10/05/2019 às 20h16min - Atualizada em 10/05/2019 às 20h16min

Resenha: O Olho da Rua - Eliane Brum

Por Adrieli Fátima Bonini - Editado por Millena Brito
Foto: Adrieli Fátima Bonini
Sobre Eliane Brum
Eliane Brum, nascida em 1966, na cidade de Ijuí, no noroeste do Rio Grande do Sul, é uma repórter com mais de 40 prêmios de reportagem. Formada pela PUC como jornalista, ela é também escritora. O Olho da Rua se caracteriza como uma coletânea de matérias editadas e comentadas em um livro, sendo este publicado em 2008. Ganhadora do prêmio Jabuti de literatura, Eliane consegue em suas reportagens representar a beleza dos assuntos cotidianos misturando técnica com arte.
Sobre O Olho da Rua: uma repórter em busca da literatura da vida real
O Olho da Rua é um livro que compila 10 reportagens bem como os seus bastidores, o mesmo faz uma travessia contando as histórias que perpassam pelo povo brasileiro. Eliane, que se apresenta como “escutadeira” publicou no período em que escrevia para a revista Época, durante o início do século XXI. Na apresentação do livro, a autora diz que foi uma tarefa difícil escolher as matérias que achava mais relevante. A obra possui mais de 400 páginas, e se divide em reportagens na íntegra, fotos e observações da escritora sobre a sua visão e dificuldades de cobrir a pauta. "Quis fazer um livro para ser lido por qualquer pessoa que goste de histórias tão reais que parecem inventadas. E também para estudantes de jornalismo que tenham dúvidas sobre a melhor forma de exercer a profissão como sempre tive - e sigo tendo." 
Na reportagem, “Floresta das Parteiras”, Eliane viaja até o Amapá para contar a história das parteiras mais antigas do Brasil. Ela descreve o ambiente e a vida de quem mora na fronteira entre os países. As mulheres da região contam os filhos por dúzia e indagam Eliane – como ela pode ter tido tão poucos filhos. Em meio a depoimentos sobre a vida de quem traz crianças a vida, a autora trata a reportagem como um ser vivo. Diz que ela nasce dentro dela e depois ela pari o que já estava escrito, fazendo apenas algumas alterações.
Já na reportagem “Expectativa de vida: vinte anos”, a autora retrata a história de um menino que sobreviveu ao envolvimento com o tráfico. Sérgio Cláudio de Oliveira Teixeira, apareceu em horário de maior audiência na TV Globo. Ele mostrou o quanto é difícil, mas não impossível sair dessa vida: "Essa vida do crime só acaba em cadeia, cadeira de rodas ou cemitério." As histórias contadas nesta parte, são de mães que tiveram seus filhos mortos, algumas mais de um: "Quando meu filho apareceu em casa vivo, mas deu um tiro no peito, comecei a pagar o caixão. Agora pago as prestações do caixão do meu segundo filho. Ele ainda está vivo, mas sei que vai morrer." Esse é só um exemplo de vários compilados por Eliane, mostra a certeza da morte que perpassa pela mente das mães que tem filhos envolvidos com o tráfico.
Esta altruísta obra amarra as duas pontas da vida. A narrativa inicia com as parteiras da floresta amazônica que trazem à vida inúmeras crianças. E tem seu desfecho nos últimos 115 dias de uma merendeira de uma escola em São Paulo que luta contra a devastação causada por um câncer incurável. Segundo Eliane Brum, “o repórter é aquele capaz de atravessar a rua de si mesmo. Desabita-se de si para habitar o mundo que é o outro e depois precisa empreender o espinhoso caminho de volta. A escuta que se faz com todos os sentidos é para ela o principal instrumento da reportagem. Esta entrega transformadora também vale para o leitor de O olho da rua, que mergulha no absurdo infinito do real e, voltando à superfície, não é o mesmo de antes. ” Por fim, vale ressaltar o quanto é desafiante, e muitas vezes angustiante viver num país chamado Brasil. Onde a desigualdade social ecoa em cada canto dessa nação. Eliane, nos possibilita não somente as diversas facetas da vasta realidade brasileira e das pessoas, mas possibilita ao leitor jornalista significativas estratégias que cabem às reportagens jornalísticas. O real contado como literatura é um grande marco da carreira de Brum, que consegue nos transmitir com clareza e vivacidade o desafio de viver nesse Brasil.
 
 
 
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