10/10/2020 às 16h26min - Atualizada em 10/10/2020 às 15h20min

Mato Grosso do Sul completa 43 anos de emancipação desde o decreto de separação

O estado se desenvolveu bastante durante os anos e tem um papel importante no agronegócio no país

Juliana Aguiar - Revisado por Jéssica Natacha
Foto: Reprodução/ JPKRAJEWSKI Brasil
                                         
Há exatamente 43 anos atrás, no dia 11 de outubro de 1977, o Presidente Ernesto Geisel instituiu a Lei Complementar 31, que decreta a separação do estado de Mato Grosso que era ligado ao Mato Grosso do Sul. A partir daí, a população foi dividida e o estado de Mato Grosso consequentemente perdia 28% de seu território.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualmente com 79 municípios e 2.817.098 habitantes, o estado de Mato Grosso do Sul ocupa uma área é de 357 145,532 km², com tamanho comparável à Alemanha, terra que durante todos esses anos se desenvolveu bastante, além de ter importante participação no agronegócio e outras áreas da indústria. A produção de papel e celulose, recebeu pessoas de todos os estados do Brasil e diversos países, que traziam em suas bagagens, a esperança de uma vida melhor.

A seguir vamos conhecer as histórias de três sul-mato-grossenses de coração que aqui chegaram em diferentes fases de suas vidas, criaram raízes, tiveram conquistas pessoais e profissionais e, cresceram junto com essa terra que acolhe todos os que chegam, independente de onde são ou vieram, são acolhidos de braços abertos.

 


Começamos com a história do aposentado Álvaro César de Aguiar, de 79 anos, que há 57 anos é morador de Campo Grande no MS, antes do então estado de Mato Grosso ser dividido. “Eu cheguei em Campo Grande no dia 24 de junho de 1963, dia de São João”, lembra o paulista, natural de Alto Alegre, em São Paulo. Ele conta com orgulho toda a história vivida desde quando decidiu mudar de ares, presenciou toda a especulação de uma possível divisão do estado, que já existia quando chegou. “O povo estava esperançoso com a divisão do estado, porque a expectativa era de que a região pudesse se desenvolver, expandir bem mais”.

Em 1963, “seu Álvaro”, como é conhecido, morava em Araçatuba (SP), com o pai e dois irmãos e segundo ele, foi uma época difícil para conseguir um emprego naquela região. Foi quando um primo dele, que morava em Campo Grande com os pais, disse que poderia conseguir uma vaga para trabalhar abastecendo aviões. Álvaro não pensou duas vezes e, mudou-se para a cidade, mesmo contra a vontade do pai. “Meu pai dizia que aqui tinha onça na rua e que o povo era bravo”. A região tinha essa fama de “faroeste”, por estar afastada dos grandes centros urbanos, ser pouco povoada e por ter o Pantanal em seu território. Por isso, quem não conhecia, acabava acreditando nas histórias que ouvia de quem dizia já ter conhecido o lugar.

Mesmo sem conhecer o estado e qualquer outra cidade de lá, seu Álvaro decidiu acreditou que a mudança daria certo e seria boa, não só para ele, mas também para seus familiares. E deu certo!  Ele se mudou, conseguiu o emprego que tanto sonhava e precisava, permanecendo na empresa por 31 anos, até se aposentar. Casou-se em 1972, com Tereza, que também é paulista, nascida em Guararapes. Eles tiveram um casal de filhos, inclusive, a esposa estava grávida em 1977 e existia a possibilidade do filho mais velho, o Fabio, nascer no dia da divisão do estado, mas Tereza só deu à luz no dia 16 de outubro, cinco dias após a criação de Mato Grosso do Sul, logo o primogênito Fábio nasceu sul-mato-grossense.

