28/11/2020 às 00h11min - Atualizada em 28/11/2020 às 00h00min

Remake de ‘Convenção das Bruxas’ causou controvérsia

A representação de pessoas com deficiências nos cinemas precisa melhorar!

Juliane Alvarenga - labdicasjornalismo.com
 
The Witches é um filme de fantasia e comédia de terror baseado no livro, com o mesmo título, de Roald Dahl.

Lançado na década de 90, o filme Convenção das Bruxas fez um grande sucesso. Conta a história de um menino que ao lado de seu melhor amigo e de sua avó, tenta impedir que um grupo de bruxas malvadas transformassem as crianças em ratos.

Esse foi sem dúvidas um dos filmes que mais assustou a criançada da época e se tornou um grande símbolo da cultura pop.


Momento nostalgia: se liga no trailer!



 
Três décadas depois o clássico ganhou uma adaptação, que chegou aqui no Brasil dia 19 de novembro.

O remake está em território seguro, as crianças que agora são adultas, podem desfrutar de um gênero que não é muito produzido. Mas se preparem porque a tecnologia promete superar os sustos.

Agora, com direção de Robert Zemeckis e Anne Hathaway no papel da Bruxa Rainha, a clássica história encontra os dias atuais.

 
Confere o trailer do remake que está em cartaz:




Remake de ‘Convenção das Bruxas’ causou controvérsia


Apesar de todo esse histórico de sucesso, a nova adaptação cinematográfica está dando o que falar. Além das diferenças mais notáveis entre o filme de Anjelica Huston e o de Anne Hathaway, agora há uma grande polêmica que se desenrolou nas redes sociais e recebeu muitas críticas, em especial dos atletas paralímpicos que criaram o movimento #NotAWitch (eu não sou bruxa). Isso porque com essa nova versão, as bruxas têm má formação nas mãos e nos pés, o que é semelhante a ectrodactilia, uma síndrome congênita que causa a ausência dos dedos, o que não existia na versão antiga. A Grande Bruxa (Anne Hathaway) e seus seguidores têm apenas três dedos.

Shannon Crossland, uma defensora das pessoas com deficiência, compartilhou em suas redes sociais: "Eles de forma alguma refletiam o romance original escrito por Roald Dahl", referindo-se ao fato de que no livro em que o filme se baseia não existe tal coisa nos dedos de bruxas.

 

“É este o tipo de mensagem que queremos que a próxima geração receba? Que ter três dedos é um atributo de bruxa? É uma representação extremamente prejudicial. A deficiência NÃO deve ser associada ao mal, anormalidade, nojo, medo ou monstros”, acrescentou a menina, que tem recebido muito apoio. Tem havido tanto eco em torno dessa controvérsia que os responsáveis tiveram que se manifestar.


A Warner Bros. emitiu um comunicado pedindo desculpas aos fãs. Na nota, o estúdio afirmou que buscou retratar as personagens do livro de maneira diferente daquela vista na versão da década de 90.
 

“Ao adaptar a história original, trabalhamos com designers e artistas para chegar a uma nova interpretação das garras felinas que são descritas no livro”, diz o comunicado. “Nunca foi intenção que os espectadores sentissem que as criaturas fantásticas e não humanas deveriam representá-los. Este filme é sobre o poder da bondade e da amizade. É nossa esperança que famílias e crianças possam desfrutar do filme e abraçar este tema empoderador e cheio de amor”.


Anne Hathaway também se desculpou publicamente, através de suas redes sociais, em especial as crianças com deficiências.  A atriz afirmou que, se tivesse consciência sobre a temática antes, não teria permitido que a personagem fosse representada assim.
 
"Eu especialmente quero pedir desculpas para as crianças com alteração de membros. Agora que eu aprendi, eu prometo que vou melhorar. E eu devo um pedido de desculpas especial àqueles que amam vocês tanto quanto eu amo meus filhos. Me desculpem por ter decepcionado a família de vocês", Declarou.


A representação de pessoas com deficiências no cinema precisa melhorar!
 
 
Este tema nos traz à tona uma importante reflexão, sobre o quanto o cinema é fantástico, mas pouco inclusivo. O quanto através de suas produções se pode influenciar valores - e desvalores - sociais.  Desvalores sociais sim, porque ainda se tem o conceito de que pessoas com deficiências não podem ter participação “normal” na sociedade. Os próprios meios de entretenimento ainda propagam este conceito uma vez que pessoas com deficiências não são colocadas como personagens expressivos em uma trama.
 
Desde o final do século 19 as pessoas com deficiências eram retratadas com sátira, em um padrão distante de aceitação social. No século 20 eram inspiradas nos antigos circos de horrores, surpreendendo a plateia com seu “jeito deformado de ser”. Ou como vilões malucos em busca de vingança. E o gênero que atualmente estamos mais acostumados, o drama, os “santos” que por mais ferrados que estejam ainda são fortes e exemplo de “motivação” para os “normais”. Normais entre aspas porque afinal, o que é ser normal?

Nos filmes raramente os personagens com deficiências têm os lados de uma vida “normal” explorados, como a sexualidade, relação mais próxima e descontraída com os amigos e outros aspectos básicos, naturais. É deprimente saber que tal série fez sucesso e conhecer o personagem com uma doença terminal e fim trágico.

Mas espera aí, mas de 20% da população, ou seja, pelo menos 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência segundo dados do IBGE, isso em nível Brasil. Mas mundialmente, poucas produções inserem personagens com necessidades especiais em papéis relevantes.

Dadas circunstâncias, não é exagero que tenha se dado tamanha repercussão, pois por mais uma vez as diferenças e deformações são ridicularizadas. 



REFERENCIAS

LIU, Bruna. 'Convenção das Bruxas: Após polêmica'. UOL, 2020. Disponível em :< https://hugogloss.uol.com.br/famosos/convencao-das-bruxas-apos-polemica-anne-hathaway-pede-desculpas-por-dor-causada-pelo-filme-a-pessoas-com-deficiencia/ > .Acesso em 27/11/2020. 

FANTÁSTICO. 'Remake de Convenção das Bruxas' provoca polêmica e protestos na Internet'. GLOBO, 2020. Disponível em :< https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/11/22/remake-de-convencao-das-bruxas-provoca-polemica-e-protestos-na-internet.ghtml > .Acesso em 27/11/2020. 
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