08/10/2020 às 14h29min - Atualizada em 08/10/2020 às 14h22min

A expectativa e os desafios da produção de uma vacina para Covid-19 no Brasil

Coordenadora da Odontologia do Hospital São Paulo foi a primeira voluntária receber a vacina desenvolvida pela universidade de Oxford.

Pedro Mateus - Editado por Alan Magno
@DEABRANCHES/INSTAGRAM/metropoles
Cientistas de todo o mundo correm atrás de uma vacina contra o novo coronavírus, identificado pelos pesquisadores como Sars-Cov-2, ele é responsável por causar a Covid-19. No Brasil, existem quatro vacinas sendo testadas, a AZD 1222, da universidade de Oxford com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, a Coronavac, criada pela empresa chinesa Sinovac e produzida no Brasil junto ao instituto Butantan, em São Paulo, a da norte- americana Pfizer, em pareceria com alemã BioNtech e a chinesa Fosun Pharma Ad26, desenvolvida pela Janssen Pharmaceuticals, do grupo Johnson & Johnson. As quatro vacinas encontram-se na fase final de testes e buscam, diante do cenário ativo de transmissão do vírus no país, reunir evidências da segurança e eficácia do agente imunizador contra a nova doença. 

Em entrevista a Globo News, o médico oncologista, Dráuzio Varella afirmou que ainda vai demorar para que as vacinas sejam disponibilizadas à população e é preciso continuar combatendo o vírus com medidas de distanciamento social e uso de máscara. “A vacina não vai resolver o problema atual“, frisou. "Os políticos erram muito. Dão à população uma falsa segurança, que daqui a pouco vamos voltar aos estádio, aos bares”, declarou.

PRODUÇÃO DA VACINA

No começo de agosto o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), assinou, uma Medida Provisória (MP) que viabiliza recursos para produção e aquisição da vacina contra a Covid-19, produzida pelo laboratório AstraZeneca e Universidade de Oxford. A produção deve ocorreu por meio de incentivos junto a Fiocruz. Sendo considerada uma das mais avançadas no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a vacina de Oxford está sendo testada no Brasil em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia em 5 mil voluntários desde o dia 20 de junho. A expectativa é que o Brasil tenha acesso a 100 milhões de doses do insumo da vacina, das quais 30 milhões de doses entre dezembro e janeiro e 70 milhões ao longo dos dois primeiros trimestres de 2021.

No entanto, apesar do alto investimento dos governos para a obtenção das vacinas é preciso além do registro do soro, após comprovação de sua eficácia e segurança, a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A entidade recebe do fabricante os resultados dos estudos, indicando qual o grau de eficiência da vacina, os eventuais efeitos colaterais, caso houverem, e quanto tempo dura a imunização contra o vírus. Esse processo normalmente leva até um ano, mas a Anvisa diz que vai responder em prazo bem mais curto.

No caso da associada ao Butantan, órgão do governo do estado de São Paulo que desenvolve e testa a vacina contra o coronavírus em parceria com um laboratório chinês, o instituto ainda está recebendo voluntários, que devem ser profissionais de saúde que atuam na linha de frente. O estudo prevê 9 mil participantes distribuídos entre os Estados de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. Os voluntários, segundo cronograma do estudo, devem a segunda dose 14 dias após a primeira. No atual estágio, segundo divulgou o Butantan, parte dos voluntários já está recebendo a segunda dose.

Quando aprovada, o diretor do Instituto garante que fornecimento da CoronaVac para o SUS está definido, o que se discute agora é apenas a "formalização" de como se dará a distribuição dessas doses. A estimativa da entidade é de que 45 milhões de doses da vacina sejam repassadas ao SUS até dezembro, com a possibilidade de ampliar a oferta para 100 milhões até maio. O governo paulista discute com o Ministério da Saúde um investimento federal de R$ 1,9 bilhão para acelerar a produção.

E A ORDEM DA APLICAÇÃO DA VACINAÇÃO?

Em entrevista ao Jornal Nacional, o secretário em Vigilância e Saúde, Arnaldo Correia de Medeiros, disse que as pessoas do grupo de risco, idosos, pessoas com cormobidades, profissionais da saúde, segurança, a população indígena com vulnerabilidade receberão as primeiras doses. Segundo o Ministério da Saúde, a vacina produzida pelo Bio-Manguinhos será distribuída pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), que atende o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o diretor de centro, Mauricio Zuma, “o estabelecimento do acordo pelo governo brasileiro é fundamental para garantir a disponibilidade de doses para o país tão logo se chegue ao registro da vacina. E Bio-Manguinhos possui competência tecnológica e capacidade industrial para abastecer o SUS rapidamente e incorporar a tecnologia, de modo a garantir a soberania nacional em relação a este imunobiológico essencial para o combate à pandemia”.

Para a universitária, Adélia Fernanda, que mora em São João dos Patos à 488 km do Maranhão, a vacina contra o covid 19 deve demorar para chegar até o interior das capitais, ela acredita que para quem mora nos grandes centros urbanos o recebimento do imunizante pode chegar mais rápido. "Quem mora nas capitais serão privilegiados, pois a maior parte dos voluntários das vacinas que estão em testes são das capitais, então quando chegar essa vacina que estiver com essa eficácia os primeiros a serem vacinados serão os pessoais da capitas’’, afirma a estudante. Adélia, destaca ainda a capacidade dos cientistas brasileiros e afirma ter uma expectativa alta para um desenvolvimenro rápido e seguro de uma vacina, mas a distribuição das doses é um fator que a preocupa. “É necessário uma boa logística para que a vacina chegue nos interiores e locais mais afastados das capitais, pois é onde também morrem pessoas por Covid-19 e há falhas no sistema de saúde’’.

