25/02/2021 às 18h35min - Atualizada em 25/02/2021 às 18h09min

O “catálogo de suspeitos” que condena negros inocentes

As delegacias guardam fotos de possíveis suspeitos e a maioria delas são de negros, que acabam sendo sentenciados à prisão injustamente por crimes que não cometeram e por uma foto que não sabem como chegou lá

Darlanny Ribeiro da Silva - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Prisões brasileiras | Reprodução: Getty Images

O reconhecimento por fotografias de possíveis suspeitos de crimes, que deveria servir como uma das provas que sustentaria a acusação, tornou-se a única prova que está condenando muitos negros em nosso país. Sem fundamentos, sem aprofundamento do caso, muitos inocentes têm ido parar atrás das grades.
 

No processo de investigação, o reconhecimento fotográfico acontece da seguinte forma: a vítima aponta em um álbum de suspeitos qual deles poderia ser o autor do crime, essa ação pode ser utilizada para identificar algum envolvido no caso, desde que esse apresente características físicas semelhantes a quem cometeu o delito e que essa prova esteja embasada em outras que comprovem a participação do acusado, porém muitos desencontros têm ocorrido nesse processo, o que mudou totalmente a vida de quem foi afetado.
 

Até hoje não é possível dizer como essas fotos foram parar no catálogo de suspeitos de algumas delegacias, pois como conta Tiago Gomes, 28 anos, quando foi acusado injustamente pela primeira vez por um crime que não cometeu, foi assim que sua foto entrou para o catálogo e não saiu mais, mesmo ele sendo inocentado da acusação.


Um grande fator para tantos negros estarem entre os acusados é sua cor da pele, ser negro virou sinônimo de criminoso, ladrão, assassino, tudo de ruim que possa levar à prisão, mas jamais um homem honesto e trabalhador. Tanta injustiça só faz pensar uma coisa, é racismo, um julgamento que condena a raça antes de qualquer investigação.

 

Em reportagem especial produzida pelo Fantástico, foi possível conhecer algumas dessas histórias, entre elas a de Jamerson Gonçalves, 34 anos, que trabalha como instalador de TV a cabo e que já esteve preso injustamente duas vezes. Ele conta que nas duas vezes foi pego de surpresa e não sabia o que estava acontecendo, os policiais não explicaram nada, ele se sentiu humilhado pelas acusações e, hoje, luta para que sua foto seja retirada do catálogo de suspeitos, pois foi a partir dela que ele tornou-se réu nos casos. Tudo que ele deseja é poder andar livre, sem temer que amanhã possa ser preso novamente.


Os reconhecimentos pelas fotografias tornaram-se a sentença dos acusados, a justiça tem deixado de lado todo o procedimento de investigação ao ouvir da vítima que pode ter sido o “José” ou o “João” naquela fotografia. Outras provas devem ser levadas em questão antes de prender um suspeito, as câmeras de segurança no local do crime ou na vizinhança precisam ser vistas; os depoimentos de testemunhas, coletados; o direito do acusado ser ouvido e se defender em liberdade, concedido. Esses são métodos que devem acompanhar toda a investigação, mas não tem acontecido dessa forma nas delegacias do país.

 

Nesses casos, a voz de quem acusa tem mais poder do que a justiça, um exemplo disso é o caso do jovem Angelo Gustavo, 28 anos, que foi preso por causa das curtidas em uma foto publicada na sua rede social, que através disso a vítima diz tê-lo reconhecido.
 

Angelo segue preso, aguardando julgamento. Em uma carta escrita na cadeia, ele disse: “Fui preso injustamente, nem sei o que dizer, dá até um nó na garganta, como eu vou me defender? A justiça no Brasil não tem como entender, é tanto preconceito, já não tenho pra onde correr. Será que é o tom da minha pele ou o jeito que me visto? Se fosse branco e de olhos azuis não passaria por isso. Eu fico muito indignado porque minha raça tem um álbum. Meu coração e minha mente seguem tranquilos pra caramba. Paciência é uma virtude, eu sou luz na escuridão. Obrigado Deus pela força que o senhor tem me dado para enfrentar esses dias. A gente dá o que a gente tem, aqui é só amor e gratidão. Ninguém pode duvidar da fé de quem tem uma flor pra criar."
 

Todos os envolvidos nesses relatos seguem buscando que sua foto seja retirada desse álbum, para que não enfrentam mais acusações. Aqueles que ainda estão presos buscam provar sua inocência na justiça, e mesmo que isso não altere o histórico do passado, poderá permitir que eles sigam uma vida de paz, sem medo.

 

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