15/10/2020 às 17h00min - Atualizada em 15/10/2020 às 16h20min

Quatro anos após plebiscito, colombianos temem nova onda de violência

Depois de acordo de paz firmado entre governo e as Farc, número de massacres e assassinatos na Colômbia volta a crescer de acordo com a ONU

Cesar Fontenelle - Editado por Ana Paula Cardoso
Protestos em Samaniego contra massacres. Foto: Gabriel Aponte / Divulgação: Getty Images
Após quatro anos do plebiscito para decidir sobre o acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a população teme a volta de uma nova onda de violência, já conhecida há 56 anos.

Esse temor surgiu no dia 29 de agosto de 2019, quando Iván Marquez, ex-líder das FARC, reapareceu em vídeo usando uniforme da Guarda Nacional Bolivariana e fortemente armado, anunciando retomada à luta armada na Colômbia. No vídeo, o principal negociador das FARC nos diálogos com o Governo colombiano e desaparecido há um ano, declara “uma nova etapa na luta armada ".

Com uma arma, Marquez diz que “nunca fomos vencidos nem derrotados ideologicamente. É por isso que a luta continua. A história registrará em suas páginas que fomos forçados a voltar às armas”.

"É a continuação da luta guerrilheira em resposta à traição do Estado ao acordo de paz de Havana". Ainda afirma que buscarão alianças com o ELN (Exército de Libertação Nacional), última guerrilha ativa na Colômbia, com forte presença na fronteira com a Venezuela.

Em julho do mesmo ano, o presidente Iván Duque já havia afirmado que Iván Marquez e os também ex-líderes Hernán Darío Velásquez, El Paisa como é conhecido, e Henry Castellanos, apelido Romaña, se encontravam na Venezuela, onde são protegidos pela ditadura de Nicolás Maduro.

Os ex-dirigentes das FARC hoje são integrantes do grupo subversivo chamado “Segunda Marquetalia”, em referência ao lugar onde as FARC nasceram em 1964. Dias após a comemoração dos quatro anos do acordo de paz, os dirigentes emitiram comunicado conjunto em um portal da web. No texto, os guerrilheiros pedem a renúncia de Iván Duque da Presidência da Colômbia. Ele, que na época era senador, fez campanha pelo “não”.

“Este mandato de quatro anos para Duque, em nome de Uribe (ex-presidente colombiano de 2002 a 2010) é uma maldição que está prejudicando nosso futuro da forma mais irracional e absurda”, afirmam no comunicado.

No entanto, sobre o acordo de paz firmado entre governo e guerrilha após o “não” vencer nas urnas de dois de outubro de 2016, os guerrilheiros dizem que “quando ficamos entusiasmados com a possibilidade de inaugurar uma nova era de paz, o governo Duque-Uribe fez da destruição do mais lindo sonho dos colombianos o principal objetivo de sua estratégia”.

Crescimento da violência
Está em curso na Colômbia um crescimento de assassinatos de civis, principalmente no interior. Apesar de ser em escala menor, esse aumento pode ser comparado aos tempos mais difíceis de conflito armado contra as guerrilhas nos anos 60,70,80 e 90.
 
Em 2020, já ocorreram 33 massacres ou assassinatos coletivos no país, enquanto em 2019 foram 36, em 2018, 29, e em 2017, 11, de acordo com dados da ONU (Organização das Nações Unidas). A Organização ainda condenou espiral de violência no país.

As vítimas, em sua maioria, são jovens moradores locais, líderes comunitários, famílias de camponeses, pessoas que resistem ao recrutamento forçado, membros de bandos criminosos, indígenas que tentam proteger suas terras e soldados do Exército colombiano.

Estão envolvidos nesses confrontos de guerrilhas ativas como o ELN (Exército de Libertação Nacional), o EPL (Exército Popular de Libertação), dissidências das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), desmobilizadas oficialmente, dissidências das AUC (Autodefensas Unidas da Colômbia), força paramilitar também oficialmente desmobilizada, cartéis de narcotráfico mexicanos e colombianos.

Durante os anos mais duros do conflito armado, o Estado colombiano já se encontrava distante em grande parte do território. Com a Covid-19 e a posição contrária do presidente Iván Duque ao acordo de paz entre o Estado colombiano e as FARC, conseguiram desviar ainda mais a atenção do governo da questão da violência no campo.

O “não”
Foi num domingo chuvoso de dois de outubro de 2016, que 50,2% dos colombianos rejeitaram, em um plebiscito, o acordo de paz assinado entre o governo e as FARC. Com uma diferença de apenas 54 mil votos, o povo comemorou o resultado, apesar dos institutos de pesquisa darem vantagem ao "sim".

O “não” foi aprovado, majoritariamente, pela classe média e alta de Bogotá e centros urbanos da Colômbia, que não sofreram com a violência das FARC. O “sim” foi majoritário no campo, onde há pessoas que sofreram diretamente com estupros, assassinatos e outros tipos de violência.

