04/10/2020 às 17h33min - Atualizada em 04/10/2020 às 17h37min

Slice of life: um relevante retrato da vida

Jonathan Rosa - Editado por Fernanda Simplicio
Trecho da HQ "Aquele Verão" de Jillian e Mariko Tamaki. Reprodução: Editora Mino

Alguma vez você e um amigo seu já ficaram horas conversando sobre alguma história que aconteceu com vocês anos atrás? Com alta riqueza de detalhes e relembrado dos momentos feliz e tristes? Meio como se recriassem na cabeça como cada evento os levou aquele ponto específico da vida?   

Pois então, essa sensação real e por vezes saudosa, é o que o gênero que ficou conhecido como Slice of life de contar histórias, tenta causar no consumidor. Como o próprio nome da uma dica, já que quer dizer algo como fatia da vida, as obras classificadas sentem espectro são aquelas que representam simplesmente a vida cotidiana, mas... simplesmente?

Talvez a palavra simplesmente, que se refere a simplicidade, não seja a melhor palavra para definir este tipo de obra. Que de uma forma totalmente mundano e cotidiano, também gera a forma mais efetiva de criar empatia e entender alguns relacionamentos humanos, muitas vezes tirando toda aquela grandiosidade que nós esperamos de um arco de histórias em quadrinhos.

Mesmo sabendo que no dia-dia os todos enfrentamos problemas reais e por vezes tudo que o que se quer é escapar da realidade, e por isso os leitores buscam por contos surreais e cheios de fantasia. Mas em alguns momentos talvez, o melhor seja tomar a pílula vermelha e observar o mundo “real” mesmo que por outros ângulos.

Pois bem, esse tipo de “recorte da vida”, pode levar os consumidores a lembrar que o retrato da vida humana pode ser tão glamourosas ou grandiosas quanto as mega sagas, da Marvel e DC, ou não. E isso faz parte da experiencia de viver, ter que descobrir se o final será bom o ruim ou se a jornada era o mais importante, tudo isso com personagens 100% humanos.

Nesse sentido é fácil perceber o porquê geralmente os personagens mais queridos das grandes editoras são aqueles mais conectados com o urbano, personas como o Homem-Aranha, Demolidor e Batman, seres mais “comuns”, que conseguem passar ao grande público que a vida real é como os ogros, cheia de camadas.

Esse estilo de história faz mais sucesso nos animes e mangás, mas vez ou outra é possível encontrá-los também em quadrinhos ocidentais e com menos frequência em outras mídias.

As obras que trabalham com esse gênero costumam ter ambientes ricos em detalhes. Cada ambiente, seja das casas, das cidades, estabelecimentos ou dos espaços cobertos de vegetação permite uma forte proximidade do leitor com aquele contexto. Algumas peças específicas se destacam nessa jornada, como é o caso de “Aquele Verão”, HQ de 2014 escrita por Jillian e Mariko Tamaki e publicada no Brasil em 2019 pela editora Mino.

Esse é um dos quadrinhos mais premiados de seu ano, ganhando inclusive o prêmio Eisner 
de melhor graphic novel, e essa obra magnífica é um Slice of life. Aquele Verão acompanha a trajetória de Rose e Windy, duas jovens garotas que estão passando as férias em uma praia, só que a vida delas vai mudar para sempre após esse aquele verão.

O interesse desta obra é a capacidade das autoras de explorar as minúcias e percepções de meninas, com um texto que abrange uma faixa etária por vezes negligenciada no mercado de quadrinhos. Em resumo é uma história sutil, envolta nos mistérios e descobertas que é encarar a realidade.



Uma das obras mais conhecidas deste estilo é o mangá “Bakuman”, de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, mesmos criadores do aclamado Death Note. Nesta obra de que teve seu primeiro capítulo lançado em 2008, retrata a jornada de dois garotos na corrida para se tronarem mangakás, é como a vida deles segue após tomarem essa decisão.

