06/11/2020 às 09h33min - Atualizada em 06/11/2020 às 09h11min

Úrsula: obra de maranhense redescoberta, aclamada e atemporal

Primeiro romance abolicionista no Brasil foi escrito pela maranhense Maria Firmina dos Reis

Adélia Fernanda Lima Sá Machado - Editado por Gustavo H Araújo
Livro: Úrsula, Literatura Afro-Brasileira, beduka.com
Reprodução: capa do livro "Úrsula" pela editora Taverna
“Esta obra, digna de ser lida não só pela singeleza e elegância com que é escrita, como por ser a estreia de uma talentosa maranhense, merece toda a proteção pública para animar a sua modesta autora a fim de continuar a dar-nos provas de seu talento.” Assim afirma Maria Firmina dos Reis, escritora precursora do romance abolicionista no Brasil, ao ser entrevistada no dia 12 de fevereiro de 1860, pelo jornal "A Imprensa", - parte destacada logo nas primeiras páginas da sua obra.

A maranhense Maria Firmina foi a pioneira do tema abolicionista no Brasil com a publicação do livro "Úrsula", obra que antecede a poesia de Castro Alves. Nordestina e filha da afrodescendência do país, conquistou reconhecimento, inicialmente dentro do seu estado, em 1859, ano da publicação do seu primeiro escrito.

A obra possui pouco reconhecimento no país, todavia, frente a sua importância e o seu protagonismo dentro da temática abordada, ela vem sendo redescoberta e ganhando a notoriedade que merece. Apesar disso, apenas agora esse fato acontece, pois tanto a obra quanto a escritora ficaram escondidas e desconhecidas por muito tempo, devido a prevalência de outros escritores.

O livro "Úrsula" possui diversas subjetividades quanto a retratar um estilo de escrita abolicionista, pois apesar de ter sido escrito por uma mulher, o cenário que nele é destacado e descrito não foi visto de longe, e sim vivenciado pela própria escritora, o que traz a sensação de veemência ao leitor. Desse modo, foi a primeira vez que a nossa literatura recebeu uma narrativa tão crítica e de fato vivida, devido ao fato de que, até então, havia apenas produções de auores brancos falando sobre os negros.

O contexto em que Maria vivia é o mesmo em que escreveu a obra, um período antes da Lei Áurea. Além da escravidão existente, havia a presença ainda mais constante do machismo e da opressão, fatores destacados pela própria escritora em seu prólogo, apresentando a dificuldade que é para uma mulher estar no mundo das letras neste período, no século XIX:

 

"Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem; com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo".

O trio e o romance


O romance é composto por alguns personagens, mas para compreender de fato a obra, basta interpretar o trio de negros que Maria Firmina constrói, cada um dos três com sua importância e trazendo consigo um histórico e muitas denúncias.

  1. Túlio - é um negro que salvou a vida de Tancredo, um homem de família rica - a escritora demonstra que ambos compartilham o mesmo espirito bondoso. Em forma de agradecimento, Tancredo liberta quem o salvou. E a partir daí, as falas de Túlio são usadas como denúncia.
  2. Suzana é a mulher do trio, ela foi retirada da África, separado dos seus filhos, marido e família. Foi literalmente jogada em um navio negreiro, presenciou e vivenciou as mais terríveis desumanidades. O que a personagem Suzana consegue passar, através do escrito de Maria, é a representação do processo da escravidão no Brasil, apresentando a vida comum em sua terra, com sua família, passando pelo relato doloroso do navio e fazendo o trajeto que tinha como destino à escravidão aqui no país.
  3. Antero é o terceiro negro que compõe a obra, ele traz uma abordagem que fala sobre a África marcada pelo trabalho duro, apresentando também suas festas e comemorações culturais. Antes da escravidão, ele era um velho guardião, agora, com sua situação atual, visualiza a bebida como uma atenuante do seu trabalho diário.
 
No plano de fundo da obra contém o romance de Úrsula, nome da personagem que deu origem ao título da obra, uma mulher pobre e órfã de pai; e Tancredo, um homem rico. Aproxima-se do estilo de romance do período no qual foi escrito a questão do casal impossível que, todavia, destoa seu final do romance comum e segue o lado trágico e gótico.
 
Apesar da presença do romance entre o casal Úrsula e Tancredo, o objetivo de Maria Firmina não é destoado em sua obra: ela quer denunciar os maus tratos na escravidão, a opressão e a omissão feminina na época. A genialidade da maranhense em fazer com que cada um de seus personagens descrevessem uma história individual e ao mesmo tempo transparecessem a realidade da escravidão é percebido pelo leitor.

Úrsula é fruto de uma escritora maranhense consciente de sua condição de mulher negra e militante de causas como a educação. Ainda que esta obra tenha sido escrita há mais de cem anos, as temáticas que nela são discutidas não perderam a atualidade.

O livro de Maria Firmina é uma leitura urgente e necessária para quem deseja conhecer mais a fundo a história do Brasil que, muita das vezesnão é contada com tanta propriedade nas histórias da literatura.

Além deste escrito, Maria Firmina dos Reis escreveu outros livros, contos, músicas e novelas:
  • Gupeva (1861) - novela
  • Cantos à beira-mar (1871) - poesias
  • A escrava (1887) - conto
  • Hino da libertação dos escravos (1888) - letra e música
  • Hino à mocidade - letra e música
  • Auto de bumba meu boi - letra e música
  • Valsa - música
  • Rosinha - letra e música
  • Pastor estrela do Oriente - letra e música
  • Canto de recordação - letra e música
 

 


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