11/02/2021 às 17h12min - Atualizada em 11/02/2021 às 16h58min

Umberto Eco: o escritor que viveu para a literatura

Governo italiano decide destino de seu acervo pessoal, que contém mais de 50 mil livros

Por Giulia Monteiro - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Google
Umberto Eco (1932-2016) foi um escritor, professor, filósofo, semiólogo, linguista e crítico literário italiano. Nascido em Alexandria, uma comuna a noroeste da Itália, tornou-se conhecido internacionalmente e foi, nos anos 1960 e 1970, uma grande influência para os intelectuais de todo o mundo. Eco é, até hoje, uma figura muito importante para o estudo do Jornalismo, devido às suas pesquisas e ideias sobre a semiótica.

O escritor italiano sempre teve sua vocação voltada à literatura, tanto para ler quanto para escrever. Com apenas 10 anos de idade, ganhou seu primeiro concurso de redação. Ao longo de sua vida, Eco publicou mais de 30 livros de ensaio e crítica, e mais sete romances, sendo "O nome da rosa" (1980) um dos mais conhecidos, originado pela sua paixão pelos livros.

"O nome da rosa" foi seu primeiro romance publicado e se tornou um best-seller mundial. O livro se passa em um mosteiro na Itália, durante a Idade Média, que possuía uma biblioteca com um grande acervo, porém com difícil acesso, e que continha profundos segredos. A obra ganhou uma adaptação para o cinema, estreada em 1986, e recentemente, no ano passado, foi transformada em uma minissérie com oito capítulos, pelo serviço de streaming Starzplay.

A obra se trata de uma história de investigação criminal com um misterioso enigma. Eco fazia alusão a determinados atentados políticos que ocorriam no país na época, escrevendo sobre mortes indecifráveis e sombrias. A imaginação dos leitores foi ainda mais estimulada quando dois assistentes do escritor morreram inexplicavelmente.

O estilo literário de Eco se construía nessa narrativa de mistério violento, que atraía o leitor pela crueldade e, ao mesmo tempo, pela curiosidade, ironia e humor. O escritor se apoderava do poder infinito das palavras e de sua essência filosófica, com metáforas, signos e símbolos. Contudo, a linguagem de seus livros não é muito fácil de ser compreendida, o que acaba tornando-os menos acessíveis.

Eco colecionava, em sua biblioteca pessoal, cerca de 30 mil volumes. Para comportar tudo em sua casa em Milão, na Itália, ele transformou o espaço, inicialmente um hotel, em flats, com diversos corredores e múltiplas prateleiras. Em adição a esse acervo, Eco mantinha mais exemplares em um pequeno apartamento em Paris, sua casa de campo e seu escritório, totalizando mais de 50 mil volumes. O escritor dizia que gostava de se cercar com livros, mesmo sabendo que não conseguiria ler todos.

Para ele, uma biblioteca particular é uma ferramenta de pesquisa, e não deveria ser feita apenas para inflar o ego de seu dono. Acreditava que os livros já lidos eram menos valiosos do que os não lidos, e que, quanto mais você sabe, maiores são as fileiras de livros sem ler. O autor e ensaísta líbano-americano Nassim Nicholas Taleb, em sua obra "The Black Swan", denomina essa coleção de livros não lidos como “anti-biblioteca”, e afirma que Eco entende como uma coleção pessoal realmente deve ser feita.

Além de deslumbrar com a quantidade de volumes, a qualidade dos livros de seu acervo também impressiona qualquer pessoa. A coleção de livros antigos é bem rara, e inclui mais de mil volumes antecedentes ao século 20, com 36 incunábulos, que são exemplares impressos dos primeiros tempos da imprensa, antecedente ao ano de 1500.

O destino da herança de Eco foi definido cinco anos após a sua morte, pelo governo da Itália em conjunto com os herdeiros do escritor. A decisão do Tribunal de Contas do país definiu que o acervo será dividido entre dois locais: a coletânea de livros antigos e raros será encaminhada para a Biblioteca Nacional Braidense, e a coleção de volumes modernos e o arquivo de Eco serão dirigidos à Universidade de Bolonha, pelos próximos 90 anos.

Ambos são de grande prestígio para o país. A Biblioteca Nacional Braidense é uma das maiores e principais bibliotecas públicas da Itália. Localizada no estado de Milão, onde o escritor residia e veio a falecer, possui mais de 1,5 milhão de livros em sua coleção.

Já a Universidade de Bolonha foi eleita, no ano passado, como a melhor universidade pública do país. Contudo, essa foi uma escolha um tanto mais pessoal e uma homenagem à história do escritor. Eco foi professor e titular da cadeira de Semiótica, além de diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da instituição.

Sendo um amante e colecionador de livros, especialmente os raros, Umberto Eco era considerado um bibliófilo. “As bibliotecas podem tomar o lugar de Deus” e “vivemos para os livros”, disse o escritor em uma entrevista ao jornal português Expresso, em 2015.
 
Abaixo é possível ver um impressionante vídeo de Umberto Eco percorrendo os diversos corredores de sua biblioteca pessoal. A cena é do documentário "Sulla Memoria", de 2015.



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