12/02/2021 às 10h49min - Atualizada em 12/02/2021 às 10h21min

A formidável Hilda Hilst

"Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento"

Isabelle Gesualdo - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Hilda Hilst/Reprodução: Google

Grandes nomes da literatura brasileira são reconhecidos mundialmente. Muitos deles já partiram para outras dimensões, mas ficaram imortalizados na Terra por meio dos seus versos; através de pensamentos e sentimentos soltos que viraram palavras no papel e conquistaram milhões de leitores. 

 

Em 1930 nasceu, no interior de São Paulo, a mulher que rompeu os padrões preexistentes na sociedade brasileira, dedicou-se à literatura, escreveu de maneira excêntrica e cativante - para quem a compreendia: a formidável Hilda Hilst.

 

Hilda não tinha pudores, era ousada, irônica, bem humorada. O sonho de sua mãe era que ela se tornasse bailarina; tal sonho não foi realizado. A paixão de HH era a escrita, e sua motivação para escrever foi o seu pai, que, muito cedo, foi diagnosticado com esquizofrenia paranóide. 
 

Os escritos de Hilda sempre carregavam uma essência poética. Seus textos são puramente atemporais, mesclam o real e o fictício; corroborando, assim, para uma estilo singular. A sua linguagem era desafiadora. 

 

Escreveu sobre temas que permeiam a vida humana: o desejo, a ausência, a solidão, a dúvida. Era múltipla. HH deveras inovou em sua maneira de escrever, não seguia os padrões. Apesar de sua obra ter sido grandiosa, não obteve o reconhecimento que merecia. Era criticada pelas suas escolhas excêntricas e considerada uma escritora de difícil compreensão.

 

Em 1966, Hilda deixa a vida boémia e muda-se para Campinas, para um lugar carinhosamente nomeado por Casa do Sol. Era um lugar pacato, onde ela morou até os últimos anos de sua vida e dedicou-se à literatura.  

 

A Casa do Sol é um ambiente inspirador, poético e nostálgico. Lá, HH deixou um rico acervo e recebeu visitas dos amantes de suas obras. Por ser um ambiente mágico e inspirador, o Instituto Hilda Hilst oferece estadia para artistas que têm de passar um tempo excluso em busca de inspiração.

 

Há uma figueira na Casa do Sol que Hilda acreditava ser mágica. Bastava tocá-la e fazer pedidos, e eles tornavam-se realidade.
 

Enigmática e mística, Hilda tinha crenças atípicas e gostos peculiares: acreditava em discos voadores, extraterrestres, maldições e em reencarnação. Afirmava que quando morresse iria fazer uma viagem a Marduk, um planeta habitado por alienígenas e célebres nomes da ciência, como Albert Einstein. Hilda comunicava-se com os mortos através de um rádio e, com isso, pretendia provar a imortalidade da alma.

 

Cansada de ter os seus escritos desvalorizados, Hilda inicia, em 1990, a trilogia pornográfica: "O caderno rosa de Lori Lamby", "Contos d’escárnio: textos grotescos" e "Cartas de um sedutor", obras que lhe causaram críticas severas. 

 

“O caderno rosa de Lori Lamby” foi o primeiro livro lançado. Na trama, uma garota de oito anos escreve relatos sexuais sem pejo. O livro foi alvo de inúmeras críticas e, ao ler as primeiras páginas, o leitor fica estupefato com tais relatos. No entanto, no final da história descobre-se que Lori apenas reproduzia as histórias do pai, que era escritor.  Os pormenores sutilmente escritos revelam também que, no livro, Hilda faz uma crítica à sociedade e ao mercado literário.
 

Desde a adolescência, Hilda demonstrou-se empoderada; sempre posicionando-se sobre todos os assuntos, o que era invulgar na sociedade machista da época. Em uma entrevista à TV Cultura, Hilda Hilst, questionada se era permitido a uma mulher escrever pornografia no Brasil, responde: "Não! Não é permitido. Tanto é que estão dizendo que eu estou louca, completamente." 

 

Apesar da escritora sofrer críticas em relação a sua trilogia erótica, ela não parou de escrever. Nas páginas dos jornais, as manchetes sobre Hilda nomeavam-a como "a santa que levantou a saia", "a vovó da sacanagem", "a obscena senhora Hilst" entre tantos outros. Contudo, a autora não baixava a cabeça diante dos comentários de rejeição.
 

''O que é obsceno?

Ninguém sabe até hoje o que é obsceno

Obsceno para mim é a miséria, 

a fome, a crueldade.

A nossa época é obscena.

A vida foi uma aventura obscena de tão lúcida."
 

Trecho do livro "A obscena senhora D", publicado em 1982.
 

A autora não obteve o reconhecimento digno de suas obras em vida; hoje, contudo, as obras hilstianas encontram-se em todas as prateleiras das livrarias físicas e virtuais, e atrai leitores de todas as faixas etárias. 

 

Hilda decide parar de escrever após ganhar dois prêmios Jabuti. Encerra as escritas não por inlucidez, e sim por completude. Afirmava que já tinha escrito tudo o que tinha de escrever. Encerra suas obras com grande prestígio. Uma artista que cumpriu o seu propósito e transcendeu os paradigmas.


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