20/11/2020 às 20h30min - Atualizada em 20/11/2020 às 20h30min

Após 126 anos de sua chegada no Brasil, o futebol continua sendo um esporte racista

No século passado a luta do negro era para se consolidar como atleta, como futebolista, hoje ele luta para fazer parte das esferas de poder do futebol.

Foto: Observatório da Discriminação Racial No Futebol

O futebol chegou ao nosso país em 1894, 6 anos após o Brasil ter abolido a escravidão, trazido por Charles Miller, filho de pai ingês e mãe brasileira,  regresso da Inglaterra, país que estudava e onde teve o primeiro contato com o esporte. Registros apontam que a primeira partida ocorreu em 1985, no estado de São Paulo, um dos times que disputaram a partida era o de Charles.Logo o futebol começou a ser praticado nos mais diversos estados brasileiros.

 

 É normal ouvir por ai que nos primórdios do esporte, os negros não participavam dos clubes de futebol, história essa que há controvérsias, e é justamente isso que Breiller Pires, jornalista da ESPN e El país vem nos dizer O futebol sempre contou com a participação e com a presença dos negros”. Segundo Breiller, o fato de se contar que no inicio os negros não faziam parte dos clubes, não jogavam futebol, acaba por invibiliazilar a própria trajetória dos jogadores negros”. O que não havia na época, era a presença de jogadores negros nos chamados clubes de elites, disputando torneios considerados formais. desde os primórdios da modalidade no país, “os negros não só jogaram, como tinha seus campeonatos, no Rio de Janeiro, nos surbúbios, na periferia de São Paulo. Tem uma liga que é muito famosa pela dimensão que teve na época, que é a liga dos canelas pretas que teve em Porto Alegre, então havia essa participação” completa o jornalista.

 

Os negros sempre participaram e ajudaram a popularizar o futebol no país.
Breiller Pires

 

Há registros que corroboram com o que Breiller diz, times tradicionais como a Ponte Preta, fundada naquela época, já surgia com jogadores negros em seu elenco. Seguia o exemplo da Ponte, o Riograndense, do estado do Rio Grande do Sul, a Associação Atlética São Geraldo, fundada em São Paulo, o Campos Atlético Associação, original da cidade de Campos de Goytacazes (RJ). Os times de São Geraldo e Campos tinham em comum a característica de serem fundados por e para negros. Já em 1911, o Bangu se tornava o primeiro clube a ganhar um título com negros em seu plantel, mas o caso mais emblématico veio uma década depois. Em 1922, o Vasco da Gama foi campeão da 2º divisão do campeonato disputado no Rio, vale ressaltar que na época o time cruzmaltino não tinha a envergadura que tem na atualidade, logo no ano seguinte, faturou o título da 1º  divisão, sendo sensação da competição e surpreendo as potências futebolísticas da época, como o Flamengo, Fluminense, América e Botafogo.

 

Diante desse sucesso do Vasco e da ameaça dele se tornar hegemônico, os times da elite criam uma nova liga, chamada AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos) e proibem a ingressão do Vasco, sobre a prerrogativa que o clube que seus jogadores, no caso negros ou pobres da classe operária dedicavam somente ao esporte, o que era um profissionalismo mal visto naquele tempo e o que não passava também, de um pretexto para excluir esses os atletas do alto escalão do futebol, e sugerem ao clube que abrisse mão deles. A resposta do Vasco vem através de uma carta, dizendo que não aceitaria a proposta da AMEA, após o ocorrido o clube passou a carregar o simbolismo de ser o primeiro clube a dar espaço, pelo menos de forma formal, a negros e pobre em seu plantel.

 

Na visão de Breiller, o aspecto econômico também pesou nessa postura do time vascaíno, “o Vasco precisava desses jogadores e ele também enxergou que nos jogos ia muita gente do subúrbio, ele começou a ter uma torcida grande nessa época e achou que conseguiria se sustentar sem a AMEA, mas por outro lado ele era refém de certa forma, se ele abrisse mão dos jogadores, o clube voltaria a  ser de  3º ou 4º escalão do Rio de Janeiro.”

 

Apesar do fator econômico ter tido sua influência na posição anti racista do clube, o Jornalista faz questão de ressaltar que o Vasco teve sim muita importância e que sua resposta se tornou uma referência histórica no futebol nacional.

 

Apesar dos jogadores negros terem se destacados durante a história do futebol e de certa forma terem se consolidado nela, os incidentes racistas ainda perduram e muitas das vezes não terminam em condenação. Pensando nisso, em monitorar e registrar os casos de racismos ocorridos no Brasil, Marcelo Carvalho criou o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, onde anualmente é feito um relatório sobre casos não só de racismo, mas como de homofobia e machismo no futebol.

