12/02/2021 às 03h05min - Atualizada em 12/02/2021 às 02h41min

O misterioso sequestro do voo 305

O sequestro de avião que aconteceu na década de 70 e ainda permanece sem solução 50 anos depois

Sara Moreira - Editado por Andrieli Torres
Retrato falado de D.B. Cooper no arquivo do FBI / Reprodução FBI
Era quarta-feira dia 24 de novembro de 1971, véspera de ação de graças. Um homem por volta dos 40 anos vestindo terno escuro, camisa de colarinho branca, gravata e uma capa de chuva preta se aproximou do balcão de embarque da Northwest Airlines no aeroporto de Portland. Ele parecia ser apenas mais um sujeito de negócios de Oregon. Portando apenas uma maleta e um guarda-chuva, o indivíduo que se identificou como Dan Cooper, pagou em dinheiro uma passagem somente de ida com destino a Seattle.
 
Ás 14h30 o voo 305 partiu de Portland com apenas 37 dos 165 acentos ocupados. O tempo estimado da viagem era de 30 a 40 minutos. Passados cerca de 15 minutos da decolagem, Dan faz contato com a comissária de bordo, Florence Schaffner, quando ela se aproxima ele a entrega um pequeno bilhete. Sem dar muita importância pensando ser só uma cantada com um número de telefone, a moça de 23 anos apenas guardou o bilhete no bolso e seguiu para seu posto inicial próximo a porta traseira do avião.
 
Observando que a comissária não deu a devida consideração à seu bilhete, Cooper insistiu para ela olhar. Sem muita pretensão, a mulher pega o pequeno pedaço de papel e vê a seguinte mensagem em letras maiúscula “Tenho uma bomba em minha maleta. Vou usá-la se necessário. Quero que se sente a meu lado. Você está sendo sequestrada". Inicialmente Schaffner teve dúvidas da ameaça, mas sentou ao lado daquele homem e pediu para ver a bomba. Sem hesitar, Dan abre sua maleta, contendo oito cilindros vermelhos com fios presos a uma bateria.
 
Posteriormente, o homem passa todas suas imposições para Florence que ouve atentamente as instruções que levaria para o condutor daquele voo. Já na cabine central, a mensagem é passada para o comandante William Scott, que imediatamente alerta as autoridades no aeroporto de Seattle sobre o sequestro e informa as exigências de Cooper: quatro paraquedas, um caminhão em Seattle pronto para reabastecer o avião e 200 mil dólares. Todas foram aceitas pela linha aérea, que autorizou o pagamento do resgate.
 
Aquela era uma época em que os sequestros de aviões haviam se tornado rotina nos Estados Unidos. O país já chegou a registrar um sequestro por semana. Por mais que a maioria tivesse mentores violentos, esse não era o caso de Dan, segundo relatos de Schaffner, ele era um homem educado, culto e bastante calmo. A comissária Tina Mucklow também contou ao FBI que ele ainda pediu uísque e água, pagando pela bebida e insistindo para Schaffner ficar com o troco.
 
Na cabine de comando, o piloto Scott foi instruído a avisar todos os passageiros que o voo atrasaria por problemas mecânicos. Isso daria mais tempo para que o presidente da companhia aérea, Donald Nyrop juntasse toda a quantia exigida pelo sequestrador. Sendo assim, o avião ficou dando voltas, até que às 17h24 o comandante foi avisado que as exigências foram cumpridas e que poderiam pousar em Seattle. Com a aeronave em solo, Cooper pediu que as luzes fossem apagadas para dificultar a visão de seu interior.
 
Com o fim da entrega de tudo que foi pedido, Cooper autorizou o desembarque de todos os passageiros e das comissárias para que saíssem, sobrando apenas ele e os pilotos. Depois de reabastecer o avião, novas instruções foram ditas, ele queria que seguissem em direção a Cidade do México, na menor velocidade possível. Especificou ainda que o trem de pouso deveria ficar abaixado na posição usada para decolar e aterrisar o tempo todo.
 
