20/11/2020 às 16h03min - Atualizada em 20/11/2020 às 13h46min

Opinião: A consciência negra no esporte e a luta contínua contra o racismo

Como que em pleno 2020 ainda há quem não consiga lidar com as diferenças?

Miguel Vicente - editado por Wesley Bião
O racismo cresce cada vez mais em nosso país e deve ser combatido como nunca (Foto: Reprodução/Netlusa.com)
Hoje, dia 20 de novembro é comemorado o Dia Nacional da Consciência Negra. Embora criado em 2003 e oficialmente feriado em âmbito nacional a partir de 10 de novembro 2011, mediante a lei nº 12 519, somente alguns estados se sensibilizam com esta causa e decretam feriado em suas cidades. Essa, porém, é apenas uma deixa para refletirmos sobre o racismo cada vez mais forte em nosso país em todos os segmentos sociais, inclusive no esporte. Ele nada mais é que o complemento de uma sociedade antagonista e racista na sua essência.
 
Não é de hoje que o racismo no esporte é vivenciado. Jogadores de futebol antigamente não eram sequer admitidos em muitos clubes. Há inclusive um relato sobre um jogador negro do Fluminense, chamado Carlos Alberto que em 1914 que usava pó de arroz para jogar no clube. Poderíamos citar várias histórias contadas pelos clubes que tiveram seus primeiros jogadores negros. Muitos historiadores têm em seus estudos e pesquisas fatos e relatos com muita relevância para a nossa cultura futebolística e social.

Porém, o clube que até hoje é lembrado e marcado como o grande propulsor de um engajamento cívico foi o Vasco da Gama no início dos anos de 1920, época foi marcada por um racismo bem intenso no país. Em 1923 o time conquistou o Campeonato Carioca com um elenco de jogadores de todas as raças, não se importando com a nobreza racista que regia no futebol. Até hoje o clube é lembrado como o time que venceu toda a burguesia racista.
 
O racismo no esporte vem crescendo muito no mundo todo. Estamos ficando acostumados a toda semana a nos depararmos com algo relacionado sobre injúria racial em algum evento esportivo. Os casos que mais chamam atenção são de torcidas com cantos fortíssimos, de uma baixaria ética e moral fora do comum. Ouvimos palavras de tão baixo calão sendo ditas aos jogadores negros, que me recuso a colocar algumas delas nesse texto.

Existem inúmeros casos de atletas que também promovem esse ódio, como por exemplo, no Campeonato Francês, no jogo entre Paris Saint-Germain e Olympique de Marselha, o zagueiro Álvaro González chama o atacante Neymar de “macaco”. O brasileiro acabou revidando com um tapa e foi expulso da partida. Outro caso que ficou muito conhecido, como o do jogador Grafite em uma partida entre São Paulo e Quilmes no ano de 2005, quando foi ofendido pelo o então zagueiro Leandro Desábato. Nesse caso, a vítima também foi expulsa da partida.

Claro que a torcida não fica de fora disso. Em 2014 Arouca, que atuava pelo Santos, fez um gol e quando foi comemorar, alguns torcedores do Mogi Mirim o xingaram de “macaco” enquanto outros falavam que ele deveria jogar em uma seleção africana. O goleiro Aranha que também jogava pelo Santos em 2014 e também foi alvo. O jogador foi ofendido por torcedores gremistas com sons imitando um “macaco”. Naquela ocasião o jogador ficou muito nervoso, falou com juiz da partida e saiu de campo totalmente aborrecido com todo esse acontecimento. O Grêmio acabou sendo eliminado por causa do ocorrido.

Os jogadores Taison e Dentinho foram alvos de torcedores com insultos raciais durante a partida pelo Campeonato Ucraniano. Taison ficou muito irritado e revidou jogando a bola em direção à arquibancada e acabou sendo expulso. Os dois jogadores saíram de campo chorando. Após a partida, o atacante formado pelo Internacional postou em suas redes sociais que devemos combater essas pessoas o mais rápido possível.
 
A Democracia, juntamente com os meios de comunicação, são elementos constitutivos das diversas esferas da vida social, seja no cotidiano das pessoas ou nas preocupações daqueles que se propõe a tentar entender a complexa realidade social contemporânea. Mais do que isso, são objetos de reflexão e ação de quem pretende agir politicamente de forma consciente para a transformação ou manutenção da ordem social. Nesse caminho, infelizmente as redes sociais têm sido uma ferramenta para algumas pessoas mostrarem todo seu ódio e rancor em relação ao racismo.

No Brasil, a intolerância racial nessas redes com jogadores, técnicos, dirigentes e outros envolvidos ficam em evidência com todo esse problema cultural vivido no país. Os clubes deveriam olhar essa questão e praticar diariamente em suas contas de redes sociais um enfretamento a essa causa, mas o que acaba acontecendo é que os clubes esperam o fato ocorrer para depois se manifestar. Da mesma forma que as redes sociais servem para que alguns firam as pessoas, ela pode ser uma aliada para os clubes, federações e imprensa combaterem com sabedoria e inteligência todo essa problemática.
 
Nos últimos dias, estamos presenciando cada vez mais atletas de diversas modalidades nesse engajamento social contra o racismo. O hexacampeão Lewis Hamilton é um dos grandes nomes desse movimento. O piloto de Fórmula 1 foi o primeiro negro a correr nesta modalidade e ser campeão. No basquete temos a grande figura de LeBron James, sendo o porta voz dessa ação contra o racismo. No futebol brasileiro temos Marinho, atacante do Santos, que é uma voz forte nessa causa, ainda que algumas pessoas o enxerguem como um jogador folclórico, esquecendo da sua capacidade técnica como atleta e a sua personalidade forte para opinar e argumentar.
 
Não cabe neste texto a preocupação em definir cultura nem a evolução do seu conceito, senão abordá-la como um processo complexo de construção de sentidos. Não se abordará o racismo no âmbito de todos os fenômenos culturais que ela provoca, mas sim como uma causa de um processo cultural. O racismo é um produto da cultura do nosso país. Quando falamos de cultura, devemos antes de tudo, nos desarmar dos conceitos e pré-conceitos que ordenam nossas percepções e condutas.

Cultura no âmbito plural é que devemos nos referir e não no singular. Isso quer dizer que não podemos aceitar o conceito de cultura circunscrito à subjetividade do nosso modo particular de ver o mundo. Há mais diversidades dentro de uma cultura dada ao que imaginamos. A luta continua. Devemos sempre mostrar toda a nossa indignação a respeito desse tema: o racismo, afinal de contas Vidas Negras Importam
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