08/05/2019 às 15h26min - Atualizada em 08/05/2019 às 15h26min

Caster Semenya convive com o fantasma de ter sua carreira interrompida

Atleta sul-africana busca, na justiça, o direito de continuar competindo.

Lúcia Oliveira - Editado por Carlos Henrique Correia
Press Association/AP Images

Com apenas 28 anos, a sul-africana Caster Semenya é dona de dois ouros olímpicos dos 800m no atletismo, além de já ter conquistado quatro pódios em Mundiais. Portadora de hiperandrogenismo, deficiência cromossomática que aumenta naturalmente os níveis de produção de andrógenos como a testosterona, Semenya vê sua carreira no esporte ser ameaçada dia após dia.  

Darren England/EPA

Darren England/EPA


Crédito foto: Press Association/AP Images

Tudo começou em 2009, quando conquistou um ouro no Campeonato Mundial de Berlim nos 800m, após baixar em quatro segundos seu próprio tempo, garantindo a melhor marca naquele ano. Durante as várias comemorações, a Associação das Federações Internacionais de Atletismo (IAAF) determinou que Semenya seria submetida a um teste de gênero. Após isso, a federação conseguiu impedir, durante quase um ano, que ela competisse em algumas provas internacionais, embora os resultados dos testes nunca tenham sido divulgados. 

Em julho de 2010, a sul-africana foi liberada para voltar a competir. Em 2011, a atleta subiu novamente ao pódio, dessa vez no Campeonato Mundial de Daegu, na Coreia do Sul, e ficou com a medalha de prata, vendo o ouro ser entregue à Maria Savinova, da Rússia. Em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, as duas voltaram a competir e novamente a russa levou o ouro e Semenya, a prata. Entretanto, após uma investigação realizada pela Agência Mundial Antidoping (Wada) em 2017, Savinova teve suas medalhas cassadas e assim, Semenya conquistou duas medalhas de ouro: uma no mundial e outra nos jogos olímpicos.  

Semenya garante lugar no pódio em quase todas as competições que disputa. Nos jogos Pan-Africanos de 2015 e nas Olimpíadas do Rio, em 2016, foi a mais rápida nas categorias que disputou. Em 2017, no Campeonato Mundial de Londres, conquistou mais uma medlha, desta vez, de bronze. No ano passado, conquistou mais duas medalhas de ouro nos Jogos da Commonwealth.

Em meio a tudo isso, em abril de 2018, a IAAF determinou que todas as atletas com “diferenças de desenvolvimento sexual”, mais conhecidas como DSD, seriam obrigadas a diminuírem o nível de testosterona por meio de medicamentos para, então, estarem aptas a competirem em provas internacionais de até 1500m. Segundo a federação, os níveis desse hormônio influenciam em corridas dessas distâncias e, por isso, aumentariam a explosão muscular.  

Já em fevereiro desse ano, Semenya resolveu entrar com uma apelação no Tribunal Arbitral do Esporte e no dia 1º de maio, obteve sua resposta. Apesar do Tribunal enxergar a decisão como discriminatória, também a vê como “necessária, razoável e proporcional”, a fim de garantir a integridade da modalidade feminina e por isso, a atleta está banida de provas de até 1500m. Dois dias depois dessa decisão, a sul-africana ganhou a competição inaugural nos 800m da temporada da Diamond League em Doha, no Qtar, fazendo o melhor tempo do ano e também marcou o tempo recorde da competição com 1min e 54.98seg. 

O Conselho de Direitos Humanos da ONU afirma que a decisão da IAAF é desnecessária, humilhante e prejudicial e fez um pedido para as organizações de esportes.

"Não avancem em desenvolver e estimular políticas e práticas que forcem, façam coerção ou pressionem atletas (mulheres e adolescentes) a passar por procedimentos médicos desnecessários, humilhantes prejudiciais para participar de eventos esportivos." 

Caster Semenya enxerga toda a situação como discriminação, já que ela nasceu e vive como uma mulher. A atleta, que já venceu 30 vezes seguidas na prova dos 800m e conta com oito medalhas de ouro e um bronze na carreira. Em entrevista que concedeu ao The Guardian, declarou.

“Eu quero inspirar o mundo. Eu quero mostrar a eles que nada é impossível.”


 


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