Solicitou ainda que a escada central ficasse aberta, o que foi prontamente negado pela tripulação, já que isso poderia comprometer a segurança na decolagem. Cooper rebateu que era sim seguro e assegurou que, se não fosse permitido, ele mesmo abaixaria a escada assim que estivessem no ar. Depois de discutirem, comandante e criminoso concordaram em seguir com a escada aberta.
 
Os pilotos ergueram voo novamente às 19h40 e seguiam com a menor velocidade possível com destino a Reno, Nevada. O piloto William informou que com as configurações pedidas por Cooper seria necessário um novo reabastecimento, Reno então foi escolhida como novo destino. Ao mesmo tempo, dois caças militares decolaram de uma base aérea próxima, para acompanhar o voo de longe.
Pouco depois que o avião havia decolado, Dan acionou a escada traseira da aeronave e pulou do avião, sobre as montanhas do Estado de Washington. A tripulação notou uma rápida mudança no fluxo de ar, indicando que alguma porta havia sido aberta. Foi aí que compreenderam que o plano do sequestrador desde o início era pular do avião. A velocidade e a configuração do avião permitiam um salto seguro. A altitude era perfeita para uma queda rápida em meio ao dia que escurecia. Cooper saltou com seus 200 mil dólares na mochila em que as notas foram entregues.
 
Já em Reno, onde o FBI estava à espera para prender o criminoso, não havia ninguém além da tripulação no avião. Lá dentro, encontraram apenas dois paraquedas, uma gravata preta e um alfinete de gravata. Cerca de 66 impressões digitais desconhecidas foram colhidas, mas não serviram de nada. No dia 24 de novembro, Dan Cooper pulou de um avião a três mil metros de altura, em uma área arborizada, com o dinheiro e com um dos paraquedas. Desde então, desapareceu.
 
Uma das poucas evidências ligadas oficialmente ao caso surgiu em 1980, nove anos após o sequestro, um menino encontrou pacotes com 5.800 dólares em notas de 20, ao longo do Rio Columbia. Todas as cédulas tinham o mesmo número de série das notas que foram sacadas para pagar Dan Cooper no dia do sequestro. Só que mais nada foi encontrado depois.
 

Ainda que o nome usado para comprar as passagens tenha sido Dan Cooper, a mídia passou a chamar o criminoso de D. B. Cooper. A alteração fez com que o FBI procurasse homens com esse nome nos Estados Unidos, mas nenhum deles tinha qualquer relação com o caso.

Ao longo dos anos, o FBI investigou mais de mil nomes que poderiam ser Dan Cooper, e o que chegou mais perto de ser acusado como o criminoso era Sheridan Peterson. Em 2004, o FBI colheu um depoimento de Peterson, na época estava com 77 anos. Sheridan era um ex-marinheiro entusiasta do paraquedismo, que tinha servido na Segunda Guerra Mundial e trabalhado como técnico da Boeing Company. Testemunhas disseram que o suspeito do sequestro tinha entre 35 e 45 anos. Peterson tinha 44 anos na época do crime.
 
Mesmo colhendo amostras do DNA, os investigadores do FBI nunca conseguiram comprovar que Sheridan era o sequestrador do voo 305. “Na verdade, o FBI tinha boas razões para suspeitar de mim”, escreveu Peterson em uma revista publicada pela Associação Nacional de Paraquedismo em 2007. Oficialmente a agência acredita que D.B. Cooper, fosse quem fosse, provavelmente morreu na noite do assalto.
 
Em 2016, o FBI encerrou todas as investigações. E com a morte de Sheridan Peterson em 8 de janeiro desse ano, as chances de um desfecho para o caso se tornam improváveis. O caso inspirou ainda a introdução de um novo dispositivo de segurança nos Boeings 727, a Cooper vane, uma presilha externa que impede que a escada ventral traseira possa ser baixada durante um voo. Assim, Dan Cooper se tornou o único sequestrador não identificado na história da aviação americana.

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