23/10/2020 às 11h50min - Atualizada em 23/10/2020 às 10h45min

Livros-reportagem debatem sobre o abuso sexual

Em 2019, o livro-reportagem "Ela disse" derrubou o ex-produtor de cinema Harvey Weinstein

Isabel Dourado - Editado por: Gustavo H Araújo
Foto: Jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey; Capa oficial do livro "Ela disse"

 

O livro-reportagem é mais do que uma “extensão da reportagem” e vem crescendo tanto na academia como no mercado editorial. O gênero possibilita que o jornalista saia do imediatismo e se aprofunde em um grande contéudo. Em 2017, as jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey do New York Times começaram a investigar sobre assédio sexual no local de trabalho. O início das investigações sobre o produtor de cinema de Hollywood, Harvey Weinstein, levou-as por caminhos que elas jamais previram. O resultado de anos de apuração se deu no lançamento do livro-reportagem "Ela disse" (She said). O projeto foi a soma de longas e delicadas pesquisas, entrevistando atrizes, ex-funcionárias da empresa do produtor e diversas outras fontes. 

 

As descobertas que as jornalistas tinham feito após uma exaustiva investigação as fizeram questionar o real porquê de escrever a matéria sobre Harvey Weinstein que na época já nem era tão famoso. A história que também é sobre jornalismo investigativo traz ao leitor como as jornalistas convenceram as fontes a revelar segredos, como definiram informações e como correram atrás da verdade enquanto o ex-produtor de cinema usava táticas desonestas para sabotar o trabalho investigativo. 

 

O livro começou a ser escrito em 2019, quando Weisntein aguardava julgamento criminal por acusações de estupro e outros abusos sexuais. Após a divulgação do trabalho jornalístico houve pouco debate público sobre o que Weinstein tinha feito com as mulheres e o que deveria ser feito em resposta. As investigações de Jodi Kantor e Megan Twohey começaram quando o debate acerca das fake news estava em alta. O consenso sobre o que é verdade e o que é falso parecia estar sendo desmembrado. Conquistar a confiança do público leitor era também um desafio. A questão de gênero não era apenas uma pauta, mas uma porta de entrada investigativa. Mulheres de todas as classes sociais continuavam a sofrer assédio sexual sem que ninguém fosse punido. 

 

Desde o primeiro capítulo do livro, o leitor é colocado nos bastidores e acompanha cada passo das investigações. A ideia de trazer o leitor para acompanhar a forma como foi feita a investigação foi um fator preponderante para que o livro ganhasse prestígio e relevância. O título era intencionalmente complicado: “escrevemos sobre aquelas que disseram algo”, explicam as jornalistas no prefácio do livro. Relatando o período de dois anos espantosos na vida das mulheres dos Estados Unidos, principalmente atrizes de Hollywood, o livro traz questões relacionadas ao poder. O poder era o fator determinante para que os agressores saíssem impunes, uma vez que as denúncias de abuso sexual não fossem realizadas.

 

Um dos maiores desafios descrito no livro estava em contatar as fontes, que na maioria eram atrizes e modelos famosas de Hollywood. Muitas que sofreram algum tipo de agressão não estavam dispostas a dar entrevistas. Quando as fontes aceitavam ser entrevistadas, grande parte só falava em off, ou seja, de maneira confidencial. Por esse motivo, as jornalistas usaram a tática de escrever desde o início das investigações até o desdobramento os contatos com potenciais fontes, os primeiros documentos que provavam as acusações e os acordos de confidencialidade feitos pelos advogados de Harvey Weinstein.  

 

A contribuição do livro influenciou diversas mulheres a denunciarem casos de agressão sexual e abuso. Além disso, deu impulso ao movimento #Metoo, fundado pela ativista Tarana Burke. Em 2018, a dupla ganhou o prêmio Pulitzer na categoria Serviço Público. 

 

Cada vez mais, o jornalismo tem sido usado para ajudar e inspirar uma mudança de paradigma. Abuso sexual tem sido debatido na mídia e as vítimas estão ganhado voz para denunciar os agressores. Neste ano, a jornalista brasileira Ana Paula Araujo lançou o livro "Abuso: a cultura do estupro no Brasil". Ao decorrer das 320 páginas da publicação, a jornalista analisa alguns casos conhecidos, mas também casos anônimos que se perderam em meio às falhas da justiça e da sociedade. A apuração durou cerca de quatro anos, albergando mais de cem entrevistas com vítimas, familiares, criminosos, psiquiatras e estudiosos do assunto. O livro vem da realidade que permeia a vida de todas as mulheres. 


 
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