23/10/2020 às 11h13min - Atualizada em 23/10/2020 às 10h48min

Um sonho de criança

Alana Oliveira sonhava em escrever um livro e conseguiu durante a faculdade de jornalismo

Andrieli Torres - Editado por: Gustavo H Araújo
Foto: Arquivo pessoal de Alana Oliveira
Sabe aquele sonho de escrever um livro? Muitas pessoas provavelmente já pensaram ou desejaram isso  em algum momento da vida, seja quando criança ou até mesmo na fase adulta. Para os amantes da leitura e da escrita, essa realização é talvez uma meta de vida: ter um livro para chamar de “filho” e poder mostrar a todos a grande conquista.

Um livro pode levar os leitores para outras dimensões apenas com palavras que tramitam ao longo de frases e sensações. A cada página, o desejo é consumir o mais rápido possível para saber o desfecho da história, saboreando as aventuras, emoções e aprendizados que ele pode proporcionar.

Esse sempre foi o sonho da jornalista Alana Oliveira, 29, que quando criança já almejava um dia ter um livro materializado em suas mãos. O sonho se tornou realidade quando ela fez o livro-reportagem transmídia “Esse chão é o meu lugar” em 2019, contando a história de pessoas do Assentamento Arizona, localizado em São Miguel do Gostoso, no interior do Rio Grande do Norte, como projeto experimental de seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Então, voou mais alto, quando foi escolhida entre os cinco finalistas da região Nordeste na Intercom (
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação).

Escrever um livro, para mim, fazia parte daquela listinha que todo mundo em algum momento tem, em que você escreve assim em algum caderno: ah! eu quero ser isso e fazer isso alguma vez na vida”, confessa. Para ela, escrever é uma projeção do amor que tem por contar histórias, e isso a deixa fascinada.

Filha da professora Maria de Oliveira, 55, Alana foi criada cercada por papéis, 
recortes e cartazes espalhados pela sala. Por isso, tornou-se a garota cheia de agendas e caderninhos, em que criou as suas primeiras personagens, Ana e Nara, que eram escritas muitas vezes para falar de si mesma e, às vezes, só para exercitar a escrita. “Eu lembro de algumas coisas que me marcavam, alguns textos que eu guardo até hoje, algumas crônicas; hoje eu entendo que é crônica, mas na época não sabia bem o que era, mas gostava de escrever”, revela.

Ela lembra bem que o seu pai Paulo Oliveira, 58, sempre dizia que a uma hora em ponto tinha que ficar em frente à TV para assistir ao Jornal Hoje. Mas Alana não entendia o motivo, que logo depois compreendeu: ver as reportagens mais apuradas e detalhadas. Assim, começou a se imaginar vivendo dentro das matérias.

O projeto do livro levou cerca de um ano para ficar pronto. “Ver meu projeto materializado nas minhas mãos é algo que eu ainda não consigo descrever, foi muito difícil, muito doloroso, um filho muito lindo, mas que me deu muito trabalho. Concretiza um dos meus sonhos e é o pontapé para dar voz a novas histórias”, afirma Alana.

Ela estava no litoral Norte quando viu um acampamento e ficou curiosa para saber quem eram aquelas pessoas e o porquê de estarem ali. “Então começou naquele lugar o trabalho de checagem, saber com quem eu falava, quando falava, com quem eu deveria conversar. Então, eu procurei o professor Emanuel Pereira, e ele foi um balsamo, porque ele me guiou; ele me tirou muitas dúvidas. A partir daí eu comecei a pensar no que fazer”, conta.

A jornalista lembra que a princípio esse trabalho seria um documentário, mas devido as primeiras orientações surgiu a oportunidade de que fosse um livro, apesar disso, ela não queria deixar de fazer o documentário e, agora, nem o livro. Foi então que surgiu a ideia de fazer um livro reportagem transmídia, em que os leitores encontram uma ferramenta de QR Code em cada capítulo, assim proporcionando a eles a experiência de ter tanto a leitura como o som e a imagem, e conhecer ainda mais os personagens da história. Segundo ela, o livro “propôs retratar um fator geográfico, um segmento de atividades econômicas, seus mecanismos e funcionamento, prestando serviço educativo e explicativo."

“Para a construção desse projeto eu tive que viajar até a comunidade rural com duas pessoas que abraçaram esse projeto - na época estudantes de audiovisual - Sarah Nascimento e Igor Estelito, que cuidaram dessa parte da produção; eles filmaram as imagens de apoio e as fotografias, eles abraçaram de forma imensa”, enfatiza.

