Vista e o metrô, íamos naquele abrigo, levávamos o acervo móvel e tátil para chamar atenção daqueles moradores, para que eles fossem no MN. A  gente conseguiu com muito sucesso, (...)  um dia a gente encontrou um desses moradores fazendo a mediação com o público da Quinta da Boa Vista, ele tinha se tornado mediador voluntário. Foi quando a gente percebeu que aquele nosso projeto de público estimulado teve o efeito desejado” declarou o ex-bolsista da UFRJ. 


Outro ponto debatido com o cientista social foram as expectativas com os planos futuros do Museu Nacional tendo em vista as doações de peças vindas de países estrangeiros 

“Quando se fala do nosso museu, a gente não pode pensar em uma possibilidade de reconstrução com peças doadas de outros países. Você vai ter outro museu mas não aquele museu que tinha uma relação de produção de conhecimento científico muito específico. Por conta disso e pela história da localização que ele tinha, tinha uma memória afetiva com muitas pessoas - moradores do Rio de Janeiro e pesquisadores que trabalham lá. (...) São quase um século de pesquisa, não há dinheiro que consiga refazer o que era o Museu Nacional, seja pela importância das peças que não podem ser novamente conseguidas, você vai conseguir outra peça, outra história mas não aquela peça, aquela história.” comentou o jornalista

Para o ex-mediador da instituição pública, a situação do Museu Nacional há dois anos atrás era uma tragédia anunciada e estava perceptível como o 3° andar do museu necessitava de manutenção. Para ele, incentivar um órgão como a SAE era um ponto indispensável para que houvesse uma maior conscientização do público sobre a importância do local e de seus acervos

“A reflexão veio depois do incêndio, os discursos acadêmicos e academicistas falavam sobre a valorização daquele museu mesmo dentro, mas a SAE era como um órgão secundário. Falei isso em uma assembleia na UFRJ,  se os doutores e pesquisadores de todas instituições que foram citados, em apoio ao MN se preocupassem não somente com suas pesquisas mas principalmente com o repasse daquele conhecimento produzido através de órgãos educativos como a SAE, talvez a população soubesse ou tivesse mais consciência do que se perdeu”  finalizou Mateus.

 

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