03/05/2019 às 13h16min - Atualizada em 03/05/2019 às 13h16min

Pesquisadores da Universidade de São Paulo avançam com novo medicamento contra a Leucemia

O objetivo é produzir um medicamento que tenha menos efeitos colaterais e que seja de baixo custo para a população

Vanderson Nunes dos Santos - Editado por Thalia Oliveira
Universidade de São Paulo
Fonte: Reprodução

O câncer mata milhões de pessoas todos os anos. Em 2018, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde estimou que 9,6 milhões de pessoas morreriam por conta da doença.

Para diminuir a proliferação de novos casos e consequentemente de novas mortes, pesquisadores da Universidade de São Paulo estão desenvolvendo modos alternativos para combater a leucemia - enfermidade caracterizada pelo acúmulo de células doentes na medula óssea, que substituem as células sanguíneas normais, como descreve o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

A ideia foi desenvolvida em 2012 por Adalberto Pessoa Junior, vice-diretor e docente do Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, quando se deu conta do problema e do aumento dos medicamentos contra a leucemia durante a crise econômica que o país vivia na época.

A hora que eu vi a problemática gigante que tinha acontecido na minha área, eu disse: pronto, eu vou fazer um projeto para propor a produção desse medicamento. Chamei um monte de colaboradores de confiança e submetemos à Fapesp”, conta.

A pesquisa começou de fato em 2014, depois de aprovada com um incentivo de R$ 5 milhões, e a participação de 31 professores e outros 100 colaboradores, aproximadamente.

A Asparaginase foi a enzima escolhida para produzir o medicamento. O professor Adalberto Pessoa conta o por quê:

Se tem no sangue do paciente células saudáveis e células leucêmicas. Estas células crescem muito rápido, por elas crescerem muito rápido, elas exigem muitos nutrientes. As células saudáveis tem capacidade de produzir a própria asparagina. Então a gente chama isso de aminoácido não essencial, porque ele não depende de alimentação externa. A asparagina não é essencial para a célula saudável mas ela é essencial para a cancerígena, para a leucêmica. A função da asparaginase é circular no sangue. Toda a asparagina que ela encontra, ela degrada. E aí você tira o principal alimento da célula cancerígena”, descreve.

Como iniciou os estudos?

Os pesquisadores decidiram alterar o DNA de fungos para que eles pudessem produzir a asparaginase. Dessa forma conseguiram melhorar a qualidade da enzima, que possibilita a diminuição da dose e seus efeitos colaterais, enquanto comparado à outros medicamentos que já estavam disponíveis no mercado.

O método já utilizado pelo mercado fazia o paciente sofrer, pois é uma proteína produzida por uma bactéria (enchacole). “A partir do momento que você injeta na veia ou minúsculo de um paciente a proteína produzida por uma bactéria, apesar de ela ser um medicamento, os anticorpos começam a atacar. De um lado você tinha um medicamento que tentava salvar o paciente, e do outro lado os anticorpos deles lutando contra esse medicamento e destruindo esse medicamento”, descreve Pessoa.

Para conseguir neutralizar os anticorpos, os pesquisadores realizaram uma modificação genética. Ao contrário da comum, que tem enzimas produzidas pela própria bactéria, eles a sobrecarregaram com cadeias humanas, assim o sistema imune entende que a enzima injetada é uma célula humana fazendo com que ela não seja atacada.

Passos futuros

O primeiro é aguardar a avaliação da Fapesp para o segundo projeto apresentado: escalonamento do processo, como conta o professor:

Nós já sabemos fazer as enzimas, nós já temos as cepas, nós já patenteamos, já sabemos como elas crescem, como a gente purifica, e aí que entra o pessoal da engenharia química. Chega em um determinado momento que a gente sabe fazer em frascos de laboratório, e agora a gente precisa pensar em uma escala maior”, afirma Adalberto Pessoa.

Para poder entrar em um nível maior, Aldo Tonso, professor do Departamento de Engenharia Química da Poli/USP explica as necessidades para avançar com o projeto:

São necessários estudos para a gente maximizar de modo a baratear o custo. Se você for imaginar o preço da molécula comum produzida em laboratório, essa molécula é muito cara, impossível de ser utilizada por um paciente. Então é necessário baixar os preços. Os preços vão ser baixados à medida que a gente consegue otimizar o processo”, conta o pesquisador.

O avanço da pesquisa também conta com a participação do Instituto Butantan e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas que irão contribuir com a produção industrial de Asparaginase.

Aqui a gente sabe fazer, mas não faz dentro das regras que a Anvisa exige. Quando a Anvisa vem fazer uma fiscalização, ela quer saber qual é o lote, qual é o medicamento, qual a validade daquele lote. O [Instituto] Butantan  é perfeito para fazer isso, e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) tem muita expertise em fazer esse escalonamento para biorreatores de 300 litros. Vamos passar a produção para o Butantan em todos os níveis. A gente está propondo isso para produzir um medicamento pré clínico” explica o professor Aldo Tonso.

Testes para avanço do medicamento

Para que o medicamento chegue às farmácias, ele precisa ser submetido a etapas, como o teste pré clínico com camundongos. E para isto, é necessário uma grande quantidade de remédios - onde entra a produção industrial. Com o resultado positivo, poderá ser testado em humanos. Entretanto, o pesquisador Adalberto Pessoa faz uma observação: “Isso a gente não tem condição de fazer por que é uma fortuna. Aí é o momento de a gente transferir isso para uma indústria”, explica.

O papel da engenharia química para a produção industrial

A gente precisa dar as condições que a célula produza sem se sentir limitada por nenhum nutriente e nem inibida por nenhum subtóxico. O biorreator que é o local onde essa célula vai produzir esse medicamento, é basicamente um tanque onde eu dou as melhores condições para a célula produzir. E com isso, consiga em tanques maiores, obter um quantidade de produto bastante grande, de boa qualidade, e na hora de avaliar o valor final do custo, ele está bastante baixo, e assim [será] possível dar para os pacientes”, conclui Aldo Tonso, do Departamento de Engenharia Química da Poli/USP.


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