21/08/2020 às 17h33min - Atualizada em 21/08/2020 às 17h21min

Com dinheiro e craques, PSG está a 90 minutos da glória

Equipe francesa entra em campo contra o Bayern de Munique para disputar sua primeira final de Liga dos Campeões

Felipe Sousa - labdicasjornalismo.com
Neymar celebra classificação contra o RB Leipzig (Foto: Manu Fernandez/Reuters)
Neste domingo (23), às 16h (de Brasília) em Lisboa, o Paris Saint-Germain disputará o maior jogo dos seus 50 anos de história ao enfrentar o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões. O caminho até a final no Estádio da Luz foi sinuoso e teve início antes mesmo da estreia do clube na competição, contra o Real Madrid em setembro do ano passado.

O projeto para conquista da Champions teve início em 2011, quando o Paris Saint-Germain teve 70% de suas ações adquiridas pelo fundo de investimentos Qatar Sports Investments (QSI), comandada pelo catari Nasser Al-Khelaifi, membro da família real do país árabe. O objetivo era claro: transformar o PSG, um clube do pelotão intermediário francês, até então, em uma potência esportiva. E, para os novos donos, isso necessariamente deveria passar pela conquista da Liga dos Campeões da Europa.

Antes do conglomerado do Catar desembarcar em Paris, o clube tinha um currículo, no máximo, razoável. Fundado em 1970, após a fusão de dois clubes da capital francesa (o Paris FC e o Stade Saint-Germain), o PSG penou para se estabelecer entre os grandes do futebol francês como Saint-Étienne, Stade de Reims, Bordeaux e Olympique de Marselha, este último o clube mais famoso do país, e até o momento, o único a ter conquistado a Liga dos Campeões, em 1993.


George Weah foi um dos símbolos do PSG na década de 90 (Foto: Hector Mata/AFP)

A maré mudou para o PSG em 1991, quando a emissora francesa Canal+ passou a investir no clube. A partir daí, jogadores como George Weah, Raí, Leonardo, Ricardo Gomes, Djorkaeff e muitos outros passaram a desfilar em gramados parisienses. Nesse período, o clube conquistou três Copas da França, duas Copas da Liga Francesa, o Campeonato Francês de 1993-94 e a Recopa da UEFA de 1995-96 (o único título internacional do clube até o momento). Tudo isso em uma época onde o futebol francês era visto com desconfiança devido ao escândalo de manipulação de resultados do Olympique de Marselha, que custou ao clube o rebaixamento para a segunda divisão francesa por duas temporadas e a vaga no Mundial de 1993.

Também foi nesse período que o PSG fez sua melhor campanha em Liga dos Campeões: na temporada 1995-96, os franceses passam por Bayern de Munique na fase de grupos e Barcelona nas quartas de final, antes de serem derrotados na semifinal pelo Milan. O investimento seguiu forte nos anos seguintes, com a contratação de jogadores como Ronaldinho Gaúcho e Mauricio Pochettino, mas os títulos não vieram e o PSG voltou à época de vacas magras. A equipe teve campanhas discretas e chegou a flertar com o rebaixamento por algumas temporadas.

A compra do PSG pelo fundo QSI simbolizava uma nova era para o clube, que teria dinheiro quase infinito para investir no time. A partir daí, chegaram a Paris jogadores como Ibrahimovic, Thiago Silva, David Luiz, Cavani e Di María. Ainda que a equipe tenha estabelecido uma hegemonia nacional ao conquistar quatro Campeonatos Franceses seguidos não conseguiu dar o passo adiante na Liga dos Campeões, com quatro eliminações seguidas nas quartas de final para Barcelona (duas vezes), Chelsea e Manchester City. O clube catalão, em especial, impôs ao PSG uma eliminação humilhante na temporada 2016-17: após vencer no Parc des Princes por 4x0, o clube foi goleado por 6x1 no jogo de volta, sendo a primeira vez na história da competição em que um clube fora eliminado após abrir vantagem de quatro gols na ida.


Jogadores do PSG lamentam gol sofrido contra o Barcelona (Foto: Lluis Gene/AFP)

AS CHEGADAS DE NEYMAR E MBAPPÉ 

Neymar durante apresentação no PSG (Foto: Christian Hartmann/Reuters)

Como resposta à pressão da torcida pela eliminação da Liga dos Campeões e a perda do título francês para o Monaco, Nasser Al-Khelaifi decidiu abrir ainda mais o bolso e trouxe justamente um dos carrascos do PSG naquele 8 de março no Camp Nou: Neymar foi comprado do Barcelona por 222 milhões de euros, naquela que é até hoje a transferência mais cara da história do futebol. Al-Khelaifi não parou por aí e também contratou Kylian Mbappé, destaque do Monaco na temporada anterior.

Ainda que tenha reconquistado o Campeonato Francês, o PSG caiu duas vezes seguidas nas semifinais da Liga dos Campeões: em 2017-18, para o futuro campeão Real Madrid; em 2018-19, a eliminação foi com requintes de crueldade: após vencer o Manchester United fora de casa por 2x0, o time perdeu em Paris por 3x1 e caiu pelo critério dos gols marcados fora de casa – Neymar, lesionado, apenas presenciou a eliminação do clube.

