19/02/2021 às 10h22min - Atualizada em 19/02/2021 às 10h04min

O trabalho árduo sem salário e horas extras das donas de casa durante a pandemia

Viola Davis, escritora norte-americana reflete sobre o papel das donas de casa sob uma perspectiva trabalhadora

Thauane Lima - Editado por Roanna Nunes
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Dona Maria acorda com o canto do galo. Ela vai até a cozinha e coloca a água no bule para fazer o café. Enquanto isso, ela toma um banho para iniciar as tarefas do dia. Ao sair do banho vai ao seu quarto e veste a sua roupa. Ao passar no quarto de seus filhos avisa para cada um que é hora de levantar para tomar banho e ir à escola. Dona Maria é mãe de duas meninas e um menino. Chegando na cozinha para coar o café, o cheiro perfuma a casa logo cedinho, de imediato, abrindo-lhe o apetite de todos. Seu marido acorda logo depois, um pouco atrasado, veste o uniforme e vai até a cozinha, sorri orgulhosamente de sua esposa. A mesa já está posta com pães, bolos, biscoitos e leite. As crianças comem feliz e rapidinho para não perder a hora e a carona do pai que passa no caminho da escola para ir ao trabalho. 

Todos saem de casa para cumprir as suas obrigações. A casa fica em silêncio. Ela olha em volta e vê o quanto tem que fazer para manter a casa em ordem. Vai tirando e sacudindo os tapetes. Chega na cozinha, retira a mesa e já lava a louça. Maria gosta de cozinhar com a pia limpa. É um hábito que herdou da mãe logo cedo. A cozinha fica limpa. Ela vai arrumar a sala, os quartos e o banheiro. Ela recolhe a roupa suja do quarto e coloca na máquina de lavar com sabão em pó para aproveitar o sol. O cheiro de limpeza exala sobre a casa.


Sem demora começa a adiantar o almoço, pois as crianças estarão com a "fome de leão". A máquina de lavar terminao serviço com as roupas e em seguida dona Maria já estende tudo no varal.  As crianças chegam, tomam banho, almoçam e depois vão estudar. Na casa de dona Maria tem regras e uma delas é o estudo de revisão das tarefas escolares. Ela costuma ensinar seus filhos a serem zelosos para terem habilidade em exercer o ofício de gerenciar uma casa. Usando aquela velha história de que um dia ela poderá fazer falta e uma de sua muitas metas é deixá-los preparados para o futuro. 


Dona Maria representa milhares de donas de casa brasileiras que tiveram o trabalho doméstico redobrado e sem trégua na pandemia do novo coronavírus. Houve um aumento expressivo de lavar as roupas ao sair de casa, a casa deve ficar arejada, o pano de chão tem que ser passado com água sanitária e por aí vai... A escritora norte-americana Viola Davis destaca um capítulo dedicado às donas de casa em seu livro “Mulheres, Raça e Classe". A autora faz uma análise sobre a situação das donas de casa.  As tarefas domésticas consomem em média três a quatro mil horas de um ano para a dona de casa. Há um trecho de seu livro que ressalta: "Ninguém reconhece o esforço do trabalho doméstico, pois ele se dá como invisível, exceto quando não é feito”. 

 

Muito maridos ajudam nas tarefas de casa adeptos da visão machista e equivocada de que estão ‘ajudando’ como se a casa e a bagunça fosse só responsabilidade da mulher. “Alguns homens começaram a colaborar com as mulheres nas tarefas domésticas. Mas quantos realmente se libertaram do pensamento de que essas tarefas são “trabalhos de mulheres” e eles estão somente “ajudando”? questiona Davis. A mesma alerta que, desvincular o trabalho doméstico do sexo não altera o sistema de opressão que ele causa.
 

“As tarefas domésticas ditas como femininas podem estar chegando ao ponto da obsolescência histórica. Contudo, as atitudes sociais ainda vão se manter associadas às figuras femininas dos instrumentos de tarefas domésticas, como vassouras, baldes, e esfregões”, destaca a autora em seu livro ao abordar que a desigualdade das tarefas surgem devido a desigualdade sexual. Também afirma que: “A desigualdade sexual como conhecemos hoje, surge após a noção de propriedade privada. A dona de casa, de acordo com a ideologia burguesa, é simplesmente serva de seu marido para a vida toda.”
 