Alguns autores contribuíram na construção e amadurecimento do projeto, como Elaine Brum, Daniela Arbex e Edvaldo Pereira Lima. “Quando eu conheci Elaine Brum e sua escrita inspiradora, de uma sensibilidade incomparável, despertaram em mim desejos  de outrora. Posteriormente, o livro ‘Páginas Ampliadas’ de autoria de Edvaldo Pereira Lima, fez-me entender que a arte na narrativa de contar histórias existe desde que a humanidade se organizou como sociedade, e contar histórias envolve necessariamente colocar o ser humano em primeiro lugar. Assim, tal como o jornalismo-literário, o livro-reportagem cumpre seu potencial quando é entregue para contar uma história."

Como tudo na vida está longe de ser fácil, Alana enfrentou alguns desafios para colocar em prática a execução do projeto. Ela e seus parceiros de jornada chegaram em meio a um sol quente com os equipamentos em mãos, tendo que transitar o assentamento completo, tarefa que se tornou exaustiva, pois o Arizona é um lugar grande e dividido em agrovilas. Por isso, foram necessários dois dias para concluir a visita. “E eles nos receberam muito bem, foram muito receptivos, contaram a história assim, de forma linda; sou muito suspeita, porque sou apaixonada por ouvir. Para fazer esse projeto eu tive que me esvaziar para ouvir e contar essa história, me desfazer de qualquer preconceito, de qualquer achismo, de qualquer convenção do senso comum”, destaca.

Com a voz refletindo gratidão, ela diz que leva como aprendizado o amor ao próximo, pois foi uma experiência incrível que vai levar para o resto da vida. Esse foi apenas o pontapé inicial para outros projetos, já que pretende escrever outros livros, pois a grande reportagem é o que a move profundamente. “Levo como aprendizado que todos têm a sua história e ela precisa ser valorizada independente de quem seja, aquela coisa, o lado da moeda existe, o ponto de vista existe, uma história, ela nunca é contada de uma forma só."

O nome do livro surgiu durante as pesquisas iniciais, por ser uma história de pessoas que só queriam uma terra para viver, morar e construir as famílias e, para Alana, casou e representou muito bem o projeto. Mas deixa claro que também houve a sugestão do seu professor e orientador Manoel Pereira, que falou para trocar “Essa terra é o meu lugar” para “Esse chão é o meu lugar”, que combinou perfeitamente com a foto da capa feita por Sarah, sob a direção da autora.

Ela descreve com emoção entre as palavras, a sensação de ter sido selecionada. “Nossa, quando eu soube que meu livro tinha sido um dos finalistas da região Nordeste, eu não sei nem dizer, primeiro vem aquela sensação: é verdade? A gente olha duas vezes, será mesmo que eu fui aprovada? Foi só alegria e recebi a carta de aceitação com muita emoção, porque foi um projeto muito difícil, tive que sair da caixinha, foi um projeto que pediu noites de sono perdidas, finais de semana muito choros, mas muitos sorrisos também; foi  por algo assim que até agora estou meio que acreditando, colhendo os frutos ainda. ” A autora da obra revela que é um prazer compartilhar a história no Intercom Nordeste.

O otimismo faz parte do vocabulário da jornalista, pois sempre acreditou que seria possível chegar na final, foi a sua porta-voz quem contou a história. Segundo Alana, a própria comunidade retratada no livro é muito rica em histórias de vida e projetos sociais. “A história deles em si é boa, a história em si, vive."

Os pais são os nossos primeiros fãs, e com ela não foi diferente. Quando contou que estava entre os finalistas, a reação deles foi mais fervorosa do que a dela e vibraram juntos, a todo momento foram grandes parceiros e receberam o projeto de braços abertos. “Sem eles não teria chegado nesse resultado."

“Quando eu falo desse chão que é o meu lugar”, eu falo de uma concretização de um sonho, afinal, os sonhos existem para serem alimentados, projetados e movidos com vontade de vencer, e o que vier pela frente, sejam obstáculos ou desafios, me guiaram para uma grande jornada. O que me fez crescer nesse projeto foi a jornada até ver ele finalizado nas minhas mãos. Isso me fez crescer, me fez amadurecer como profissional. Lógico que ele é um projeto experimental, mas esse projeto me completa e me faz feliz" completa.

São com essas palavras, de pura alegria e amor estampado em cada frase dita, que Alana segue sua nova vida, cheia de altos e baixos, mas sempre com muitas conquistas. O que era um sonho infantil, alcançou o inimaginável. A criança sonhou, a adulta realizou.

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