Fábio acabou trabalhando na mesma empresa que o pai dele e ficou por lá 22 anos. “Ele entrou no meu lugar, quando me aposentei. Durante uma semana ensinei o serviço para ele que entrou para abastecer os aviões e hoje é gerente da empresa”, conta seu Álvaro, orgulhoso do filho. A Família se mudou para o interior de São Paulo, em 2001, mas acabou retornando à Campo Grande no ano seguinte.

LINHA DO TEMPO

                

"Sempre gostei daqui, desde o dia em que cheguei. Tudo que conquistei na vida, foi nesse chão, emprego, família, minha casa, minhas amizades”.

 


Em 2003 foi a vez do gerente de operações, Edson Seibert, de 44 anos, conhecer Mato Grosso do Sul. Ele nasceu em Ijuí, Rio Grande do Sul. Aos 12 anos se mudou para o Tocantins e oito anos depois, foi para Porto Velho, em Rondônia; o irmão dele, que já residia em Porto Velho, disse que poderia conseguir uma vaga para trabalhar abastecendo aviões. Achou a história parecida com a do seu Álvaro? Pelas coincidências da vida, Edson é genro do seu Álvaro. “Em 2002 conheci o Fábio, que hoje é meu cunhado, em uma viagem de trabalho. Ele falou muito bem de Campo Grande e no ano seguinte, fui conhecer a cidade”, lembra ele.

Edson gostou da “Cidade Morena” e se mudou para a cidade em 2004, afirma ter se adaptado com facilidade. “Fui muito bem recebido aqui, as pessoas são receptivas, fiz muitas amizades, e continuei trabalhando na mesma área”. No ano de 2005 se casou com Adriana, irmã de Fábio e, poucos meses após o casamento, recebeu uma proposta de trabalho e o casal mudou-se para a cidade de Maceió, em Alagoas. “Moramos seis anos em Maceió e tivemos muita dificuldade em adaptação". Edson e Adriana ambos tinham empregos, compraram uma casa e um carro, tinham estabilidade financeira, mas por não se adaptarem ao município de Alagoas, decidiram retornar para o MS. "A cultura é muito diferente, os costumes, a comida, a estrutura da cidade também não era boa, enfim, chegou um momento em que decidimos que voltaríamos, a princípio para Campo Grande”.  

Quando o casal anunciou a sua volta à Mato Grosso do Sul, um amigo de Edson disse que tinha uma vaga de emprego para ele na mesma função que exercia em Maceió, só que na cidade de Dourados, localizada na região sul do estado, aproximadamente 235 quilômetros longe da capital. Edson e Adriana se mudaram para lá, em março de 2013, onde residem até hoje. Dois anos após o retorno, souberam que a família iria aumentar. Em novembro de 2015, nasceu Benício, mais um sul-mato-grossense. 

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“Mato Grosso do Sul é minha casa! Gostei muito daqui desde quando vim a passeio. O tempero das comidas é maravilhoso, fiz amizades, me casei, cresci profissionalmente, é o estado onde meu filho nasceu. A vida aqui é muito boa, só tenho a agradecer”, afirma Edson que pretende continuar vivendo por lá.


Agora, vamos conhecer a história da jornalista Gerciane Alves, natural da cidade de José de Freitas, no Piauí. Ela se mudou para Mato Grosso do Sul em abriu do ano 2000, com nove anos de idade. No ano anterior, o pai dela foi para Campo Grande trabalhar, juntar um dinheiro e ganhar uma estrutura melhor para que a filha Gerciane, a mãe e suas duas irmãs, também pudessem se mudar para a capital sul-mato-grossense.

A jornalista conta que a família saiu do Nordeste em busca de uma vida melhor. O pai dela trabalhava na construção civil, muitas vezes passava meses longe da família, por trabalhar em outra cidade e o retorno financeiro não era bom. “Minha mãe dizia que estávamos indo para Campo Grande, porque lá seria melhor”.



