29/08/2020 às 17h11min - Atualizada em 29/08/2020 às 22h56min

Queimadas no Pantanal já consumiram mais de 10% do bioma apenas em 2020

Bioma passa pela maior seca da história recente e enfrenta a possibilidade de agravamento de problemas respiratórios da população em plena pandemia

Ana Paula Cardoso - Editado por Caroline Gonçalves
Foto: André Zumak
Segundo o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA), a queimada no Pantanal já destruiu o equivalente a nove vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro. O número de focos na região já é o maior número mapeado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) desde 1998, ano em que o monitoramento começou a ser realizado.

A quantidade de fogo gerado é tão grande que é comum cidades como Corumbá e Ladário ficarem cobertas por fumaça, prejudicando a situação respiratória dos moradores. Além disso, o bioma enfrenta uma das maiores secas da história recente, colocando em risco a vida de diversas espécies, até mesmo de animais ameaçados de extinção.

Bióloga e coordenadora técnica de projetos no Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Letícia Larcher também é residente de Corumbá, fronteira do Brasil com a cidade de Porto Quijarro, na Bolívia, ela conta que no início do mês de agosto chegaram a ficar cerca de dez dias com uma névoa sobre o ar, fazendo com que o dia aparentasse estar nublado, isso porque, uma estrada a cerca de dez quilômetros do centro, que leva a uma área de proteção ambiental chamada de Baía Negra pegou muito fogo.


 
“O vento trouxe toda a fumaça para o centro da cidade”, relata.
“Agora eu tenho o costume de lavar a roupa e colocá-la para secar dentro de casa, porque se eu deixar do lado de fora vai parecer que eu sequei em uma churrasqueira, fica parecendo que eu estava em um churrasco em ambiente fechado, é muito estranho”, diz Letícia.
De acordo com Letícia, o pantanal é cíclico, ele tem ciclos de cheia e seca, é algo comum e natural, faz parte do regime hídrico dele passar por uma fase de seca, mas existem alguns fatores que favorecem para que essa seca seja demasiada “alguns fatores como mudanças climáticas, desmatamento, avanço da agricultura, estão contribuindo para essa seca no Pantanal e aí a gente tem o regime cíclico que está em um momento de seca junto com o aceleramento desse processo através de ações humanas e combinado com uma temporada de muito fogo”, afirma.
“Tudo que não queimou nos últimos anos, está queimando agora”, reconhece.

No Pantanal é algo muito cultural colocar fogo, eles colocam fogo para tratar matérias velhas, eles tem costume de colocar fogo, mas muitas vezes o próprio pantaneiro controla aquele fogo “pode acontecer dele fugir do controle e não no sentido dele criar um crime ambiental, mas na combinação da seca com a falta de chuva, esse fogo que começa pequeno acaba saindo do controle”, declara Larcher.
 
“O fogo aqui no Pantanal tem a característica de pegar mais ou menos uma camada de 40 centímetros de matéria orgânica no solo e passar em baixo dele, então você acaba achando que controlou o fogo, mas ele vai se espalhando pela raiz e vai sair lá na frente e criar um novo foco”, esclarece.


 
“A questão do controle do fogo é que o seu combate nessa época é muito difícil e tem uma chance muito grande dele acontecer”, afirma a bióloga.
Segundo ela, na sua região moram 8 espécies de mamíferos ameaçados de extinção e que tem seu habitat totalmente afetado pelo fogo, principalmente porque alguns apresentam baixa mobilidade, como por exemplo, o Tatu-canastra e o Tamanduá-bandeira, que são duas espécies que se locomovem muito devagar “o fogo chega, queima a toca deles e eles não conseguem fugir, ao contrário dos felinos como a pantera, a onça pintada e a onça parda, elas correm e encontram outras áreas, só que eles podem estar entrando no território de outro felino e podemos ter um problema por não ter espaço para todo mundo”, alega.

Ao comentar sobre como as aves são afetadas pelo fogo, ela garante que elas sofrem da mesma maneira que os outros animais, até porque elas perdem muitas vezes o seu local de descanso e ninho “como é o caso da Arara-azul, ela tem preferência por um tipo de toco para fazer o seu ninho e quando ocorre a queimada nesses tocos elas apresentam uma dificuldade para se adaptar a outro ninho”, diz Letícia.
“Você pode ter uma geração da espécie afetada porque em um ano elas não se reproduziram”, analisa.

