23/10/2020 às 13h13min - Atualizada em 23/10/2020 às 12h56min

A Realidade Distópica

Mesmo após 35 anos da publicação do livro "O conto da Aia", a sociedade pode estar cada vez mais perto da distopia

Aila Beatriz da Silva Inete - Editado por: Gustavo H Araújo
Foto: Arquivo pessoal de Aila Beatriz Inete
Quando Margaret Atwood publicou "O conto da Aia", em 1985, talvez ela não imaginasse que em pleno século XXI o universo do livro estaria tão perto de nós.

No livro, fundamentalistas cristãos derrubam o governo dos Estados Unidos, suspendem a constituição, assumem o poder e impõem um governo totalitário, transformando o antigo país em Gilead. Os direitos de todas as mulheres são retirados e elas passam a serem divididas entre férteis e inférteis. As mulheres férteis são mandadas para a casa dos comandantes do governo com o intuito de, uma vez por mês, serem violentadas sexualmente, para que elas gerem vidas para o país, tornando-se, assim, o centro desse novo sistema. A leitura da obra, em muitos momentos, não é fácil; especialmente por apresentar temas como a objetificação das mulheres e o controle sobre elas. E, infelizmente, é possível encontrar diversos pontos em comum entre a distopia de Atwood e a atualidade.

Em entrevista para a agência Reuters - reproduzida no Huffpost -, Margaret Atwood falou sobre a necessidade que sentiu de escrever uma “continuação” do livro. “À medida que o tempo passava, ao invés de nos distanciarmos de Gilead, começamos a nos aproximar dele, particularmente nos Estados Unidos”, disse a autora. Ela afirmou, ainda, que “Se vocês olharem as medidas legislativas de uma série de estados dentro dos EUA, podem ver que alguns estão quase lá [em Gilead]. O que estas leis restritivas sobre os corpos das mulheres estão reivindicando é que o Estado seja dono do corpo delas."

Nesse sentido, separei três violações dos direitos humanos e da mulher que são apresentadas no livro e que ainda estão presentes nessa realidade distópica em que vivemos:

1 - Um feto está acima da mulher. Uma resolução do Conselho Federal de Medicina daqui do Brasil (CFM), publicado no Diário Oficial da União em 16 de setembro de 2019, tirou das gestantes o direito à recusa terapêutica, concedendo aos médicos o poder de realizar os procedimentos. O CFM decidiu que é o estado dos fetos que importa, e não a integridade física e mental das mulheres, que devem ser priorizadas. Assim como na sociedade teocrática de Gilead, em que as mulheres são apenas “objetos de reprodução”, sendo o feto que estão gerando mais importante do que elas.

2 - Culpar a vitima de estupro. No livro, Janine, uma das personagens, está rodeada pelas outras Aias no Centro Vermelho e após relatar que foi estuprada, as Aias apontam para Janine e dizem: “sua culpa”. É claro que as mulheres estão sob pressão do governo teocrático, que busca fazer elas acreditarem que eram culpadas pela violência sexual. Infelizmente, de acordo com uma pesquisa do Datafolha, de 2019, mais de 33% da população brasileira considera a mulher culpada pelo estupro. A pesquisa mostra, ainda, que 42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”; enquanto 63% das mulheres e 51% dos homens discordam.

3 - Morte para “traidores do gênero”. De acordo com uma reportagem da BBC, 70 países ainda têm algum tipo de lei contra a homossexualidade. As leis são diferente entre os países, existem aqueles que protegem mais - com alguns parágrafos que proibem a discriminação por conta da orientação sexual -, e aqueles que estabelecem pena de morte contra quem mantém relações sexuais com pessoas do mesmo sexo. No livro de Atwood, os traidores do gênero - como são chamados - são mortos e expostos ao público.

Quando li a obra, levei um choque muito grande, pois mesmo tendo sido escrito na década de 1980 e 35 anos depois da frase final do livro: “os senhores têm
 perguntas?” -, é possível ver uma sociedade cada vez mais parecida com Gilead.

Referências:

Castedo, Tombesi, Antía, Cecilia. Mapa mostra como a homossexualidade é vista pelo mundo. BBC NEWS. 28 de junho 2019. Mundo. Disponível em:https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48801567. Acesso em: 22 de outubro 2020.


PENHA, Odilany dos Santos Silva. Violação aos direitos das mulheres: uma análise sobre o conto da Aia. Conteúdo Jurídico. Direitos Humanos. 09 de dezembro 2019. Disponível em:http://www.conteudojuridico.com.br/consulta/Artigos/53924/violao-aos-direitos-das-mulheres-uma-anlise-literria-sobre-o-conto-da-aia. Acesso em: 22 de outubro 2020. 

LARA. Bruna de. CFM põem the handmaid's tale em prática ao determinar que um feto está acima de uma mulher. The Intercept Brasil. 19 de setembro 2019. Disponivel em: https://theintercept.com/2019/09/19/cfm-resolucao-recusa-gravidez/. Acesso em: 22 de outubro 2020.

MARTINELLI, Adréa. Leia trecho exclusivo de “Os Testamentos”, continuação de “O conto da Aia”, escrita por Margaret Atwood. HuffPost. 16 de novembro 2019. Mulheres. Disponivel em: https://www.huffpostbrasil.com/entry/os-testamentos-margaret-atwood_br. Acesso em: 22 de outubro 2020.
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