25/02/2021 às 02h06min - Atualizada em 25/02/2021 às 07h00min

Mário de Andrade: 76 anos da morte de um perfil multifacetado

“Sou um sujeito que vale mais que a própria obra”, era assim que um dos principais fundadores do modernismo no Brasil se descrevia

Bianca Nascimento - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Pintura de Tarsila do Amaral (1922) | Reprodução: Romulo Fialdini
O ano de 1893 foi marcado por uma grande novidade no estado de São Paulo: o período em que o primeiro automóvel circulou pelas ruas do bairro Campos Elíseos. Sendo ainda um lugar provinciano, o evento gerou curiosidade aos moradores, que corriam ao encontro da carruagem para observar de perto as características nunca vistas. O estranho veículo, Peugeot com motor Daimler movido a vapor, com caldeira, fornalha e chaminé, fez com que a data ficasse marcada na história da cidade.

Entretanto, o momento marcante perdeu exclusividade para uma data que remeteria grande importância para São Paulo: o dia 9 de outubro, nascimento de Mário Raul de Morais Andrade, homem de família humilde, de temperamento e ímpeto conservador, que, mais tarde, traria revolução para a cultura brasileira.

Não há muitos relatos sobre a infância de Mário, mas imagino que foram anos de muitas narrativas. Menino questionador, que perguntava e esperava a resposta para os porquês, tentando entender um pouco mais sobre a vida e o contexto da população em que vivia. Curioso, o seu olhar percorria os detalhes da cidade que estava a se tornar uma grande metrópole, desejando, como um sonho de criança, que fosse cheia de cores e experiências para viver, onde a poesia caminha pelas ruas, as músicas iluminam as calçadas e a arte vibra no coração dos cidadãos.

Mário de Andrade, como é conhecido, desde muito novo teve uma grande aproximação com a arte e a literatura, fato esse comprovado aos seus 10 anos de idade, quando escreveu o seu primeiro poema, uma poesia cantada, demonstrando o seu gosto não somente pela escrita, mas pela união perfeita da palavra em contato com a melodia.
 
Sendo uma pessoa de perfil multifacetado, o escritor, folclorista, musicólogo, ativista cultural brasileiro e crítico literário se desenvolveu em diversos segmentos artísticos, influenciado pelas vanguardas europeias.

Grande escritor é aquele que ensina e que, através dos seus textos, sempre tem história para contar e cativar o outro, mas para Mário o ensino também fez parte direta da sua vida. Após estudar piano e canto no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, tornou-se professor de música, função que tinha prazer, pelo fato de transmitir o que um dia se esforçou para aprender.

Ainda na juventude, com apenas 24 anos, publica o seu primeiro livro, "Há uma gota de sangue em cada poema", obra que foi criada com o pseudônimo de Mário Sobral, após a morte de seu pai, o antigo tipógrafo Carlos Augusto de Andrade.

O ápice

Um grande marco em sua vida se deu em 1922, na Semana de Arte Moderna, evento esse que teve a honra de ter como um dos idealizadores o próprio Mário, com o objetivo de trazer cultura brasileira para as obras que, antes, tinham influência europeia.

Devido as críticas e as polêmicas desse período, Mário perde muitos alunos das classes de piano e, aos poucos, quando a situação é normalizada e a nova expressão artística se populariza, os alunos regressam às aulas. Como fonte de renda, as classes particulares de piano eram realizadas em sua própria casa, localizada na região da Barra Funda, em São Paulo.

No mesmo ano, publicou a sua obra "Paulicéia Desvairada", que rompeu o estilo tradicional de escrita e traçou alicerces da estética modernista. No contexto social, a obra surgiu em um novo cenário, este em que a cidade estava em momento de transição do rural para o urbano, e de expansão demográfica pela chegada dos imigrantes de diversas regiões.


Colecionador de vestígios, memórias, processos e de detalhes pouco apreciados por outras pessoas, em 1927, Mário decide viajar para o norte do Brasil, em busca de presenciar experiências distintas, sentir na pele a realidade dos povos indígenas, conhecendo a cultura e os aspectos da população, servindo, posteriormente, como inspiração para a criação de "Macunaíma: o herói sem nenhum caráter",  uma das principais obras do autor, que retrata a realidade do povo brasileiro por meio da trama do personagem desprovido de qualquer valor moral.

A sua ambição em revolucionar a cultura brasileira o colocou como diretor do Departamento Municipal de Cultura, cargo que lhe concedeu liberdade para atuar diretamente na mudança sociocultural da cidade. Um dos grandes projetos foi a implantação de parques infantis, iniciativa inovadora de atendimento às crianças e que representou uma nova concepção de infância.
 

"A criança é essencialmente um ser sensível à procura de expressão. Não possui ainda a inteligência abstraideira completamente formada. A inteligência dela não prevalece e muito menos não alumbra a totalidade da vida sensível. Por isso ela é muito mais expressivamente total que o adulto. Diante duma dor: chora – o que é muito mais expressivo do que abstrair: “estou sofrendo”. A criança utiliza-se indiferentemente de todos os meios de expressão artística." (Andrade, 1929).

Morada do Coração Perdido

A casa denominada como Morada do Coração Perdido, lugar em que residiu desde 1921, era o ambiente que ele considerava de grande valor, pela reunião com os familiares, que moravam no mesmo quintal do conjunto de sobrados.  O cheiro de bolo no forno certamente era uma ocasião frequente disputada pela mãe e pela tia. Cada espaço apresentava muito valor pelos detalhes e coleções de obras importantes.  As paredes do ambiente neutro eram repletas de prateleiras de vidro recheadas de livros, elementos estéticos e históricos, que formavam uma incrível biblioteca.

Atualmente, o lugar se tornou um museu, espaço de memória que guarda alguns objetos da época, em destaque, o piano que utilizava para lecionar e os móveis feitos sob medida. A casa, agora chamada de Casa Mário de Andrade, tem muitas programações e lembranças para serem degustadas com o sabor do passado e do presente, que fica eternizado através das obras e lições de Mário de Andrade.
 
“Saí desta morada que se chama ‘O coração perdido’ e de repente não existi mais”, escreveu o poeta que viveu, produziu, morreu e foi sepultado em São Paulo, no dia 25 de fevereiro de 1945.

 

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