“Não existiu uma trégua pro bicho, áreas inteiras foram queimadas e dizimadas, é muito difícil estimar e dizer como que essas populações irão se recuperar”, conta.
Eles possuem a estimativa de que irá chover em outubro, entretanto, de acordo com Letícia, o boletim meteorológico do sistema do Instituto Nacional de Pesquisas (INPE) aponta que esse ano terão menos chuva do que a média histórica “ai que está o ponto complicado, porque essa vegetação depende da chuva para florescer novamente e a chuva depende de alguns fatores climáticos, sendo que, alguns nós [humanos] controlamos e outros não, então é complicado dizer em quanto tempo essa vegetação irá se recuperar”, expõe a coordenadora técnica de projetos do Instituto Homem Pantaneiro.


 
O Instituto SOS Pantanal começou o seu projeto a 11 anos atrás, tendo o propósito de realizar a conexão entre a sociedade civil e os governantes “70% do total de recursos e do tempo da organização são investidos na atividade de ouvir as demandas da sociedade civil e levar para o poder público, articulando com o governo políticas públicas em prol de um Pantanal sustentável, os outros 30% são investidos na comunicação do Pantanal, através das redes sociais e das expedições que realizamos”, conta Gustavo Figueirôa, biólogo e integrante da equipe de comunicação do SOS Pantanal.


 
“Nosso foco é realizar essa articulação, tentar aprovar leis, projetos, falando do Pantanal e colocando ele no mapa”, declara.

“A gente não preserva o que a gente não conhece, não adianta a gente cobrar que a população, os deputados se engajem pelo Pantanal, se eles nem sabem onde é e o que é”, garante Figueirôa.

 
De acordo com o biólogo, o Pantanal é muito mais frágil por fora do que por dentro, ele depende muito mais do entorno do que dele mesmo, ele depende de nascentes que não estão localizadas dentro do próprio Pantanal, todas são do lado de fora “o que precisa ser feito é uma conscientização em massa das pessoas, uma ou duas ações pontuais não irão resolver o problema, é uma mentalidade coletiva que tem que mudar”, afirma.

“Dentro do Pantanal não há problema, precisamos olhar do lado de fora e lá a situação é mais crítica, o Cerrado por exemplo, é um bioma que está muito destruído, muita coisa precisa mudar” diz.

Além disso, o Instituto SOS Pantanal é responsável pelo monitoramento vegetal do Pantanal do MAPBIOMAS, um sistema de monitoramento do uso do solo no Brasil, segundo Figueirôa, mais de 80% da cobertura vegetal está preservada e cerca de 95% do Pantanal é pertencente a área privada, só 5% são de áreas públicas “diferente da Amazônia, em que existe a ocorrência de invasões em áreas públicas, a organização dos fazendeiros aqui já ocorre muito bem durante muitos anos, então o bioma se mantém preservado, mas isso não quer dizer que ele está intacto, ele está apenas protegido”, esclarece.


 
“Nós apoiamos o desenvolvimento econômico, não acreditamos que a conservação ambiental seja possível sem o ser humano, excluindo o homem pantaneiro do processo, pelo contrário, o homem pantaneiro foi quem ajudou a manter o Pantanal preservado até hoje, é um dos biomas mais preservados e tudo isso porque o homem pantaneiro se desenvolveu de uma maneira muito harmoniosa”, reconhece.

“Nós queremos desenvolver a região, queremos que o Pantanal se desenvolva, seja um polo de ecoturismo e de produção rural, mas tudo isso pode ser feito de uma maneira sustentável sem agredir o meio ambiente”, assegura o biólogo.
Gustavo conta que o bioma pantaneiro não tem vocação para plantações, exatamente por isso que eles são contra as plantações de soja ou outras monoculturas dentro do Pantanal, porque o seu solo é pobre, o próprio regime de secas e cheias impossibilita isso, ao contrário, a criação de gado é uma atividade que é a vocação do bioma.



A frente fria que veio na semana passada trouxe chuva e amenizou a situação no Pantanal Sul, apagou boa parte dos focos, mas como essa semana continuou quente e seca por lá, os focos voltaram, sendo que, os focos na região Norte não pararam, eles continuaram.
“Se [todos] continuarem a negligenciar o meio ambiente como ainda está até hoje, o cenário futuro não é muito bom”, assegura o biólogo acerca do que pode acontecer futuramente caso o cenário continue o mesmo.
Médico pneumologista e chefe de equipe de Pneumologia do Hospital Samaritano de São Paulo e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, afirma que as consequências da poluição para o sistema respiratório são imensas, desde irritação e corrimento do nariz, irritação na garganta, sinais de rinite ou de sinusite, até doenças mais graves, como por exemplo, bronquite crônica e enfisema no pulmão.

