05/11/2020 às 07h56min - Atualizada em 05/11/2020 às 07h53min

A guerra geracional explanada no mundo dos desenhos animados

A nostalgia ignorante e o saudosismo do passado são os responsáveis por fazerem gerações mais antigas rejeitarem os desenhos atuais

Lucas Lima - labdicasjornalismo.com


 

Você provavelmente já se deparou com a situação onde ouviu que os desenhos animados da antiga geração são melhores que os atuais, que os cartoons de hoje são muito bobos ou até mesmo pode ser que você seja um dos indivíduos que simpatiza com essas ideias. Há uma desavença entre gerações quando o assunto é a qualidade dos desenhos animados, alguns preferem desmerecer as produções mais modernas, dando primazia às antigas.

 

É um debate muito voltado para o emocional que combina uma pitada de nostalgia com um saudosismo do passado. Muitas das críticas vêm dos jovens nascidos nos anos 90 que cresceram assistindo um formato específico de produção e que viram, com os anos, ele mudar drasticamente para outro modelo. A desaprovação vinda por esta parcela de pessoas é argumentada por acharem os cartoons contemporâneos bobos e infantilizados. Porém, na verdade, essa visão está enraizada em uma nostalgia ignorante que faz as gerações acharem que tudo do seu tempo é melhor.

 

Porquê as críticas não fazem tanto sentido

 

Desenhos produzidos durante os anos 90 até meados de 2000 são considerados como clássicos. Eles representam o auge dos canais de desenhos animados e são os responsáveis por consolidá-los entre o público infantil. Entretanto, toda era tem um ínicio e fim, e com o tempo, esses desenhos chegaram a sua finalização. É insustentável, na maioria dos casos, manter uma produção por tantos anos pelo simples fato de não ter mais história para ser contada, e por isso, resta ao seu destino a finalização.

 

Aceitar que a seu desenho favorito terminou é uma tarefa complicada, mas é preciso, pois faz parte do processo das produções televisivas. Quando é finalizado, novas produções tendem a vir para preencherem as lacunas da programação do canal. É um processo natural. Fazer reprises de episódios é uma forma de tentar manter o desenho na grande, mas com o passar dos anos, se torna inadequado eles continuarem com destaque na programação.

 

Neste sentido, chegamos ao ponto chave do embate sobre a qualidade dos cartoons antigos comparados aos modernos: A mudança de público. O contexto social que as gerações mais velhas estavam inseridas era completamente diferente da atualidade. Temas sociais, a abordagem de assuntos e a forma com qual se consumiam os conteúdos nos anos 90 não é mais compatível com os dias atuais. Então, não faz sentido manter o mesmo modelo de produção de desenhos para uma geração que está inserida num ambiente social completamente distinto da anterior.

 

O motivo pelo qual os cartoons modernos não te agrada é porque eles não foram feitos para você e sim para as crianças de hoje. Jovens nostálgicos dos anos 90 não são o público alvo dos canais animados, e por isso, não há interesse em produzir um conteúdo para satisfazer este segmento. Portanto, o real problema não é com os cartoons, mas sim um conflito entre gerações. 

 

Aliás, é visto diversos reboots de desenhos clássicos sendo feito e isto tem levantado a dúvida do ‘‘por quê?’’. Oras, muitos dessas animações foram responsáveis por consolidar eras nos canais, e por esse motivo, há um desejo de apresentá-los aos novos telespectadores. Porém, é incompatível fazer isso usando o formato clássico. Nisso, é vista a necessidade de atualizá-los para o novo público. Então, o ‘‘porque’’ do reboot é fazer uma adaptação para introduzir o desenho a nova geração de jovens.

 

Julgar os desenhos como bobos, infantis demais e ruins é um julgamento de valor que tem como premissa a sua infância ocorrida entre os anos 90 e meados de 2000. As crianças de hoje olham para esses desenhos e veem qualidade. Essa questão se trata de uma perspectiva geracional, em que gerações tendem a ver as coisas dos seus tempos como melhores comparados aos demais tempos.

 

Trata-se de uma nostalgia ignorante querer impor a sua perspectiva para os demais na justificativa que no seu tempo era melhor. Talvez o seu tempo seja ultrapassado e talvez o melhor não seja o antigo, mas sim o novo. É preciso, às vezes, deixar o nostálgico de lado e viver o presente, senão ficamos presos nas engrenagens do passado. Essa é uma reflexão que deve ser feita por todos, pois quando analisamos esse lado do problema, vemos que não está exclusivo no âmbito de desenhos animados, mas também se estende na perspectiva sobre o mundo e valores em geral.

 

REFERÊNCIAS


FEITOZA, Laynne. Contraste entre desenhos atuais e antigos e a nostalgia em crianças acostumadas com tecnologia. Acrítica, 2020. Disponível em: <https://www.acritica.com/channels/entretenimento/news/contraste-entre-desenhos-atuais-e-antigos-e-a-nostalgia-em-criancas-acostumadas-com-tecnologias>. Acessado em: 05/11/2020.
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