19/02/2021 às 03h11min - Atualizada em 19/02/2021 às 03h06min

Sorria, você está sendo filmada!

Fomos vigiadas. Enquanto nos despíamos, despiam a nossa privacidade

Sheyla Ferraz - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Exame
Como olhar atrás da fresta da porta, fomos vigiadas enquanto nos despíamos e despiam a nossa privacidade. Enquanto despiam o nosso espaço e a parte de nós que nunca queríamos que fosse exposta.

Somos mulheres, jovens, adultas e adolescentes, moradoras da periferia de São Paulo, e a nossa história foi acolhida pelo grupo de ativistas feministas Mulheres na Luta, do bairro Grajaú, e pelo projeto Sementeiro de Direitos, da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura de Parelheiros, bairros da Zona Sul da cidade.

Fomos vistas como objeto em uma vitrine, mas não queríamos ser vistas, queríamos apenas o respeito. Queríamos a nossa identidade preservada e ainda queremos, é um direito nosso.

O que está em questão neste debate é a responsabilização do uso da internet nas mãos de homens e rapazes que usam do meio virtual para causar danos morais da imagem da adolescente ou da mulher, agregando a isso o comprometimento da saúde mental delas.

O espaço virtual parece terra sem lei, o sexismo e o machismo comungam desse mesmo ambiente e nós, mulheres, neste caso, somos o alvo principal, a parte mais lesada. O uso seguro da internet ainda é um tema bastante discutido, nós precisamos nos sentir protegidas nas redes, no meio virtual. Mas como? Somos alvo de olhares que desprezam a nossa honra.
 
Alguns agentes do sistema de justiça da periferia de São Paulo que foram indagados a respeito da divulgação de imagens sem o consentimento das mulheres pensam que os jovens da periferia vivem em um planeta sem celular e internet, esquecendo-se que o tempo das cavernas já passou para o país inteiro.  A resposta desses agentes foi carregada de preconceito e alienação.

O grupo Sementeiras de Direito abre a roda para o compartilhamento, para que sejamos ouvidas e tenhamos um espaço para chorar as pitangas ao nos identificarmos com quem sofreu o mesmo. É o que temos frente ao problema e tem servido de arrimo, conscientização e engajamento comunitário.

Tudo o que é bonito nem sempre é para se mostrar. Sem o nosso consentimento, esperamos sorrir sem o medo de estarmos sendo filmadas.
 

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