30/09/2020 às 22h00min - Atualizada em 30/09/2020 às 22h00min

Como as redes sociais podem ter impacto destrutivo na democracia e humanidade?

O artigo é sobre o documentário, ‘O Dilema das Redes’ traz um alerta para os usuários de como os modelos de negócio da indústria da tecnologia mantém as pessoas conectadas à tela

Thaís Santos - Editado por Fernanda Simplicio
Divulgação/ Revista Fórum

Se você já assistiu ao documentário ‘O Dilema das Redes’,  certamente observou que ao contrário de outros documentários que geralmente levantam uma questão e trazem logo em seguida inúmeros argumentos de prós e contras para debatê-la. No longa é mostrado apenas uma bandeira. A bandeira que se quer defender é mostrada ao espectador como um alerta e uma mensagem clara e direta ao público: você está sendo manipulado... assim mesmo, com essa abordagem. As redes são prejudiciais na esfera individual e coletiva.

O filme então traz entrevistas com programadores, engenheiros, executivos, idealizadores, ex-funcionários de algumas companhias de tecnologia mais importante do mundo (Google, Facebook, YouTube, Pinterest, Twitter, Instagram etc.), contando para o espectador suas preocupações em relação ao rumo tomado das redes sociais na vida das pessoas e os impactos causados na sociedade.

O Dilema das Redes divide o conteúdo das entrevistas e cenas de ficção, mostrando em sua narrativa a rotina de uma família, especificamente acompanhando três jovens irmãos: a caçula dos irmãos é a Isla, uma adolescente viciada nas redes sociais; a mais velha é resistente ao poder das redes; e o irmão do meio fica no meio termo entre ficar ou não o tempo todo na Internet, é ele que inclusive ganha maior destaque no filme.  

 

Nossa democracia está sob ataque


Em um trecho do documentário é falado que as ferramentas que foram criadas começaram a desequilibrar as relações e o funcionamento da sociedade.   

No documentário, alguns dos entrevistados citam questões éticas como um dos principais motivos para terem saído de seus antigos empregos. Eles relatam que estavam preocupados com essas questões. Qual é o problema da indústria de tecnologia?

O designer ético do Google, Tristan Harris (voz da consciência do Vale do Silício, como é conhecido), é um dos personagens principais do longa, foi ele que se deparou em algum momento com esse intuito para a tecnologia. Ele levanta alguns apontamentos dessa indústria que ao perguntar para as pessoas sobre a principal queixa, é mencionado temáticas como: escândalos sobre o roubo de dados e o vício em tecnologia, além das fake news, da polarização e da influência das eleições. Mas será que existe algo na raiz de todos esses problemas, algo que faz com que tudo isso aconteça?

A indústria manipula os usuários e o foco disso é para que as companhias lucrem em cima de tudo, ou seja, eles não dão a mínima importância em combater essa manipulação, então quer dizer que cada vez mais estamos sujeitos a ficarem enfeitiçados pelas redes? Vamos enlouquecer?

 

Saúde mental e as redes sociais


Se você estiver rolando sua linha do tempo nas mídias sociais o tempo todo, é bom saber que isso está destruindo sua vida. O tempo da produtividade é importante e eu te garanto que estar on-line não te tornará produtivo. E mais do que isso, sua mente será mais saudável se começar a se desconectar. Agora eu te pergunto, o desafio da nova era é ficar offline?  

No longa, Jaron Lanier autor do livro: ‘Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais’, conta sobre como as empresas geram lucro. ‘Se você não está pagando pelo produto, então você é o produto’.

As pessoas têm hábito de achar que o Google é só uma ferramenta de busca, que o Facebook é onde encontra amigos, familiares distantes... Bom, isso até poderia acontecer antes, quando o outro lado da moeda virou. O que as pessoas não percebem é que estão competindo com a sua atenção. De acordo com Tristan, ele conta durante o filme que o Snapchat, YouTube, Facebook, Twitter, Instagram etc., empresas assim, têm como modelo de negócio manter as pessoas conectadas à tela.