O trabalho de Ohba e Obata é totalmente meticuloso em explicar estágios de como funcionam a indústria do entretenimento no Japão, as dificuldade familiares, amorosas e tudo que envolve esse universo tão cobiçado por lá. Algo que não é tão simples quanto parece.

Somente com esses dois exemplos extremamente simples já é possível começar a entender que o gênero em si é capaz de entregar histórias muito bem mais profundas e complexas do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, e vida real não pode ser considerada como “nada”. Mas assim como a realidade o estilo, também é difícil de ser definido.

O cotidiano do gênero possibilita algumas ramificações estratégicas que, quando bem exploradas pelos autores, podem garantir o merecido reconhecimento tanto nas páginas quanto nas telas.

Algumas obras usam de toda criatividade para que o cotidiano seja transmitido de uma forma sadia e positiva, e o mais fiel possível. Um bom exemplo desta força na animação é a obra de Kagami Yoshimizu em “Lucky Star”, pois o anime tem humor na medida certa, alinhado à diálogos bem trabalhados, que mostram a sua importância para o prosseguimento da obra como um todo.

Nesta mesma linha, o anime Azumanga Daioh” de
Kiyohiko Azuma, também é um bom representante do gênero, porém, essa peça leva tudo que acontece de uma forma um pouco mais descompromissada e amigável, graças ao conjunto de personagens que transpiram carisma e muita identificação. Onde tudo que as estudantes colegiais querem é conseguir notas passáveis, fazer amigos e se divertir no processo.  

Em resumo, o gênero slice of life possui um magnetismo natural que faz com que as pessoas se prendam a história por inúmeras razões mais pessoal. A possibilidade de você pensar sobre o como uma personagem pensa, e por que age de tal forma, serve como atrativo direto para que a imersão à história ocorra saudavelmente.



Portanto não é qualquer Slice os life que vai fisgar o leitor ou espectador, a receptor deve estar suscetível a obra e principalmente tem que se identificar com o personagem e história.

Possivelmente alguém que tem contato frequente com todos os seus amigos não vai ver muita relevância na HQ “Cais do Porto” da brasileira Brendda Maria. Já que a obra retrata o encontro de duas mulheres que não se vima a muito tempo e passam toda a rota de uma viagem de ônibus conversando sobre vitórias de derrotas. Algo totalmente cotidiano, mas que para alguém que está com saudades de um amigo ou parente que não a nos bate de uma forma diferente.

REFERÊNCIAS:

GONÇALVES, D. O apelo do slice of life: muito mais do que história sobre nada. É SÓ UM DESENHO. 27 de jan de 2020. Disponível em: <https://esoumdesenho.wordpress.com/2018/01/27/o-apelo-do-slyce-of-life-muito-mais-do-que-historias-sobre-nada/> Acesso em: 01 de out de 2020.

KRASH. O que são animes Slice of Life? TO BRUXO. 08 de set de 2019. Disponível em: <https://tobruxo.com.br/o-que-sao-animes-slice-of-life/> Acesso em: 01 de out de 2020.

O gênero slice-of-life: entenda-o para compreendê-lo... NETOIN! 06 de nov de 2011. Disponível em: <https://www.netoin.com/2011/11/o-genero-slice-of-life-entenda-o-para.html?m=1> Acesso em: 01 de out de 2020.

Os melhores Animes de Slice of Life de Vida Cotidiana. SUKI DESU. Disponível em: <https://skdesu.com/animes-de-slice-of-life-de-vida-cotidiano-diario/> Acesso em: 01 de out de 2020.

SARMENTO, P. Slice-Of-Life | Conheça e comece a ler mais HQs nesse estilo. PROIBIDO LER. 05 de jun de 2020.  Disponível em: <https://www.proibidoler.com/quadrinhos/slice-of-life-conheca-e-comece-a-ler-mais-hqs-nesse-estilo/> Acesso em: 01 de out de 2020.


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