Neymar, por sua vez, não deixou de causar polêmicas: foi acusado de ser descompromissado ao viajar para o Brasil e participar do Carnaval enquanto estava machucado, agrediu um torcedor rival após a derrota do PSG para o Rennes na final da Copa da França de 2018-19 e forçou uma saída de volta ao Barcelona. Foi afastado do elenco principal, causou a ira da torcida parisiense e apenas foi reintegrado após o fechamento da janela de transferências. Foi com esse clima turbulento que o Paris Saint-Germain iniciou o que pode ser sua temporada mais vitoriosa na história.

A campanha de 2019-20

O PSG caiu no Grupo A ao lado de Real Madrid, Club Brugge e Galatasaray. Na estreia contra os espanhóis, a equipe não tomou conhecimento e aplicou uma goleada de 3x0, com dois gols de Di María. A equipe manteve o nível no decorrer da fase de grupos ao vencer os belgas (5x0 e 1x0) e turcos (1x0 e 5x0) duas vezes. O empate por 2x2 com o Real Madrid na volta impediu os 100% de aproveitamento, mas foi o bastante para garantir a segunda melhor campanha na fase de grupos.

Nas oitavas de final, o PSG teria pela frente uma das sensações da temporada: o Borussia Dortmund de Jadon Sancho e Erling Haaland, este último um dos artilheiros do campeonato. No jogo da ida, na Alemanha, os aurinegros venceram com dois gols do norueguês, mas o gol fora de Neymar manteve as esperanças. No jogo da volta, em um Parque dos Príncipes já sem público devido à pandemia do novo coronavírus, Neymar comandou a remontada sobre o Dortmund: vitória por 2x0 com direito a provocação a Haaland.

Esse foi um dos últimos jogos na Europa antes da paralisação total devido à pandemia. Na França, a Liga de Futebol local decidiu encerrar o campeonato e declarar o PSG vencedor (a equipe estava com 12 pontos de vantagem em relação ao segundo colocado). No período até o retorno da Liga dos Campeões, o PSG venceu a Copa da França contra o Saint-Étienne e a Copa da Liga Francesa contra o Lyon. O adversário nas quartas da Champions League, no entanto, inspirava muito mais cuidados.

A VIRADA HISTÓRICA CONTRA A ATALANTA 

Neymar e Choupo-Mouting comemoram classificação contra a Atalanta (Foto: David Ramos/Getty Images)

A Atalanta, a despeito de ser sua primeira participação na Liga dos Campeões, realizara uma campanha impressionante: dona de um dos melhores ataques da Europa (marcou 98 gols apenas no Campeonato Italiano), a equipe italiana avançou em segundo no Grupo C, com Manchester City, Shakhtar Donetsk e Dínamo Zagreb. Nas oitavas, despachou o Valencia com duas vitórias. Dado o histórico vacilante do PSG em mata-mata da Liga dos Campeões e os desfalques (com Verratti e Di María fora, além de Mbappé sem condições de jogar 90 minutos), as condições eram de certa forma favoráveis.

Neymar chamou a responsabilidade, ajudando no drible, na criação de jogadas e na finalização (perdeu duas chances que não costuma perder). No entanto, o jogo coletivo da Atalanta se sobressaiu, e Pasalic abriu o placar em um golaço. Parecia que o filme iria se repetir novamente. Mas a Atalanta perdeu fôlego e recuou. Com a entrada de Mbappé, o PSG ganhou mais volume e partiu para o ataque. Aos 45 do segundo tempo, Marquinhos empatou o jogo. Aos 47, após passe de Mbappé, Choupo-Mouting decretou a virada dos franceses. O PSG exorcizava mais um fantasma e igualava a campanha de 1995-96.

Não se pode deixar de mencionar o apoio maciço dado a Neymar nas redes sociais. Os brasileiros abraçaram o camisa 10 brasileiros com imagens, memes e correntes. Neymar correspondeu às expectativas e entregou uma noite histórica aos torcedores dos dois lados do Atlântico.

Na semifinal, mais uma equipe sensação: o RB Leipzig, também em sua primeira participação. Os alemães avançaram em primeiro no seu grupo, deixando para trás Lyon, Benfica e Zenit. Nas oitavas derrotaram o Tottenham, atual vice campeão; nas quartas, despacharam o Atlético de Madrid. Em campo, as peripécias do Leipzig pararam por aí: com Di María e Mbappé em campo, o PSG se impôs e dominou a partida. Marquinhos abriu o placar, Di María ampliou e Bernat fechou a conta no segundo tempo.

A GRANDE FINAL

O PSG, acima de tudo, demonstrou maturidade. Aprendeu com os traumas do passado e conseguiu atingir o patamar que todos esperavam desde 2011. O obstáculo para a glória completa se chama Bayern de Munique: uma equipe impiedosa, que apresenta o melhor futebol do planeta nos dias de hoje. Depois de colocar o Barcelona de joelhos e passar por cima do Lyon, a equipe de Robert Levandowski vem sedenta pelo sexto troféu de Liga dos Campeões.

Desde o início do torneio, os franceses chegaram à final seis vezes. Stade de Reims, Saint-Éttiene e Monaco fracassaram. O Olympique de Marselha fracassou na primeira tentativa e conquistou na segunda, mas seu único troféu sempre acompanhará o asterisco devido ao escândalo da manipulação -- embora UEFA tenha confirmado o título. O Bayern, por sua vez, foi o carrasco do Saint-Éttiene em 1976, mas das cinco vezes em que foi vice campeão, três delas foram para equipes que disputavam seu primeiro título (Aston Villa, Porto e Chelsea). Será um jogo histórico, não apenas pelas histórias de dentro de campo. O PSG terá a chance de ouro de colocar Paris no mapa do futebol de uma vez por todas.

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