25/10/2020 às 17h50min - Atualizada em 25/10/2020 às 17h34min

Bolivianos elegem novo presidente um ano após anulação da eleição presidencial

O ex-ministro da economia Luis Arce (MAS) foi eleito com 55,10% dos votos e afirma que Bolívia recuperou democracia

Cesar Fontenelle - Editado por Caroline Gonçalves
© AP Photo /Juan Karit
No último domingo (18), os bolivianos retomaram às urnas para votar para presidente. Há um ano, em 20 de outubro, as eleições foram anuladas e implicaram na renúncia do então presidente e reeleito pela quarta vez, Evo Morales, que atualmente está exilado em Buenos Aires.

Na sexta-feira (23), o Tribunal Supremo Eleitoral da Bolívia (TSE) confirmou o resultado de bocas de urna que mostraram, ao longo desta semana, Luis Arce (MAS- IPSP) como o mais novo presidente boliviano. No fim do dia, às 18h, o TSE formalizou a vitória em primeiro turno do ex-ministro da Economia de Evo Morales com 55,10% dos votos.

Os dados do levantamento do instituto Ciesmori apontavam vitória de Luis Arce com 52,4% dos votos, contra 31,5%, do ex-presidente Carlos Mesa (Comunidade Cidadã). Outra sondagem, da Fundação Jubileo, exibiu vantagem de 53%, contra 30,8%.

Um dia antes das votações (17), o TSE suspendeu a contagem rápida dos votos e anulou a divulgação dos resultados preliminares. A justificativa do órgão veio por nota divulgada 12 horas antes do início das votações, que dizia não querer “alimentar incertezas em um cenário tão polarizado”.

Nas redes sociais, Luis Arce, Carlos Mesa e a Organização dos Estados Americanos (OEA) declararam compreender os motivos pelos quais levaram a suspensão do resultado. Nesta eleição, houve a presença de seis observadores internacionais entre eles, a OEA, responsável pela anulação das eleições passadas após auditoria; União Europeia, o Centro Carter, a União Interamericana de Organismos Eleitorais e a Associação de Organismos Eleitorais da América do Sul.

Em suas redes sociais, Arce agradeceu ao povo boliviano que compareceu em peso aos locais de votação. Em 2020, as eleições tiveram participação recorde de 87% dos 7 milhões de eleitores registrados, segundo o TSE. Nos pleitos anteriores, a média de participação foi de 80%.

Luis Arce, em pronunciamento rodeado por apoiadores e militantes do MAS, afirmou que governará para todos os bolivianos. Evo Morales, desde Buenos Aires, afirmou que a prioridade é exclusivamente a recuperação da democracia.

Moira Zuazo, pesquisadora boliviana associada à Universidade Livre de Berlim, afirmou que, no último domingo, houve uma festa democrática na Bolívia. Ela também acredita que a reconstrução da democracia depende da aceitação do resultado. “É uma eleição administrada por um Tribunal Eleitoral que restaura a credibilidade”, disse.

Sobre a participação dos observadores internacionais, ela declarou que vê com bons olhos a participação dos seis órgãos, pois em 2019, houve apenas um, a OEA. “Havia muitas falhas”, disse a pesquisadora que defende a ampliação da capacidade tecnológica para as futuras eleições.

Sobre a preocupação de Moira a respeito da aceitação do resultado pela oposição, pode-se concluir que ocorreu tudo bem, já que a presidente interina Jeanine Añez (Movimento Democrático Social) parabenizou o presidente eleito antes mesmo do resultado formal do TSE.
“Felicito os ganhadores e peço para governar pensando na Bolívia e na democracia”, postou Añez nas suas redes sociais.

Checho Gonzales, chefe de cozinha boliviano, não votou por questões burocráticas, mas se diz satisfeito com o resultado. Ele reconhece que o os anos do governo Morales fez muito pelos mais pobres, mas é crítico aos últimos anos do ex-presidente.
“Evo, pra mim, foi o melhor presidente, fez coisas boas para o povo boliviano, mas se mostrou um déspota depois de desrespeitar a Constituição que ele mesmo promulgou e o referendo convocado também por ele mesmo”, disse.

