01/11/2020 às 19h00min - Atualizada em 01/11/2020 às 18h13min

Conheça a história da estátua de Medusa que se tornou parte do movimento #MeToo

Thaís Cordeiro - Editado por Bruna Araújo
Foto: Reuters / Luciano Garbati e a Medusa Com A Cabeça De Perseu
Uma versão reimaginada da clássica obra mitológica de Benvenuto Cellini vem sendo considerada um símbolo do movimento Me Too, que luta contra o abuso sexual e mobilizou pessoas a quebrarem o silêncio contra abusadores. A estátua “Medusa com a Cabeça de Perseu”, criada em 2008 pelo artista argentino-italiano Luciano Garbati, dá um novo significado a conhecida história do monstro com serpentes no lugar dos cabelos.

 

 
Segundo a mitologia grega, Medusa era uma mortal de beleza invejável e lindos cabelos, que exercia o sacerdócio no templo de Atena, deusa da sabedoria e da guerra. Sua beleza atraia a atenção de diversos homens, incluindo o deus Poseidon.

Depois de diversas tentativas de sedução e cansado das recusas da moça, o deus do Olimpo decide estuprá-la em frente à estátua de Atena, que furiosa pela violação de seu templo, transforma os cabelos da sacerdotisa em serpentes, a pele em escamas e coloca uma maldição em que todos que a olhassem se transformariam em pedra.

Amaldiçoada e transformada em um monstro, Medusa é banida do templo. Vivendo isolada em uma caverna, guerreiros gregos passam a visitar o local para confrontá-la e usar sua cabeça como arma.

Um deles foi o semideus Perseu, enviado para matar o monstro. Armado com presentes dados pelos deuses, um elmo invisível e uma espada, Perseu ataca Medusa enquanto dorme e a decapita, utilizando sua cabeça para transformar os inimigos em pedra.
 

 
Quando criou a obra, Garbati não teve a intenção de torná-la um símbolo do feminismo e da luta contra o abuso sexual, sua inspiração foi, de fato, a estátua do italiano Benvenuto Cellini, onde o herói Perseu expõe vitoriosamente a cabeça do monstro, enquanto o corpo sem vida de Medusa jaz aos seus pés. Fascinado com a obra, o artista ficou intrigado como uma pergunta: Como seria se a vitória fosse dela, e não dele? Com o quê essa obra se pareceria? Assim surgiu a escultura de Medusa como heroína, nua, com o corpo esguio,um olhar determinado, como quem busca uma justiça não concedida, segurando a cabeça de Perseu em uma das mãos e uma espada na outra.

A escultura viralizou nas redes sociais em 2018 e a partir daí, surgiram elogios e críticas à obra que resurgiram com a notícia de que a estátua seria instalada em Nova York e permaneceria lá por seis meses, em um parque perto do tribunal onde o produtor de cinema americano, Harvey Weinstein, foi condenado a 23 anos de cadeia por estupro e abuso sexual em março deste ano. Podendo ser considerada um tributo ao movimento #MeToo (Eu também, em inglês).

Polêmicas surgiram por conta da natureza violenta da obra, criticada por mulheres sobreviventes de estupro, por apresentar uma imagem errônea das vitimas de violência sexual, “a busca por vingança”, as reduzindo a agressoras. Outros pontos levantados foram o motivo da estátua estar com a cabeça de Perseu, e não a de seu abusador, Poseidon, e a escolha do artista, um homem, de representar a personagem mitológica nua e com um corpo escultural, levando a questionamentos sobre a pressão estética que as mulheres sofrem e a objetificação do corpo feminino.

Garbati diz que a estátua é uma resposta direta a obra de Cellini e que a imagem de Medusa foi personificada tal como é descrita na literatura. Sobre ser um homem que criou a obra, a fotógrafa Bek Andersen que trabalha com Garbati disse em entrevista achar maravilhoso que o artista seja um homem, “Eu acho que os homens são deixados de lado na conversa sobre o Me-Too, e acredito que eles têm medo do que isso significa para eles.”

A fotógrafa explica que a escultura possuiu uma alta carga emocional e é compreensível que os espectadores tenham uma forte reação à obra. A realidade é que mitologia e história são contadas pela perspectiva do narrador com preferências implícitas. Mas a inversão do mito desestabiliza o que muitos consideram ser uma história fixa, e isso pode ser uma ideia desconfortável. Desestabilizar a narrativa como contada através das lentes do patriarcado, é o lugar no qual realmente o poder da obra está.


A obra do artista pergunta: “Como um triunfo é possível se você está derrotando uma vítima?”. Garbati questiona a caracterização de Medusa como monstro. Mesmo estuprada, amaldiçoada e morta, o mito a representa como a vilã, um ser assustador e terrível que se deve temer, sem nunca refletir sobre a culpa do seu abusador, da deusa que a puniu injustamente e do herói que tirou sua vida. Prevendo a modernidade em milhares de anos, Medusa é a história de uma mulher que foi culpada, perseguida e envergonhada pelo abuso que sofreu. 

'Medusa com a Cabeça de Perseu' estará exposta no Collect Pond Park, perto do Tribunal de Justiça Criminal de Nova York, até Abril de 2021.

 
Outras obras polêmicas

Diversas obras de arte causaram controvérsias no decorrer dos anos. Algumas por questões religiosas ou políticas, e outras por sua inadequação e conteúdo sensível.

Jesus Sem-Teto                  



A obra do canadense Timothy Schmalz mostra um morador de rua, dormido em um banco de praça debaixo de um cobertor. O rosto e o corpo estão cobertos, deixando apenas os pés expostos, onde é possível ver as marcas das feridas de Jesus após ser crucificado.  A estátua, que foi criada para conscientizar o público sobre a marginalização de pessoas em situação de rua, emocionou muldidões em suas mais 40 versões distribuídas pelo mundo. Ganhando atenção do Vaticano, em 2018, o Papa Francisco presenteou a cidade do Rio de Janeiro com uma cópia da obra. A estatua se tornou polêmica por muitos não acreditarem ser apropriado retratar Jesus como morador de rua.


Tornado de Ideias



Criada em 2004, a obra do americano Tom Otterness utiliza a imagem de um tornado com diversos livros e figuras para representar “a extrema direita e esquerda como forma de demonstrar as forças que ameaçam dividir o país.” A estátua reside no campus da Universidade Tecnológica do Texas, onde gerou protestos e petições para que fosse removida por seus 
valores liberais não representarem a maioria dos alunos.

Referências
 
BBC. “A intrigante estátua de Medusa em homenagem ao movimento MeToo em Nova York”. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54669548>  Acessado em 28 de Outubro de 2020

Quartz. “The story behind the Medusa statue that has become the perfect avatar for women’s rage”. Disponível em: < https://qz.com/quartzy/1408600/the-medusa-statue-that-became-a-symbol-of-feminist-rage/> Acessado em 28 de Outubro de 2020

Smithsonian Mag. “Why a New Statue of Medusa Is So Controversial”. Disponível em: < https://www.smithsonianmag.com/smart-news/controversial-metoo-medusa-statue-unveiled-180976048/> Acessado em 28 de Outubro de2020

The New York Times. “How a Medusa Sculpture From a Decade Ago Became #MeToo Art”. Disponível em: < https://www.nytimes.com/2020/10/13/arts/design/medusa-statue-manhattan.html> Acessado em 28 de Outubro de 2020
 
 
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