 

Segundo Marcelo, ele tomou a iniciativa de fundar o Observatório em 2014, logo após os casos de racismo com Márcio Chagas, Tinga e Arouca. “Era ano de Copa do Mundo e aqueles casos chamaram a atenção de todo mundo”, conta Carvalho. Desde então é liberado um relatório anual dos casos para que as pessoas acompanhe e percebam o que acontece, infelizmente o relatório de 2019 ainda não foi liberado, muito por conta da pandemia, o de 2020 já está sendo feito e já conta com inúmeros casos de  racismo, conforme Marcelo nos confidenciou.

 

Geralmente, quando ocorre algum caso de racismo no futebol, as instituições, sejam elas clubes, federações estaduais ou até mesmo a própria CBF, vêm a público manifestar apoio a vítima, na maioria das vezes por nota de repúdio, se dizendo ser contra qualquer manifestação e ato de cunho racista, na maioria das vezes, discurso para “inglês ver”.

 

Carvalho aponta que  “ainda se combate muito o incidente, o racismo individual, não se combate o racismo estrutural”.  E é fácil enxergarmos isso, se olharmos  para dentro das instituições, iremos perceber que se tem pouquissimos negros em cargo de liderança ou confiança. Na CBF (Confederação Brasileira de Futebol) o cenário não muda, a única pessoa negra em um cargo de comando é a Aline Pellegrino,  ex jogadora e que atualmente é Coordenadora de Competições Femininas da CBF. Olhando para as federações estaduais também não é possível enxergar presidentes negros e juntando os 40 clubes das duas principais divisões do Brasil, há apenas um presidente negro, Sebastião Arcanjo da Ponte Preta, um técnico de futebol, Jair Ventura que atualmente dirige o time do esporte e apenas um diretor de futebol, a falta de  representatividade negra acontece em outros cargos dee confiança das instituições também, como a de conselheiros nos clubes de futebol, mantendo assim uma massa hegemônica que se perpetua no comando e mantêm a estrutura funcionando como ela é, mantendo assim o racismo institucional e estrutural atuando de forma livre e desempedida. 

 

Podemos dizer que no século passado a luta do negro era para se consolidar como atleta, como futebolista, hoje ele luta para fazer parte das esferas de poder do futebol.

 

É comum se ver as instituições futebolísticas prestarem  solidariedade a luta anti racista em datas importantes como a do dia da consciência negra, Breiller diz acreditar que isso só fica no discurso, “No Brasil a gente tem federações e principalmente a CBF omissa na luta contra o racismo, isso sempre foi de boca pra fora”.  

 

Outra parte importante do universo do futebol que sofre com o racismo estrutural, é o jornalismo esportivo, dá para contar no dedo os narradores de futebol negros nas transmissões de TV, comentaristas de futebol nos programas esportivos também são minorias e na maioria das vezes, são ex atletas e não jornalistas formados na área de fato. Para Breiller, que atua na área e vê isso de perto, “ é ainda mais raro ver pessoas negras em cargos de comando, de edição e de chefias nas redações, as redações não só esportivas, mas no jornalismo em geral ainda são muito branca e elitizadas”.

 

E essa hegemonia branca pode ser perigosa no jornalismo, uma profissão que vem para trazer pautas e debates diversos, pode acabar reproduzindo estereótipos e preconceitos.

 

Manifestações de atleta no futebol

 

Em outros esportes, o uso do prestígio social e do alcance em que a voz de uma ídolo pode ter é bem visível, atletas como Lewis Hamilton da Fórmula 1 e Lebron James no basquete são exemplos de atletas consagrados que levantam a bandeira anti racista. No futebol ainda é um esporte muito despolitizado, sobretudo no Brasil, Carvalho aponta que “ a falta de jogadores negros que falem sobre o racismo, esta ligado a um passado de retaliações”. O pensamento de Pires corrobora com o de Carvalho, ele diz que “no Brasil, jogadores que adotaram discursos políticos contundentes tiveram a carreira prejudicada, temos como exemplo o Reinaldo (ex atleta do Atlético Mineiro).” Ele ainda destaca que apesar disso, é possível sim um atleta se manifestar, se declarar anti racista e não sofrer prejuízo.

 

A afirmação do jornalista se confirma ao vermos jogadores da nova geração, como Richarlison, Yuri, Igor Julião, Lucas Santos, terem vozes bastantes ativas por lutas sociais, causas humanitárias ou em cobranças aos órgãos do governo e instituições. É de extrema importância que cada vez mais jogadores tomem essa atitude, pela visibilidade e influência que podem alcançar. Mas ainda conforme Breiller, é necessário respeitar o espaço de que não se sentem à vontade em se manifestar publicamente, “não dá para cobrar todo mundo, cada um tem sua história, alguns jogadores não se sentem confortáveis porque não tiveram uma bagagem de educação formal para se formar sobre esses temas”.

 

O futebol de certa forma é um espelho da sociedade em que vivemos, sobretudo no nosso querido Brasil, um país ainda elitista, racista, homofóbico e misógino, que infelizmente reproduz muito preconceito ainda. E assim como na sociedade, a frase da ativista Angela Davis serve para o mundo esportivo, “não basta apenas não ser racista, tem que ser anti racista”.

 
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