03/05/2019 às 00h07min - Atualizada em 03/05/2019 às 00h07min

Pratiquei o bullying e me envergonho

Um breve relato sobre a prática do bullying não percebida entre adultos

Socorro Moura - Editado por Millena Brito
Mantenho uma relação cordial com meu ex–namorado. Como moramos no mesmo prédio, o contato fica mais fácil, e entre uma saída e outra para as habituais confidências, os laços ainda se prolongam e certas liberdades ainda são tomadas. Como é habitual para pessoas solteiras e que moram sozinhas, vez ou outra, ele aparece com uma companhia. E lógico, quando coincide de ver ele saindo logo cedo, tomo nota de todos os pormenores da candidata a namorada. Permeia um pouco de ciúmes, aquela possessividade inexplicável e burra dos que já não possuem um compromisso mútuo; e por conta disso exageram nas interferências e nas opiniões.

Em minha percepção, jurava que os comentários maldosos, por se referirem a uma terceira pessoa, em nada incomodaria o ex-par. Ledo engano. A cada opinião debochada e recheada de apelidos – crente, divertidos – ele mostrava certa insatisfação: cobrava respeito. Fui surpreendida com a reação e logo deduzi que ele levava as insistentes piadas para o lado pessoal, enfim, de alguma forma aquilo tudo o atingia, o constrangia! Demorei para perceber o inconveniente, pois as interpretações dadas as queixas eram até então, unicamente unilaterais, ou seja, correspondiam apenas ao meu ponto de vista sobre o fato.

Porém, essa descoberta não se deu de forma milagrosa em meio a devaneios. Teve um episódio catalisador e que ensejou um sentimento de vergonha, como consequência: o então ex-namorado de forma consistente e por repetidas vezes, seco, porém objetivo externou o quanto as brincadeiras já estavam bastando e o quanto aquilo estava chegando a um limite. Senti ele triste, e apenas pedia para parar, e eu, num acesso de onipotência, presumia sem perceber, a obrigação dele em aceitar as minhas reiteradas piadas, memes e trocadilhos. Deu o famoso clique! Por um instante, parei, pensei e reconheci o quanto estava indo longe, e no fundo, era uma tentativa sutil de ferir sua autoconfiança. Visualizei ele a minha frente e, finalmente usei de toda empatia para imaginar o quanto aquilo estava incômodo e por fim, fiz a famosa pergunta: e se fosse comigo, iria gostar?

A perspectiva do outro, colocar-me no lugar do outro por um milésimo de segundo, permitiu o gatilho para um filme panorâmico e pregresso de todas as brincadeiras feitas e as respectivas reações. Entre as convivências que contemplam amizades, namoros, relações de trabalho ou apenas o bom coleguismo, por exemplo, comunicamos sentimentos, as ações do dia e também como percebemos o outro (ele, no mínimo, deve ter concluído: “não sou digno de respeito”). Muitas vezes não paramos para avaliar se aquilo agrada ou não. Criar o hábito de pensar antes de falar não é algo além da capacidade de qualquer ser humano.

Hábitos constroem-se, bons hábitos. Esse relato corresponde a um microcosmo perdido em meio a um universo vasto de confusões, mas que em seus detalhes e na sua brevidade, representam em uma escalar menor o que acontece em ambientes de trabalho(work place bullying), em relações familiares e amizades, ou como essa mais incomum entre ex-namorados e até aquelas mais comuns, de anos mesmo. Só observar!

 


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