26/11/2020 às 13h53min - Atualizada em 26/11/2020 às 13h51min

Insegurança alimentar é o principal problema nas comunidades mais vulneráveis, diz pesquisa.

A alta generalizada no preços dos alimentos e o desemprego, fez com que presença da fome acentuasse a tragédia dos menos favorecidos.

Larissa Gaudêncio - labdicasjornalismo.com

“A primeira coisa que eu pergunto a Deus quando me levanto é se vou conseguir colocar alimento na mesa de casa e garantir o bem-estar dos meus filhos.”, desabafa Ednalva Cilene dos Santos, moradora de comunidade vulnerável de Aracaju que ficou desempregada devido a pandemia. Infelizmente, essa realidade é também a de muitas outras famílias em vulnerabilidade social das regiões metropolitanas pelo Brasil que foram ouvidas pela Rede de Pesquisa Solidária, engajada no mapeamento das políticas públicas e as respostas da sociedade durante a pandemia de Covid-19. 

 

O levantamento, realizado entre os dias 17 e 30 de agosto forma o boletim nº 24 emitido pela iniciativa, que ouviu lideranças de comunidades vulneráveis de diferentes regiões metropolitanas do Brasil. Entre as lideranças entrevistadas, 62% trouxeram relatos sobre fome e falta constante de alimentação. Trabalho e renda seguem entre os problemas mais citados. É recorrente também a menção à alta generalizada no preço dos alimentos básicos que compõem o prato do brasileiro, o que agrava ainda mais  a crise da insegurança alimentar e desemprego, como evidenciado pelos dados do boletim.

 Segundo dados do IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), atrelado às variações de preço de mercado, ficou em 0,45% em setembro, maior resultado para o mês desde 2012. No que diz respeito à alta, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), aponta o crescimento das exportações de produtos, alta do dólar e a maior demanda interna  causada pela pandemia como principais causas para a alta no preço dos alimentos.

 

Uma velha inimiga do brasileiro

 

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Social do Governo Federal, a segurança alimentar e nutricional (SAN) é a garantia de acesso permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, respeitando a diversidade cultural e os hábitos sustentáveis. No entanto, tal situação ainda não é assegurada a muitos brasileiros. Apesar do país ter saído do mapa da fome em 2014, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE, divulgada em 2018,  revelou que 10,3 milhões de brasileiros passavam fome durante o levantamento — um aumento de 3 milhões de pessoas sem acesso normal a refeições em 5 anos. 

Como agravante, a pandemia de Covid 19 trouxe como consequência o aumento na precificação dos alimentos e desocupação, e como resultado, muitos cidadãos mais vulneráveis perderam sua fonte de sustento e subsistência para assegurar uma alimentação adequada. Como avalia o  mestre em economia Origenes Martins Júnior: “O desemprego é um fator agravante da insegurança alimentar. Ele diminui a renda que por efeito dominó causa a insegurança alimentar, até chegar à fome como o extremo.”

 

Sem renda, sem alimento

 

As lideranças ouvidas durante o levantamento da Rede de Pesquisa Solidária  relatam que o desdobramento da crise que afeta o mercado de trabalho e a incerteza quanto à manutenção de auxílios governamentais, relegam o acesso à renda a uma situação crítica, com aumento da pobreza e a vulnerabilidade social nas comunidades.  Essa realidade está inserida nos dados divulgados pela  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios realizada pelo IBGE, que apontou uma taxa de 14,4% de desocupação entre 20 e 26 de setembro de 2020. Esse número corresponde a um total de 2,7 milhões de pessoas afastadas do trabalho devido ao distanciamento social. 

Dona Ednalva está inserida nesse contingente de brasileiros que perderam o emprego durante a crise sanitária e se veem em situação de insegurança alimentar. “Perdi meu emprego no final de março, tenho 3 filhos e só recebi R$ 600,00 de auxílio emergencial, mas esse dinheiro vai quase todo pro aluguel, estamos sobrevivendo aqui com doações de cestas básicas por que o que me sobre não compra nem o básico, aumento tudo no supermercado, não recebo nenhuma outra assistência”.

Para acompanhar as oscilações de preços e gastos familiares em supermercados e as tendências das variações, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) produz o índice Abrasmercado, de modo a quantificar o gasto familiar mensal na aquisição de uma cesta de produtos de consumo. Os últimos dados, divulgados em Outubro, demonstram que entre Julho e Agosto, o Abrasmercado apresentou alta de 16,48%, passando de R$ 474,64 para R$ 552,84.

 

Contradições de um Brasil do agronegócio

 

"No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca, produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado", afirmou o presidente Jair Bolsonaro. "Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial  (…) O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos." Porém, o observado é que essa posição de destaque na produção agrícola  não garante a assistência à população brasileira em insegurança alimentar.

Para o economista Origenes Júnior,  o agronegócio é uma das principais fontes do PIB brasileiro durante a pandemia, mas isso não é fator atenuante das deformações do nosso sistema econômico. “A questão de o Brasil ser um grande fornecedor de alimentos e ter problemas de insegurança alimentar não é propriamente um problema do agronegócio brasileiro e sim da ineficiência de políticas públicas adequadas  na distribuição de renda e nas políticas de emprego”, diz o especialista.

 

O que o governo tem feito

 

Em relação a adversidades como a insegurança alimentar, faz-se necessária a instituição de medidas de assistência que deem apoio aos cidadãos em vulnerabilidade social. Quando contactada, representante da Secretaria do Estado de Inclusão e Assistência Social de Aracaju, onde reside Dona Ednalva, argumentou que a pandemia levou os órgãos públicos de assistência social a exercerem um trabalho  intensivo de localização dessas famílias, e dessa forma identificou-se que a situação era mais grave do que o que se pensava, muito mais séria.

A assistente social da SEIAS Jussara Santos argumenta que bairros periféricos são os mais atingidos com o desemprego e a posterior falta de alimento. “O que eu observo é que o  nível de escolaridade dessas pessoas é mais baixo, o que a agrava a questão do desemprego durante a pandemia, as portas foram fechadas para essas pessoas que muitas vezes faziam bico, tinham empregos informais, eram autônomos, elas ficaram impossibilitadas de exercer suas atividades para garantir o sustento e uma alimentação adequada”. 

De acordo com a representante da instituição, dentre as ações desenvolvidas durante a pandemia no combate à insegurança alimentar está o fornecimento de cestas básicas, no lugar dos lanches que eram fornecidos nas escolas, para às famílias dos alunos. Foram mencionados também auxílios paralelos ao fornecido pelo governo federal: pagamento de R$ 100,00 e um auxílio moradia de valor não especificado.

 
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