Apesar do “não” sair vitorioso, os dois lados envolvidos afirmaram a disposição de manter a paz. Depois da divulgação do resultado, o líder das negociações pelas FARC, Rodrigo Londoño Echeverri disse, em Havana, Cuba, que "as FARC mantêm sua vontade de paz e reiteram sua disposição de usar somente a palavra como arma de construção para o futuro".

Timochenko, como é conhecido o líder, ainda afirma que "com o resultado, sabemos que nosso desafio como movimento político é maior e requer que sejamos mais fortes para construir uma paz estável e duradoura".

No entanto, dois anos depois, os colombianos acordaram com o vídeo do ex-líder da guerrilha Iván Marquez circulando pelas redes, anunciando uma nova etapa na luta armada em retaliação ao que ele chamou de “traição do Estado ao acordo de paz de Havana”. Há também esse aumento de violência no interior do país para o assombro da população.

O jornalista colombiano Luis Nuñes Hernandez contou que durante a campanha houve muita propagação de fake news no país, que contribuiu para amedrontar os cidadãos. Segundo ele, os contrários ao acordo de paz, espalhavam todo tipo de informações falsas pela web, uma estratégia bem usada nas eleições de 2018 no Brasil.

“Os grupos avessos disseminavam que com o acordo de paz, eles aceitariam a ideologia de gênero nas escolas e que as FARC iriam dominar o poder e a Colômbia viraria a Venezuela”, relatou.

Há análises políticas que descrevem a rejeição do acordo de paz por parte dos colombianos como parte da guinada à direita nacionalista, assim como a eleição de Trump e a vitória do Brexit no referendo de 2016.

Já o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Fidel Irving Perez Flores, não vê dessa forma. Para ele, o Brexit e a eleição de Trump talvez sejam mesmo parte de uma mesma onda que atinge em primeiro lugar países do ocidente europeu e os EUA. “Os episódios como a vitória de Trump e o Brexit vem sendo identificados como parte de uma tendência que responde a mecanismos mais recentes, como a crise econômica de 2008, a ocupação dos novos espaços midiáticos por propagadores de bandeiras da direita nacionalista e outros”, disse.

Quanto ao “não” no acordo de paz, Fidel vê o conflito armado na Colômbia e os esforços por negociar a paz como processos de longo prazo e que suas origens se remontam a várias décadas atrás. “Já o fato de a rejeição em plebiscito do acordo de paz na Colômbia me parece ser apenas uma coincidência temporal, sem conexão substantiva com aqueles outros eventos, afirmou.

Histórico de acordos
Não é de hoje que o governo tenta manter diálogo com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A primeira tentativa de diálogo se deu em 1982, durante o primeiro ano do governo de Belisario Betancur. O processo de negociação foi visto como bem sucedido e, depois de anos com mediação de Havana, seus resultados foram firmados nos Acordos de la Uribe em 1984.

Em 1990, o presidente César Gaviria Trujillo foi eleito e entre suas principais propostas, destacava-se a iniciativa de pacificar as FARC por meio do diálogo. Mas, isso não ocorreu, pois enquanto as conversas do governo com o grupo guerrilheiro se desenvolviam, as Forças Armadas do país tomaram a Casa Verde, então considerada quartel general das FARC. A atitude almejava matar os líderes do grupo guerrilheiro, mas não foi bem sucedida, e acabou sendo entendida pelas FARC como uma suspensão das conversas com o governo.

Já durante o mandato de Andres Pastrana (1998-2002) houve mais uma tentativa de diálogo. No processo, o presidente chegou a ceder à guerrilha uma zona desmilitarizada. As ações dos guerrilheiros não diminuíram, inclusive, no mesmo período, as FARC passaram por uma fortificação bélica. Dessa maneira, as negociações foram suspensas em 2002, após o sequestro de um avião comercial.

Logo após a suspensão das negociações de paz, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia sequestram a candidata à presidência da República Ingrid Betancourt e sua assessora política, Clara Rojas. As duas foram libertadas em dezembro de 2008.

Trinta anos depois, em 2012, durante o primeiro mandato de Juan Manuel Santos, foi confirmado o início das negociações de paz com as FARC, que seriam desenvolvidas novamente em Havana, e intermediadas por Cuba e Noruega.

As negociações foram finalizadas somente em 23 de agosto de 2016, totalizando mais de três anos de conversas. Alguns dias depois, teve início o cessar-fogo bilateral definitivo, atitude que não ocorria desde 1984. O acordo final foi assinado na cidade colombiana de Cartagena das Índias, em setembro do mesmo ano. O processo foi o mais duradouro e mais bem sucedido da história do conflito colombiano, sob o ponto de vista de analistas de política internacional.
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