22/08/2020 às 13h08min - Atualizada em 22/08/2020 às 13h06min

Mortes por Covid-19 e a normalização do anormal

Desumanização das mortes causa a falsa sensação de retomada da normalidade

Larissa Campos - Editado por Camilla Soares
Pessoas usando máscaras andam em rua movimentada - Foto por: Bruno Cecim/Ag.Pará
Com mais de 100.000 mortes por Covid-19 no Brasil, parte da população já adere a um processo de naturalização do atual estado pandêmico, o chamado “novo normal”. Bares, praças e parques lotados revelam uma dura realidade: para muitos, as mortes são apenas números sem rostos.

Este fenômeno, de acordo com psicólogo clínico Anderson de Arruda Menezes (CRP 15/5270), é decorrente de um processo de psicoadaptação que torna determinadas situações, ao longo do tempo, cada vez mais normalizadas. “Nós olhamos os casos e já não bate mais aquela questão da humanidade, porque nós estamos psicoadaptados. Aquilo já não causa mais tanta emoção e a partir do momento que não causa emoção, aquilo não muda os meus pensamentos, não muda o meu comportamento, não muda os meus sentimentos” explica.

Anderson pontua ainda sobre a existência dos “neurônios espelhos” no nosso cérebro, descobertos em meados dos anos 90 e que tem como função reproduzir comportamentos de outros indivíduos. Essa reprodução de comportamentos, na atual situação pandêmica, pode surgir ao ver outras pessoas saindo à lugares com a intenção de se divertir, gerando uma sensação de normalidade e consequentemente, o desejo por fazer o mesmo.

Além da naturalização, muitas vezes ocorre o fenômeno de negação da Covid-19 e suas consequências, dito pelo psicólogo como um processo de luto. Esse processo de luto ocorre pela perda da “liberdade” em meio ao isolamento social, levando o indivíduo a negação.

A solução para minimizar a naturalização de mortes, nas palavras de Anderson, seria uma educação voltada a humanização, incentivando a prática de empatia e aproximação das pessoas, despolitizando a pandemia. “Existe um abismo intransponível entre aquele que sente, para aquele que está sentindo e para aquele que está vendo. A coisa mais sensata a ser feita seria humanizar o processo” completa.

Naturalização e as camadas socialmente vulneráveis

Augusto Salvador Baptista, estudante de licenciatura e bacharelado em ciências sociais, destaca que há um pensamento de “bem, pelo menos não é comigo, é com o outro" ao se tratar das mortes por Covid, sendo o “outro”, grande parte das vezes, a população socialmente vulnerável.

Isso é constatado em uma pesquisa do programa Cidades Sustentáveis, que mostra a relação entre a situação social e a mortalidade por Covid-19. De acordo com o levantamento, as capitais com maior número de pessoas abaixo da linha da pobreza também apresentam elevada taxa de mortalidade por Covid-19.

É o caso de São Luís, Recife e Manaus, onde mais de 30% da população vive com menos de US$ 5,5 por dia (faixa que define a linha da pobreza, segundo o Banco Mundial), e o registro de óbitos é de mais de 40 óbitos para cada 100 mil habitantes, situação que se difere muito de capitais como Florianópolis, que apresenta indicadores melhores em relação a pobreza, onde apenas 9% da população vive com menos de US$ 5,5 por dia e a taxa de mortalidade não chega a dois óbitos por 100 mil habitantes.

Dessa forma, a pandemia, segundo Augusto, está aprofundando as desigualdades já conhecidas e trazendo luz às que ainda não tínhamos conhecimento. “O passado colonialista, escravagista e misógino do país desaguou em uma população sem acesso a saúde, informação, emprego, nutrição, segurança e condições sanitárias minimamente necessárias para a sobrevivência humana” afirma.

O estudante frisa ainda que o atual governo tem uma participação importante no processo de naturalização das mortes ao deslegitimar e polarizar a pandemia com a dicotomia do “devemos salvar vidas ou a economia?".

“O dever fundamental do estado é salvar vidas, depois vem a distribuição dos recursos. Economia se trata de distribuir recursos que são finitos. Por isso, comparar vidas ou economia é uma falsa dicotomia. Isso não deveria nem ser questão, mas o chefe do executivo fez isso, e ao fazer isso deu legitimidade para uma necropolítica: uma política da morte sobre corpos que ‘podem ser mortos’ " declara.

Para ele, as consequências econômicas, sanitárias, educacionais e psicológicas irão perdurar a longo prazo, na medida em que “a cada morte normalizada, outras tantas são possíveis” completa.
 
Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »