09/11/2020 às 17h45min - Atualizada em 09/11/2020 às 14h32min

Análise: um Flamengo diferente esse ano

As diferenças de esquema tático e conceito de jogo em relação ao time do ano passado

Miguel Vicente - editado por Wesley Bião
Domènec Torrent não conseguiu manter o Flamengo num mesmo padrão de jogo que Jorge Jesus - Foto: Luciano Belford/ Agência O Dia
A pergunta que todos estão fazendo nesse momento após a demissão do Domènec Torrent é: por que o Flamengo não apresentou aquele futebol vistoso e encantador? Parece uma pergunta simples, ainda que a resposta seja um tanto quanto complexa e necessita ser contextualizada.
 
No ano passado, o time comandando pelo o então técnico Jorge Jesus mostrou uma capacidade ofensiva fora dos padrões brasileiros, implementando uma forma de jogar e um futebol de alto nível a cada partida. A proposta de jogo do português tinha como base um sistema de marcação intenso no campo do adversário e a posse de bola, diferente dos técnicos brasileiros. Domènec Torrent tinha como base também a posse de bola, porém a marcação proposta por ele não era tão intensa e sim mais posicional. Com isso, os jogadores não tinham aquela intensidade na saída de bola pelo campo adversário.

O português, unindo essas duas características de intensidade e posse de bola fez um time com uma fome de gols surpreendente criando inúmeras chances de ataques. No sistema tático ofensivo de Jorge Jesus os jogadores ficavam bem à vontade para se movimentar em campo. A dupla de ataque formada por Gabigol e Bruno Henrique foi um grande marco dessa liberdade em campo, tendo como uma das principais características a aproximação. Os dois tinham um entrosamento fantástico e suas habilidades técnicas eram acima da média. Já com o espanhol os dois ficavam muito distantes um do outro, dificultando o entrosamento. Bruno Henrique no time de Doménec tinha uma importância mais defensiva, acompanhando o extremo e o lateral do time adversário prejudicando suas características ofensivas.

No ano passado, Gérson comandava o meio de campo jogando como segundo volante e sendo o responsável pelo início das jogadas ofensivas do time. Com Domènec, na ausência de Arrascaeta Everton Ribeiro, Gérson tem atuado como um meia mais ofensivo pelo meio ou pela ponta direita e com isso seu rendimento caiu bastante, não mantendo aquela regularidade vista no ano passado. Outra característica fundamental na equipe de Jorge Jesus era manter sempre o mesmo time jogando, mudando poucas vezes de um jogo para outro, embora o elenco fosse mais enxuto comparado ao time de  Domènec, que por sua vez não cansava de mudar a equipe em toda a rodada, deixando alguns jogadores insatisfeitos com esse modelo de poupá-los. Vale lembrar ainda que alguns jogadores passaram por problemas médicos.

O sistema defensivo mudou algumas peças para este ano. Rafinha e Pablo Marí deixaram o clube e para substituí-los chegaram Isla, Gustavo Henrique e Léo Pereira. Antes um sistema bem seguro com poucas chances para os adversários, agora uma defesa exposta e apresentando o grande ponto fraco desse time atual. Independente das falhas técnicas individuais de alguns jogadores é nítido um espaçamento entre a linha de zaga e o meio de campo, facilitando as jogadas dos times que enfrentam o Flamengo. Hoje o clube tem a zaga mais vazada do Campeonato Brasileiro no primeiro turno. Domènec Torrent é o principal responsável pela fraqueza do sistema defensivo. A sua incapacidade em ter um olhar mais crítico para alguns jogadores que não estavam rendendo foi um dos problemas, além de uma mudança corriqueira em todos os jogos, fazendo com que a dupla de zaga não tivesse o tempo necessário para um entrosamento adequado.

Uma coisa também é certa: o espanhol não conseguiu ter aquela sinergia com os torcedores desde a sua chegada, e com o time não foi diferente. Logo no início teve problemas com jogadores, deixando alguns medalhões no banco de reservas, o que causou um pequeno desgaste entre eles. Seu ciclo acabou e não deixou nenhum legado e nem algo positivo. Um trabalho longe da capacidade desse elenco fortíssimo que o Flamengo possui. E, ainda trazendo mais uma reflexão para este texto, podemos fazer uma pergunta sobre essa moda que virou a contratação de técnicos estrangeiros: Será que não existe nada de bom aqui no Brasil?

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