LINHA DE FRENTE

Para a infectologista, Dania Abdel Rahman, responsável pela comissão de controle de infecção hospitalar do Hospital Abert Sabin na Cidade de São Paulo, é necessário levar em consideração que o Sars-Cov-2 é um vírus novo e que não ainda não há informações suficientes sobre a Covid-19, doença gerada por ele, e que justamente por tais motivos, o enfrentamento da pandemia torna-se um desafio ainda maior.  “A gente ainda não sabe realmente o potencial de infectividade desse vírus e nem características especificas e por isso não sabemos tão bem como combatê-lo’’, afirma.

A especialista completa sua fala reforçando que o distanciamento social, medidas de higiene e o uso de máscara são as únicas coisas que a população tem comprovadamente que evitam a transmissão do novo coronavírus Sobre o retorno das atividades normais, a profissional acredita que o normal vai ser difícil e as medidas de prevenção devem ser instauradas na rotina cotidiana, pois o fim da pandemia ainda é algo incerto. "Provavelmente esse vírus veio para ficar como outros que a gente já tem, como o da gripe, H1N1 entre outros então não adianta a gente esperar o final desse vírus, pois é um vírus que vai ficar entre nós, mas devemos tomas cuidado mesmo com a vacina, claro que se as vacinas todas que estão em pesquisa se mostrarem de fatos eficientes, claro que melhora a questão, mas ainda há muitas dúvidas''.

Dania, completa sua fala mencionando a possibilidade de que no futuro deverá haver uma revacinação frequente ou talvez anual, como também em duas doses como forma de garantir imunidade com as diferentes mutações do novo vírus. "Então isso ainda é muito incipiente, as vacinas são seguras, mas não se sabe a eficiência para uma imunidade mais duradoura’’, finaliza a médica infectologista.

Jerlane Magalhães, agente de saúde em Ibiapina, cidade localizada na serra Ibiapaba, no Interior do Ceará, relata que está sendo complicado trabalhar em condições de pandemia, devido ao distanciamento com pessoas da comunidade que ela trabalha. A profissional acredita que a vacina contra o novo coronavírus deve ser aplicada primeiramente nos profissionais de saúde, gestantes, idosos e pessoas com doenças crônicas e que vai depender do governo um boa logística para distribuição de uma vacina. Ela finaliza sua fala destacando que com essa pandemia aprendeu ainda mais a valorizar o seu trabalho e se diz apaixonada pelo o que faz’’ espero de alguma forma ajudar as pessoas nesse momento tão difícil.

PRIMEIRA VOLUTÁRIA DA VACINA DE OXFORD 

Denise Abranches, cirurgiã dentista e presidente da câmara de odontologia hospitalar do conselho regional de São Paulo (CROSP), atua na linha de frente do Covid-19 no hospital de São Paulo e foi a primeira voluntária a receber o teste da vacina da universidade de Oxford no Brasil. Denise se inscreveu para participar da pesquisa após uma reunião feita com diretor do hospital que ela trabalha e a uma semana depois foi chamada para participar do estudo. Segundo a médica, o seu o maior motivo em participar da pesquisa foi contribuir para esse momento que mudou a humanidade.

‘’ ser voluntario de uma pesquisa como essa traduz meu desejo de ajudar, pois perdemos diversos colegas e isso também levou a ser voluntária, pois isso que está acontecendo não estava descritos nas literaturas, a gente aprendeu com as experiências nos outros países e com a morte de outros profissionais, é um privilégio em poder participar de um momento tão importante da ciência e de nossas vidas que é a buscas dessa vacina, é um privilégio ser a número um’’.


A voluntária ressalta a importância de todos, sem exceção, terem acesso a vacina. Sobre os voluntários, a cirurgiã diz que todos os seus colegas expostos ao vírus estão participando desse estudo, como médicos, enfermeiros, dentistas, profissionais de ambulância, fisioterapeutas. Em relação a comunicação com os voluntários, a profissional diz que existe uma conversa diária. ‘’Nós temos um diário eletrônico na qual eu informo meu estado de saúde, se tiver algum cansaço, febre ou outro sintoma relacionado a covid, informo nesse diário e se eu precisar de uma assistência médica tenho que ir no hospital São Paulo que conduz o atendimento necessário se for o caso’’. Relatou.

TESTES PAUSADOS

No dia 8 de setembro os testes da vacina contra a Covid-19 desenvolvida em conjunto pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca foram suspensos temporariamente. Segundo a empresa isso ocorreu após um dos voluntários no Reino Unido apresentar reação adversa que poderia estar vinculada à vacina. A empresa não divulgou detalhes do caso, mas o jornal "The New York Times" informou que o paciente teve mielite transversa, uma síndrome inflamatória que afeta a medula espinhal. Segundo o G1, no Brasil também houve paralisação, de acordo com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma das responsáveis pelo estudo no país. A Unifesp informou que 5 mil voluntários brasileiros já foram vacinados e que "não houve registro de intercorrências graves de saúde". AstraZeneca pontuou ainda que a paralisação foi um procedimento padrão que busca garantir a total segurança dos testes, sendo uma prática comum na produção de vacinas. A relação do adoecimento do voluntário do Reino Unido com a vacina foi descartada dias depois. 

RETOMADA DOS TESTES DA VACINA DE OXFORD

O Brasil retomou no dia 14 de setembro os testes da vacina, que apesar da paralisação, segue sendo considerada a mais avançada do mundo. Em comunicado a universidade federal de São Paulo que coordena os testes no país desde junho informou a retomada das testagens que acontece após a liberação da agencia nacional de vigilância sanitária (Anvisa) e do conselho nacional de ética em pesquisa (conep).
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