Como boa parte da família paterna de Gerciane morava na cidade de Campo Grande e diziam que a cidade era boa e tinha muitas oportunidades de crescimento, eles acreditaram que daria certo e partiram rumo à Mato Grosso do Sul. E como toda mudança, houve um período de adaptação, que segundo a piauiense, foi bem tranquilo, porém com alguns episódios marcantes, principalmente na escola.
Ela acrescenta que “O ensino no Nordeste é muito fraco e em Campo Grande a gente achou tudo muito difícil”. Também se recorda de sofrer bullying na escola, por causa do sotaque carregado, além de estranhar o modo como os novos amiguinhos usavam algumas expressões. “Teve uma vez que cheguei da escola chorando e disse para minha mãe que me chamaram de gorila. Na verdade, me chamaram de guria, que é o mesmo que 'menina' mas eu não conhecia essa expressão".

Outra questão que causou desconforto aos recém chegados, foi o inverno de Mato Grosso do Sul. "A gente não sabia o que era sentir frio, porque no Piauí não faz frio. Inclusive, enquanto eu morava no lá, nem sabia da existência de chuveiro elétrico, já que lá faz muito calor o ano todo, não se usava chuveiro elétrico". Gerciane morou 18 anos em Campo Grande e é muito grata a tudo que viveu e conquistou junto à sua família. “Apesar de amar minha terra natal, infelizmente, lá as chances de crescer na vida eram mínimas. MS significa muito para mim. Foi o lugar onde cresci, me formei, iniciei minha vida profissional”. 

Atualmente mora em Londrina, no Paraná, isso já tem dois anos. A jornalista diz que por enquanto não tem planos de voltar para o estado e revela do que mais sente saudade. “Além da saudade da família, sinto muita falta das comidas típicas do estado, do tempero e de ver animais como araras e tucanos, que fazem parte da paisagem de Campo Grande".

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“Sempre que escuto alguém chamando Mato Grosso do Sul de Mato Grosso, faço questão de dizer: Não é Mato Grosso, é Mato Grosso do Sul, não tem jeito”.

 

E nesses 43 anos de existência, Mato Grosso do Sul já viveu altos e baixos nas áreas da política, economia, infraestrutura e questões agrárias, como qualquer outra unidade da federação, e lida com questões que precisam de mais atenção por parte das autoridades competentes, como o reforço na fiscalização de suas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. É um estado tipicamente interiorano, com cidades pequenas, de povo simples e trabalhador, que luta todos os dias para ter seu esforço e sua identidade reconhecidos e, todos fazem questão de dizer com muito orgulho: "Aqui é Mato Grosso do Sul! Do Sul!". 

Talvez porque não esteja geograficamente distante do vizinho Mato Grosso, as pessoas de outros estados acabam se referindo a MS como Mato Grosso, como se a divisão do estado não tivesse acontecido. Mas aconteceu! E já aviso, quem nasce ou mora em Mato Grosso do Sul, não é mato-grossense, é sul-mato-grossense. E como a Gerciane Alves ressaltou: “Sempre que escuto alguém chamando Mato Grosso do Sul de Mato Grosso, faço questão de dizer: Não é Mato Grosso, é Mato Grosso do Sul. Do Sul!".

Depois de conhecer três histórias distintas podemos observar que Álvaro, Edson e Gerciane têm o mesmo sentimento de gratidão por esse estado que os acolheu, proporcionou a eles aprendizado, conquistas e superação e, também desejam que Mato Grosso do Sul prospere e cresça cada vez mais, sem perder sua essência, porque mais do que a biodiversidade encontrada no Pantanal e nas paisagens exuberantes de Bonito, Mato Grosso do Sul é rico culturalmente.

Fica aqui o convite para você, leitor de outros estados, a vir conhecer este!
Não deixe de contemplar as belezas naturais, de experimentar a chipa, o pucheiro e a famosa sopa paraguaia, o caldo de piranha e, claro, o nosso tereré. Quem sabe não sobra um tempinho para aprender a dançar vanerão e chamamé. Seja sempre bem-vindo a Mato Grosso do Sul!

 
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