Checho se refere ao referendo de 2016, no qual os bolivianos rejeitaram a reforma constitucional promovida por Morales para se candidatar a um quarto mandato (2020-2025). O 'não' se impôs com 51,3% dos votos contra 48,7% do 'sim'. Mais de seis dos dez milhões de bolivianos foram às urnas, à época, para decidir sobre a reforma constitucional.

Para Moira, não houve uma ruptura democrática em 2019, ela afirma ver o governo de Jeane Añez como um governo de transição. E que agora, com a aceitação do resultado da eleição pela oposição, pelo Tribunal Eleitoral e com o aval dos seis observadores internacionais, a democracia boliviana está firme.

Já Checho, que vive em São Paulo, afirma que o governo de Jeanine Añez não é democrático. Para ele, um governo democrático não oprime a oposição como o governo de transição de Añez fez.

Moira diz ser importante deixar claro que Luis Arce não é Evo Morales. Checho, assim como a pesquisadora, também rejeita o argumento de que ter votado em Arce, votou em Evo Morales. Esse argumento foi muito usado pelo candidato de extrema-direita Luís Fenando Camacho (Creemos), que ficou em terceiro lugar com 14% dos votos.

Na terça-feira (20) algumas centenas de bolivianos foram às ruas na cidade de Santa Cruz, reduto de Camacho e a mais rica da Bolívia. A presidente Juanine Añez foi candidata à Presidência, mas menos de um mês para o pleito, ela desistiu da candidatura e apoiou Camacho. Moira afirma que quando Añez retira a sua candidatura, ela deu credibilidade ao processo eleitoral depois de uma crise muito grande.

Checho diz acreditar que Arce se distanciará de Evo assim que tomar posse. “Evo e Arce fazem parte do MAS, no entanto o MAS não é o Evo, é um movimento social importante para a Bolívia. O boliviano gosta da democracia e de soluções democráticas, é um povo que acredita nas urnas”, disse.

Moira afirma que para entender a Bolívia é importante olhar para as nuances, senão podemos cair no erro de colocar todos os candidatos na mesma bolsa e, consequentemente, não vamos entender o que está passando no país. Por exemplo, a ruptura que houve no partido Democratas, de Añez, deu-se na criação do Creemos, de Camacho.

É importante também ressaltar que Luis Arce não é tão de esquerda assim como os opositores o dizem ser. Arce foi o responsável pela política econômica pragmática e até liberal do governo Morales. Outro exemplo é o ex-presidente Carlos Mesa, que ficou em segundo lugar, que é a favor do casamento gay e do aborto.
 
O presidente eleito
Luis Alberto Arce Catacora é um economista de 57 anos, e ex-ministro da Economia do governo Evo Morales. Durante sua administração, a Bolívia elevou seu Produto Interno Bruto (PIB) de 9.500 milhões de dólares anuais a 40.800 milhões e reduziu a pobreza de 60% a 37%, segundo dados oficiais.

Arce estudou na Faculdade de Ciências Econômicas e Finanças da Universidade Mayor de de San Andrés, em La Paz, e é mestre pela Universidade de Warwick, na Inglaterra.

Trabalhou por 18 anos no Banco Central, onde ocupou diversos cargos, e foi ministro de Economia e Finanças em quase todo o governo de Morales, com uma pausa de 18 meses para tratar de um câncer no rim.

Arce tem um perfil mais tecnocrata do que político. Muitos dizem que ele é um liberal que ainda não saiu do armário. O agora presidente eleito também se dedicou à docência e ministrou inúmeros cursos em universidades na Bolívia, Estados Unidos e Argentina, entre elas Harvard, Columbia e a Universidade de Buenos Aires.
 
 
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