17/02/2021 às 17h45min - Atualizada em 17/02/2021 às 17h23min

Finalmente, todas as obras da poetisa Emily Dickson estão disponíveis para o público brasileiro

Graças ao professor Adalberto Müller conheceremos mais sobre esta mente brilhante e singular

Hellen Almeida - Editado por Roanna Nunes
Foto:Poetista Emily Dickinson/Reprodução: Emily Dickinson Museum.

No dia 10 de dezembro de 1830 na simplória cidade de Amhert, em meio ao inverno que cobria tudo o que lá havia com seu manto branco de neve, a família Dickinson era presenteada com sua mais nova integrante: Emily Elizabeth Dickinson. Jovem de personalidade considerada peculiar para a época, sempre reservada, com pensamentos e opiniões fortes, à frente do seu tempo e por isso muitas vezes reprimida... Emily tinha um talento inquestionável para a escrita, abordando como principais temas o feminismo, a morte, a imortalidade e o amor (este por certas vezes homoafetivo). Publicou aproximadamente dez de seus trabalhos em vida, estas publicações por sua vez, repletas de opressão e questionamento de sua capacidade por se tratar de uma mulher. Contudo, foi após sua triste morte, vítima de nefrite em 1886, que sua irmã Lavinia encontrou cerca de 1800 poemas nos pertences de sua falecida irmã, estes que até hoje inspiram o mundo.

Até pouco tempo o público brasileiro usufruía pouco de sua obra, pois uma quantidade mínima fora traduzida (se especula que no máximo, 500 obras). Porém, recentemente todas suas obras foram traduzidas por Adalberto Müller, professor de teoria da literatura na Universidade Federal Fluminense. Este trabalho foi dividido entre dois volumes, mas apenas um foi lançado, sendo: Poesia Completa, Vol. 1, edição dividida entre as editoras da Unicamp e a da UnB, com 888 páginas. Por enquanto, o próximo volume ainda não possui data de lançamento.

Portanto, qual o objetivo em ler os trabalhos de Emily Dickinson? Desde a sua época até a atualidade, Dickinson é um exemplo admirável quando se trata da luta pela igualdade social e resistência ao sistema opressor de sua época. Começou a escrever com 20 anos, e aos 35 já continha cerca de 1.100 poemas, dez deles que ela chegou a publicar, em grande parte anonimamente em 1862. A quantidade é pequena, entretanto, pôde ser explicado pela própria autora que chegou a deduzir que publicar algo em uma sociedade machista a fazia ser reduzida a ninguém, conforme escreveu: “Eu sou Ninguém. E você? É Ninguém também? [..] Segredo — Ou mandam-nos p’ro degredo. Que enfadonho ser alguém! Tão público!”. Em outro poema afirmou também que publicar em tais condições é o “Leilão Da nossa Mente — Pobreza — uma razão de algo tão deprimente” (Tradução de  Aíla de Oliveira Gomes e Augusto de Campos, respectivamente).

Outra temática marcante em suas obras é a morte, inspirada pelo falecimento de familiares e amigos, como podemos ver no seguinte poema:

“Cemitério

Este pó foram damas, cavalheiros,

Rapazes e meninas;

Foi riso, foi espírito e suspiro,

Vestidos, tranças finas.

Este lugar foram jardins que abelhas

E flores alegraram.

Findo o verão, findava o seu destino...

E como estes, passaram”

 

Por se tratar de uma mulher que não supria o que se esperava de uma figura feminina de sua época, nunca tendo se casado e se encontrando em isolamento social na casa de seus pais, onde cuidava dos mesmos e pouco saía por preferir a companhia da sua escrita, é compreensível quando a mesma diz: “Nem para o amor eu tive tempo, já que muito de mim tinha que dar, o vão labor que o amor pedia achei duro demais para aguentar" (Tradução de José Lira).

Desta forma, é possível compreender a definição do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre a própria Dickinson: “mulher ultra-sensível e fechada em si mesma como uma rosa que desabrochasse para dentro, cuja floração se revelasse por deslumbrante transparência”.

Afirmo que pessoalmente, fiquei entusiasmada com a notícia de que a partir de agora nosso povo brasileiro poderá conhecer as obras da enigmática Emily Dickinson, dona de uma mente e imaginação singulares e originais em todos os aspectos, a frente do seu tempo e hoje admirada mundialmente, ouso dizer que seu desejo foi atendido quando escreveu:

“Não viverei em vão, se puder

Salvar de partir-se um coração,

Se eu puder aliviar uma vida

Sofrida, ou abrandar uma dor,

Ou ajudar exangue passarinho

A subir de novo ao ninho"

Não viverei em vão (Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)


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