Davis revela a origem da noção burguesa da dona de casa que durante o período colonial no EUA o trabalho começava cedo com o nascer do sol e terminava a luz da fogueira. Possuíam várias atuações neste ritmo produtivo de tarefas domésticas, e complementada por seus papéis visíveis na atividade econômica fora de casa. Com o avanço da industrialização houve um desgaste sistêmico nos trabalhos domésticos de produção. A consolidação do capitalismo industrial mostrou que “para além da separação física entre casa e fábrica, uma fundamental separação estrutural entre a economia familiar doméstica e a economia voltada ao lucro do capitalismo. Como as tarefas domésticas não geram lucro, o trabalho doméstico foi naturalmente definido como uma forma inferior de trabalho, em comparação com a atividade assalariada capitalista” (p. 218).
 

Com base no surgimento da noção de dona de casa e as mulheres como guardiãs desses trabalhos já esvaziados pelas indústrias capitalistas, Davis faz uma análise entre o trabalho de domésticas brancas e negras nas fábricas e como ocorriam desigualdades pela cor da pele: “As Imigrantes brancas trabalhadoras assalariadas, que trabalham na operação das máquinas com salários baixos, e em segundo plano donas de casa. E as mulheres negras que trabalhavam fora de casa como produtoras forçadas da economia escravagista do Sul, trabalhavam sob a coerção da escravidão”.  
 

As mulheres por ocuparem o seus espaços na sociedade eram  mal vistas por não se dedicarem a cuidar da casa, dos filhos e do marido. 
“A propaganda popular e a representação do 'ser mulher', logo, essas mulheres assalariadas não são mais trabalhadoras fora do seu espaço 'natural'. Agora, invisíveis nos espaços públicos”. Essas propagandas criadas para estipular o imaginário de onde era o lugar natural da mulher, no trabalho doméstico, tinha em seu imaginário também, apenas a representação das mulheres brancas. Por isso, essa desvalorização das mulheres nos ambientes públicos de trabalho cabem ao que estava vivendo as imigrantes brancas, uma vez que as mulheres negras estavam sendo escravizadas e nem ao menos vistas como mulheres ou pessoas. “A vida das mulheres nas fábricas: longas jornadas, condições de trabalho precárias e salários repulsivamente inadequados”, afirma Davis.


De acordo com a autora, há uma separação estrutural entre a economia pública do capitalismo e a economia privada do lar. “O trabalho doméstico e o estigma de um conjunto de tarefas primitivas que não alcançaram um desenvolvimento. É como se o lar não se desenvolvesse tal como uma indústria. Com isso, surge uma marcação social e de gênero sobre quem não progrediu: As tarefas domésticas desvirtuam a humanidade das mulheres”.

Neste livro, há relatos de experiências históricas das mulheres negras dos Estados Unidos. No período escravista as mulheres negras trabalhavam nas lavouras de algodão e tabaco.  E nas indústrias: fábricas de tabaco, refinarias de açúcare até mesmo em serrarias, em meio a equipes que forjavam o aço para as ferrovias. Sempre trabalhavam fora de casa, no trabalho elas eram equivalente aos homens negros. “Porque elas sofriam uma dura igualdade sexual no trabalho, gozavam de maior igualdade sexual em casa, na senzala, do que suas irmãs brancas que eram donas de casa”, relata a autora. (p.220)

Esta mulheres nunca tiveram como foco central em suas vidas as tarefas domésticas. Diferente das mulheres brancas, as mulheres negras dificilmente poderiam lutar por fraqueza, elas tiveram de se tornar fortes e carregaram o fardo duplo do trabalho assalariado e das tarefas domésticas.

O movimento contemporâneo
de mulheres tem representado as tarefas domésticas como elementos essenciais da opressão feminina. De acordo com a obra: O Movimento pela remuneração das Tarefas Domésticas define as donas de casa como criadoras da força de trabalho vendida pelos membros de sua família como mercadoria no mercado capitalista. Como o racismo, o sexismo é uma das grandes justificativas para as elevadas taxas de desemprego entre mulheres. Muitas delas são “apenas donas de casa” porque, na verdade, são trabalhadoras desempregadas. “A abolição das tarefas domésticas enquanto responsabilidade privada e individual é claramente um objetivo estratégico da libertação feminina. Mas a socialização das tarefas domésticas, incluindo o preparo das refeições e o cuidado das crianças, pressupõe colocar um fim ao domínio do desejo de lucro sobre a economia”. 

 

E você gosta das tarefas domésticas?

 

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