O objetivo é descobrir como manter o máximo possível da atenção dessa pessoa. Quanto tempo da sua vida podemos te convencer a nos dar? Justin Rosenstein conta que, ‘há vários serviços que consideramos gratuitos na internet. Mas que não são. Eles são pagos pelos anunciantes. Eles pagam em troca de mostrar os anúncios para nós. Nós somos o produto. Nossa atenção é vendida aos anunciantes’. Quando começamos a entender o mecanismo dessas empresas tudo faz sentido.

O produto é a gradativa, leve e imperceptível a mudança em nosso comportamento e nossa percepção. Tudo que você está fazendo na Internet está sendo assistido, rastreado e medido. Cada ação é monitorada e registrada cuidadosamente, diz Jeff Seibert, ex-executivo do Twitter durante o filme. É bizarro pensar que eles sabem a imagem exata que paramos para ver e por quanto tempo vemos.

Sabem quando as pessoas estão solidárias ou deprimidas, sabem quando estão olhando para fotos de ex-companheiros, sabe o que você faz tarde da noite, sabe qual é a sua personalidade. Sabem de tudo. Eles têm mais informação sobre nós do que  jamais se imaginou na história da humanidade.

 

A tecnologia se integra a nossa vida


Em 'O Dilema das Redes', somos como um boneco de vodu, todos os nossos cliques, os vídeos que assistimos, as curtidas, tudo isso ajuda a moldar um modelo mais fiel que prevê nossas ações, para criar um padrão de comportamento. É por este motivo que saber os nossos dados para essas empresas é tão importante para garantir nossa atenção a partir daquilo que gostamos.  

Para encerrar, em muitas dessas empresas de tecnologia, de acordo com a fala de Tristan, há três objetivos principais: o engajamento para aumentar o seu uso e te manter navegando, o de crescimento para que você sempre convide amigos e faça convidar outros amigos, e o objetivo da publicidade para garantir que enquanto tudo isso acontece estamos lucrando o máximo possível com os anunciantes. Esses objetivos são colocados em prática por algoritmos cujo trabalho é garantir o que te mostrar para manter os números aumentando.

Agora que você se deu conta de como as empresas de tecnologia agem, é bom ficar atento para não passar tanto tempo gerando lucros para eles e destruindo o seu tempo se alienando em massa. Mesmo em épocas de pandemia é interessante se desconectar.

REFERÊNCIAS:

Mello, P. C.  Documentário da Netflix 'O Dilema das Redes' assusta, mas oferece poucas respostas a dilema. Folha de São Paulo, 21 de set. 2020. Disponível em:< https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/09/documentario-da-netflix-dilema-das-redes-assusta-mas-oferece-poucas-respostas-a-dilema.shtml>.Acesso em 30 de set. 2020.


Netflix. Documentário: O Dilema das Redes, 2020.

VIEIRA, Siliane. Sucesso na Netflix, "O Dilema das Redes" revela engrenagens ocultas das redes sociais. Pioneiro. 29 de set. 2020. Disponível em:<http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-tendencias/noticia/2020/09/sucesso-na-netflix-o-dilema-das-redes-revela-engrenagens-ocultas-das-redes-sociais-14227334.html>. Acesso em 30 de set. 2020.

LEMOS, Ronaldo. O Dilema das Redes. 
Folha de São Paulo, 27 de set. 2020.   Disponível em:<https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2020/09/o-dilema-das-redes.shtml>. Acesso em 30 de set. 2020.

Portal do Governo de São Paulo. #CineCiência do MIS discute o filme ‘O dilema das redes’. Disponível em:<https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/cineciencia-do-mis-discute-o-filme-o-dilema-das-redes/>. Acesso em 30 de set. 2020.

ZARUVNI, Reinaldo. O Dilema das Redes: documentário da Netflix expõe manipulação e lucro. TecMundo. 15 de set.2020. Disponível em:<https://www.tecmundo.com.br/seguranca/177786-dilema-redes-documentario-netflix-expoe-manipulacao-lucro.htm>. Acesso em 30 de set. 2020.


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