Além disso, segundo o Dr. Mauro, as pessoas expostas a poluição podem inclusive apresentar maior risco de desenvolvimento de câncer de pulmão, mas a poluição não faz estragos somente no sistema respiratório, ela também causa estragos no sistema cardiovascular, isto é, coração e circulação.
“A poluição não é só prejudicial ao sistema respiratório e ao pulmão, mas também ao coração e a circulação”, declara o médico pneumologista.


 
O médico pneumologista assegura que o coronavírus não tem menor ou maior facilidade de transmissão pelo ar poluído ou não, agora, os vírus respiratórios que causam doenças pulmonares durante a pandemia da covid-19, possuem maior facilidade para penetrar o organismo de pessoas que já apresentam uma doença pulmonar ou uma doença cardíaca prévia, elas estarão mais expostas a infecções por vírus, especialmente o coronavírus.

“As pessoas que já possuem doenças respiratórias crônicas, como bronquite crônica, enfisema pulmonar ou pessoas que tem outras doenças crônicas ou asma desde a infância, na qual acontecem crises repetidas com muita falta de ar, todas essas pessoas expostas ao ambiente com maior poluição podem ter as suas doenças agravadas”, diz.

“A poluição pode ser um fator de gatilho para que as pessoas entrem em crises respiratórias, pode ser um estimulo, um fator desencadeante”, garante o Dr. Mauro Gomes.

 
A poluição pode afetar indistintamente crianças, jovens, adultos, idosos, todos irão sofrer com a exposição “o fato é que nas crianças o sistema imunológico não está completamente desenvolvido e pode desenvolver desde o início de sua vida sérias doenças respiratórias, em relação aos idosos, eles habitualmente possuem alguma doença crônica e com a exposição a poluição, podem sofrer um agravamento da (s) doença (s) que apresentam”, relata.
“É importante que as pessoas mantenham o seu ambiente doméstico limpo, ventilado, é importante evitar o acumulo de pó pela casa, evitar o uso da vassoura pela casa, pois ela vai jogar o pó para cima e vai aumentar a exposição ao pó, o indicado é o uso de pano úmido sobre os móveis e piso, se possível, utilizar o aspirador de pó, evitar a umidade na casa, pois é um fator que eleva o aparecimento de fungos, evitar que o travesseiro seja de pena e principalmente não fumar dentro de casa, se for um local com muita poluição, é necessário que todo esse processo seja realizado diariamente”, alerta.

“Se as pessoas que estiverem expostas a poluição apresentarem sinais de doenças respiratórias ou doenças cardíacas, elas devem buscar uma avaliação médica e se for um caso de emergência buscar o hospital”, afirma o médico pneumologista.
Para saber mais sobre os entrevistados, acesse:
https://www.institutohomempantaneiro.org.br/historico
http://www.sospantanal.org.br/quem-somos
https://www.drmaurogomes.com.br/#gsc.tab=0

#dicasjornalismo #meioambiente #brasil #jornalismo #pantanal


REFERÊNCIAS:
ARINI, Juliana. Cavalo, Mata. O Pantanal queima e aumenta a pressão sobre a gestão ambiental no Brasil. EL PAÍS. 21/8/2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2020-08-21/o-pantanal-queima-e-aumenta-a-pressao-sobre-a-gestao-ambiental-no-brasil.html. Acesso em: 23/8/2020.
LEMOS, Vinicius. Por que o Pantanal vive ‘maior tragédia ambiental’ em décadas. BBC NEWS. 5/8/2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53662968. Acesso em: 23/8/2020.
GOMES, Cristiano. SOARES, Aguinaldo. CASTRO, Nadyenka. TV Morena. G1 MS. Queimada no Pantanal de MS já destruiu área equivalente a 9 vezes o tamanho do RJ, diz IBAMA. G1. 6/8/2020. Disponível em: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2020/08/06/queimada-no-pantanal-de-ms-ja-destruiu-area-equivalente-a-9-vezes-o-tamanho-da-cidade-do-rio-de-janeiro.ghtml. Acesso em: 23/8/2020.
Redação. Queimadas durante pandemia podem agravar crise sanitária. CicloVivo. 12/6/2020. Disponível em: https://ciclovivo.com.br/covid19/queimadas-durante-pandemia-podem-agravar-crise-sanitaria/. Acesso em: 23/8/2020.

 






 

 

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »