05/10/2020 às 12h44min - Atualizada em 05/10/2020 às 12h33min

Entenda o que é o Setembro Azul e o que ele representa para a comunidade surda

O mês dos surdos é marcado por grandes conquistas históricas

Por Ynara Mattos - labdicasjornalismo.com
Juan Guimarães (Surdo, professor de libras e colaborador da CBDS Brasil); Denise dos Anjos (Intérprete de libras); Ricieri Palha (Intérprete e integrante do grupo Acessibiliart)
Primeira Dama Michelle Bolsonaro e a intérprete de libras Elizângela no lançamento da política nacional de educação especial e homenagem ao mês dos surdos. Foto: Isac Nóbrega/PR

O mês de setembro é reconhecido mundialmente, como "Setembro Azul", pois reflete a história e traz visibilidade da comunidade surda brasileira. Com o objetivo de conscientizar a população e homenagear essa comunidade, que durante muito anos tem lutado em busca de conquistar seu espaço na sociedade. 

 

Por que o mês de setembro ?

 

O mês de setembro traz grande representatividade a essa comunidade, e é marcado por grandes conquistas históricas. Nos dias 6 e 11 deste mês no ano de 1880, foi um marco triste na história dessa comunidade, pois ocorreu o congresso de Milão, onde se decretou a proibição do uso da língua de sinais. Segundo a Lei Nº 11.796 de 29 de Outubro de 2008). Dia 26 de setembro ficou sendo conhecido como o dia nacional dos surdos, neste mesmo dia no ano de 1857, foi fundada a primeira escola nacional de surdos, hoje conhecida como INES (Instituto nacional de educação de surdos), fundada pelo francês Eduard Huet,  localizada no bairro de Laranjeiras - Rio de Janeiro. No dia 30 de setembro é comemorado o dia internacional dos surdos, e o dia do tradutor/intérprete de libras. 

 

Por que a cor azul ? 

 

A cor azul tem um grande significado para comunidade surda, representa dois grandes momentos históricos. Durante o período da segunda guerra Mundial os nazista utilizavam uma fita azul, prendendo nos braços, para diferenciar as pessoas que possuíam algum tipo de deficiência. Segundo grande momento é o atual, cujo essa cor é reconhecida por representar toda a opressão enfrentada por essa comunidade ao longo da história e dos anos. E, ao mesmo tempo representa o orgulho de ser surdo e de fazer parte da história de um povo e de uma língua. 

 

Juan Guimarães, Surdo professor de libras e colaborador da Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS Brasil), relata que as maiores dificuldades enfrentadas no dia a dia dos surdos é a acessibilidade. "É acessibilidade que visa adequar a construção a todos os tipos de necessidades que possam surgir na sociedade". O Brasil ainda tem muito o que evoluir no quesito 'Inclusão'. "Falta muito, porém a comunidade surda não desiste de lutar, e iremos até o fim". Afirma ele.

 

O Professor Juan ainda deixa um recado para a sociedade ouvinte. 

"Sejam bem vindos ao mundo dos surdos, para aprender libras, conversar e respeitar. A nossa primeira língua é a Libras (Língua Brasileira de sinais). Uma dica para vocês ouvintes: Explore bastante essa língua, mas não esqueça que os surdos têm o poder para combater e lutar pelos seus próprios direitos". 

 

Denise dos Anjos, Professora e intérprete de Libras, ressalta que começou a trabalhar com os surdos em 2006, como professora de recursos do município do Rio de Janeiro. "Desde então passou a viver diversas experiências marcantes. Já interpretou em festas, seminários, congressos. Já realizei muitos trabalhos voluntários indo à consultas  médicas, casamentos coletivos e entre outros lugares, onde não se tem condições de pagarem por esse serviço. Já atuei como intérprete de libras nas olimpíadas e paralimpíadas em 2016 no Rio de Janeiro, em em 2017 no Rock in Rio."

A maioria dos surdos vivem com familiares ouvintes, que não buscam aprendizados da Libras, por muitas vezes não terem paciência para aprender, e optam pelo aparelho auditivo, que nem sempre é a melhor solução. "Se em cada família com um integrante surdo, tivesse pelo menos uma ou duas pessoas aprendendo libras, com certeza teríamos muito mais usuários da língua brasileira de sinais e muitos direitos conquistados. E vale lembrar que nem todos os surdos são alfabetizados ou possuem certo conhecimento em libras" - explica Denise

 

As redes sociais é um meio de propagação deste mundo da surdez e da libras, que pode ser muito eficaz. A própria comunidade surda continua lutando pelos seus direitos, lutando pela inclusão, pela presença de intérprete em hospitais, escolas, universidades, em programas de televisão, e em qualquer outro lugar.

 

Ricieri Palha, intérprete e integrante do grupo Acessibiliart, relata: "No início da pandemia, ficamos praticamente sem trabalho, pois grande parte dos eventos que aconteciam numa empresa que trabalhávamos foram cancelados. Então tive a ideia de fazer traduções em lives de artistas musicais, Adriano Paiva e Cléber Bordini também integraram esse projeto. Como nós três já tínhamos uma amizade, deu super certo a parceria". 

A inclusão da comunidade surda já está prevista em lei há muitos anos, há decretos que garantem esse direito. E, o grupo Acessibiliart vem trabalhando para que isso ocorra da melhor maneira. O objetivo principal desse projeto é fazer com que os surdos frequentem os mesmos lugares dos ouvintes, sem que haja qualquer tipo de barreira comunicacional. 

 

Ricieri explica ainda que: "A função do tradutor intérprete de libras na músicas eram exercidas somente por profissionais ouvintes. Hoje compreende-se que tal função também pode e deve ser exercida por profissionais surdos, em razão de serem usuários nativos dessa língua e por estudos realizados por eles mesmos nas esferas artísticas e musicais. Sendo assim uma compreensão vasta da musicalidade, ritmo e poesia contido nas letras das canções. Cabe destacar, inclusive a importância da presença do profissional surdo como tradutor intérprete de libras no contexto artístico. A consultoria e avaliação tradutória é de extrema importância para as relações com a comunidade e público alvo." 

 

"O Setembro Azul para nós do Acessibiliart é o mês que além da visibilidade do povo surdo, é um momento de muita luta contra perdas de tantos direitos conquistados historicamente por essa comunidade. Nós como ouvintes além de apoiar a visibilidade dos surdos, temos que reconhecer nosso "privilégio de ouvintes" e lutarmos unidos a eles, para que os surdos ocupem todos os lugares que eles desejem estar". - Finaliza Ricieri


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