14/08/2020 às 19h24min - Atualizada em 14/08/2020 às 19h17min

Linguagem não binária: por que é necessário e tão difícil implantar uma linguagem inclusiva para todos?

O movimento de inclusão e reconhecimento de pessoas de gênero não binário tem como uma das pautas a adaptação da língua portuguesa

Ana Thereza Amaral - Editado por Letícia Agata
Símbolo da identidade de gênero não binária Via: Internet/Reprodução

Com o fortalecimento do movimento LGBTQIA+ nas últimas décadas, cada vez mais os indivíduos que se identificam como de gênero não binário ou gênero fluido ganham reconhecimento em meio a sociedade. Por vezes esse momento de descoberta e aceitação se choca com diversos preconceitos fincados na nossa formação cultural ou até mesmo a falta de conhecimento por parte de determinados grupos de pessoas que, por consequência, leva à exclusão e invalidação dessa minoria social que luta por reconhecimento.



Bandeira do orgulho não binário. Via: Internet/Reprodução

 

Um dos assuntos que virou pauta recorrente nos últimos anos é a necessidade de criação de uma linguagem que abranja pessoas que não se encaixam na binaridade de gênero. A língua portuguesa, assim como alguns outros idiomas derivados do latim, têm como gêneros linguísticos apenas dois: masculino e feminino. Entretanto, na língua de origem (o latim), haviam três: feminino, masculino e o gênero neutro, normalmente utilizado para se referir, de maneira geral, às pessoas ou coisas.

Porém, com o passar do tempo e o surgimento dos idiomas e dialetos descendentes, esse terceiro gênero flexional foi perdido, deixando apenas a binaridade. Essa forma de linguagem também reforça o machismo, uma vez que pronomes masculinos são tomados como substitutos dos neutros.

 

Recentemente, pessoas que apoiam essa movimentação de mudança gramatical vêm buscando alternativas para tornar a língua portuguesa mais abrangente. Uma das maneiras utilizadas é a substituição de pronomes por termos neutros, como por exemplo “pessoa” ou “indivíduo”, ou até mesmo o próprio nome da pessoa, geralmente suprimindo artigos, inclusive nas contrações de preposições (como: da/do, substituir por de).

Outra técnica é o “sistema ELU”, utilizado apenas ao se referir a pessoas e não válido para objetos e animais, que tem como propósito criar o gênero linguístico neutro, através da substituição pela vogal “u” no final de pronomes, e a vogal “e” para o final de substantivos e adjetivos (ex.: elus são amigues).

 

Para pessoas como Dex, de 20 anos, estudante de Publicidade e Propaganda, que se identifica como indivíduo de gênero não binário, é essencial que se adotem mudanças na língua portuguesa que fujam dessa bifurcação, como um mínimo sinal de inclusão e validez. Sobre a necessidade da criação de uma linguagem agênero, Dex afirma:
 

“Partindo do conceito atribuído ao termo ‘não binário’ como um termo guarda-chuva, isto é, um termo que abrange as variadas identidades de gênero que não se prendem apenas à um conceito de dualidade binária, vejo a necessidade da linguagem neutra como um grande ato de inclusão e, essencialmente, respeito”.


A falta de termos inclusivos gera um desconforto e exclusão para as pessoas que não se enquadram nessa dualidade, muitas vezes forçando-as a assumirem determinado gênero em certas situações.

 

“A linguagem binária existe de um histórico sociocultural categorizado. Ela é muito importante na contextualização de afirmação e contemplação de algumas identidades de gênero, porém, infelizmente, acaba marginalizando quem não se sente representado por ela.

No meu dia a dia, ela acaba reforçando estereótipos de gênero e de expressão de gênero em que eu, pessoalmente, não me encaixo, gerando certo desconforto. Dito isto, é gerada uma grande pressão social para que eu me encaixe em uma determinada bolha e local e, consequentemente, me comporte e me posicione da forma que é atribuída aos mesmos”, conta Dex.

 

Contudo, além de todos os preconceitos que rondam essa luta por mudança, há uma outra barreira: a dificuldade de adaptação da linguagem neutra no cotidiano, principalmente na língua falada, uma vez que causa estranheza por serem termos recentes e que irão levar um certo tempo até serem totalmente encaixados no português.

 

Até um certo tempo atrás, algumas pessoas utilizavam ‘x’ ou ‘@’ para substituir vogais, neutralizando as palavras (como a exemplo "tod@s", ao invés de "todos", ou "amigx", ao invés de amigo), porém, além de ser praticamente impossível pronunciar palavras escritas dessa maneira, acaba não sendo inclusivo. Muitos deficientes visuais utilizam mecanismos de leitura em seus celulares ou computadores e essas ferramentas não fazem a leitura de palavras nesse estilo, uma vez que não existe uma pronúncia definida.



Uso incorreto da linguagem neutra em campanha publicitária. Via: Internet/Reprodução
 

Mesmo com o uso do “sistema elu”, ainda é difícil para algumas pessoas se adaptarem com essa linguagem. O grupo mais afetado ao tentar lidar com essas modificações é o de pessoas que possuem deficiências cognitivas, principalmente para leitura, já que têm que aprender novas flexões de pronomes, adjetivos, substantivos, etc. Além disso, essa mudança, principalmente por ser algo recente, afeta também pessoas idosas, que já estão habituadas ao uso da língua na sua forma padrão há décadas e, por muitas vezes, não compreendem o surgimento desse terceiro gênero linguístico.

 

Para a psicopedagoga Kariny Sena, “a linguagem formal por si só é de difícil compreensão para pessoas com deficiência cognitiva. Um terceiro gênero linguístico passa a ser mais um dificultador de compreensão”. Kariny explica que para quem tem deficiência cognitiva, qualquer alteração na língua é um complicador, especialmente para portadores de dislexia, que têm, por natureza, dificuldades em leitura

 

Porém, Kariny não descarta a possibilidade de uma possível mudança no futuro. “É difícil prever o que possa vir a acontecer, mas percebo que vivemos um momento de grande abertura para qualquer tipo de inclusão. Só precisamos achar um caminho de uma linguagem que seja verdadeiramente inclusiva”, afirma ela. Ainda acrescenta que é um processo que deve acontecer de maneira gradual, assim como qualquer mudança, pois incluir é considerar que seja acessível e compreensível a todos.

 

De um modo geral, é uma mudança que leva tempo para ocorrer e a ideia precisa ser bem disseminada e de maneira clara. Não é uma mudança impossível se considerarmos, por exemplo, outros idiomas que têm uma maior pluralidade de gêneros linguísticos e são utilizados na comunicação rotineira. É apenas uma questão de adaptação.


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