12/02/2021 às 18h50min - Atualizada em 25/02/2021 às 10h58min

A volta dos EUA ao Conselho de Direitos Humanos e sua nova política externa

Ainda sem direito a voto, Estados Unidos retorna ao Conselho de Direitos Humanos da ONU

Dara Russo - Editado por Camilla Soares
Matt Slocum/dpa/AP/picture alliance

Após quatro anos de administração Trump e uma política externa definida pelo isolacionismo, os Estados Unidos, primeiro país a deixar voluntariamente o conselho do órgão de Direitos Humanos (CDH) mais importante do mundo, anuncia seu retorno. A volta ao CDH será no status de membro observador, ou seja, não haverá direito a voto. Mas é certo que o país será candidato a uma vaga de membro permanente na próxima eleição do Conselho. Enquanto isso, a nação participará ativamente das negociações e discussões da agenda. 
 

A eleição do democrata Joe Biden em dezembro do ano passado, prometeu mudanças radicais na diplomacia norte-americana. Em um discurso durante sua visita ao Departamento de Estado no último dia 5, Biden afirmou que “A América - no caso, os Estados Unidos - está de volta. A democracia está de volta”. 
 

Na ocasião, o presidente também fez questão de citar seus principais parceiros, seus “amigos mais próximos”: Canadá, México, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Coreia do Sul e Austrália. Essa declaração de reaproximação encerrou de vez o mantra do governo antecessor: “America First” (“A América em Primeiro Lugar”). 
 

Através da cooperação internacional, os Estados Unidos buscam reassumir o papel de líder global,  uma vez que a nação se encontra fragilizada. A analista internacional Karinne Ferreira afirma: “Biden busca, primeiramente, com suas atitudes rápidas e, me atrevo a dizer, sem precedentes, se recuperar dos impactos da política externa de Trump, bem como se desvincular das atitudes e discursos de seu antecessor”. Além de voltar ao CDH, Biden irá parar a construção do muro na fronteira com o México, retomará o Acordo de Paris e não sairá da OMS (Organização Mundial da Saúde).
 

Estado polarizado
 

Os acontecimentos que sucederam a vitória de Biden, como a acusação de fraude eleitoral e a invasão ao Capitólio em janeiro ilustraram de forma clara o cenário polarizado em que o país se encontra. Nos EUA existem outros partidos minoritários, mas a polarização é mais evidente entre os dois grandes partidos: o Democrata e o Republicano. 
 

“Não é estranho imaginar um Estado polarizado. Cada um enfrenta uma certa polarização em maior ou menor grau de acordo com suas variáveis econômicas, políticas, sociais ou ideológicas”, comenta Karinne. A contradição entre as políticas externas de Trump e Biden remetem à políticas de governos anteriores. 
 

Em 2006, quando a Comissão de Direitos Humanos foi substituída pelo Conselho de Direitos Humanos, o então presidente George W. Bush (Partido Republicano) foi contra, ao passo que o seu sucessor Barack Obama (Partido Democrata) optou por seguir um caminho diferente. Da mesma forma, Donald Trump (Partido Republicano) decidiu pela saída do Conselho em 2018 e Joe Biden (Partido Democrata) busca o retorno à organização. 


O governo Trump justificou a saída alegando que países que praticavam sérias violações aos Direitos Humanos possuíam assentos no Conselho e estavam sendo “protegidos”. Ele afirmou que o Conselho necessitava de reformas e que havia um “alvo” em Israel, uma vez que a quantidade de resoluções condenando o país, foi extremamente desproporcional.
 

Após o anúncio do retorno dos EUA ao CDH, foi enviada ao presidente Biden uma carta assinada por quarenta congressistas republicanos que pedem para que a decisão seja repensada e os EUA fiquem fora do Conselho. Frente às divergências políticas e ideológicas coexistentes no país, Karinne enfatiza que para amenizar a tensão, a  administração de Biden deve ser mais rígida em relação aos países que violarem os Direitos Humanos, e buscar por reformas no Conselho. “Acredito que a tensão pode diminuir, ao mesmo tempo em que ele conseguirá refazer suas alianças multilaterais'', explica.
 

A relação com o Brasil

Com as mudanças diplomáticas e a promessa de pautas radicalmente diferentes das do governo Trump, evidenciam-se também as diferenças ideológicas entre o novo presidente americano e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. “O que pode acontecer são restrições de caráter comercial, por exemplo, o que impactaria na balança comercial econômica brasileira”, explica Karinne. 
 

Até o momento, o diálogo entre as duas administrações é favorável. Na manhã do dia 11/02, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo falou por telefone com Antony Blinken (Secretário de Estado dos EUA) e ambas as partes se mostraram dispostas a achar pontos em comum em suas agendas a fim de manter o relacionamento e parceria.

“Apesar de todas as diferenças e atritos que ocorreram, a parceria entre Brasil e Estados Unidos é sólida e frutífera”, afirma Karinne. “Assim sendo, neste primeiro momento, acredito e torço que, para o bem das Nações, as políticas sejam de aproximação, não de distanciamento”, conclui. 


 

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