26/02/2021 às 09h45min - Atualizada em 26/02/2021 às 09h32min

Edição de obras literárias: reparação ou negação?

A proposta de editar livros de Monteiro Lobato, por conter termos racistas, é pauta entre o público gerando diversas opiniões

Yngrid Alves - Editado por Roanna Nunes
Imagem: Google Imagens
 
Os livros “Caçadas de Pedrinho” e “A Menina do Narizinho Arrebitado”, de Monteiro Lobato, são algumas de suas obras que quando lidas atualmente chamam atenção por seus termos racistas: “Macaca de carvão”, “Beiçuda”, “Carne preta”, entre outros. Recentemente, tem sido motivo de discussões a  proposta de edição das suas produções literárias, pois ainda são utilizadas em ambientes escolares e em lares, e nessas condições, apresentar tais termos para crianças em um livro infantil pode ser determinante de confusão na  formação destes indíviduos.
 
No aniversário de 100 anos da obra “A Menina do Narizinho Arrebitado”, Cleo Monteiro Lobato, bisneta de Monteiro Lobato, a reeditou de modo que retirasse os elementos racistas no livro. Em entrevista ao GZH, ela explica que a iniciativa se deu devido ao desconforto dos leitores.
 
“Pessoas disseram que não têm nem condições de ler para os netos. Foi aí que começamos a mexer na obra para que a gente possa fazer as contações das histórias” — disse.
 
A atitude teve grande repercussão nas redes sociais e dividiu opiniões. Aqueles que defendem a edição das obras tem como argumento a reparação histórica, ao alegar que a leitura dos livros de Lobato pode ferir e humilhar crianças pretas e potencializar o bullying e o racismo. Por outro lado, a oposição julga essa iniciativa uma negação ao passado já que o racismo fez e ainda faz parte da nossa história, e não é fingindo que nunca aconteceu que isso irá mudar.

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, também se manifestou nas redes sociais e chamou a atitude de “mutilação”.
 Ele ainda acrescentou, analogicamente, que a reedição é como ‘esfaquear Lobato pelas costas’.

 
 
A reflexão
 
Do ponto de vista da história, a historiadora e doutoranda em História na UFF, Carolina Bertassoni, entende que a atitude de Cléo beira o negacionismo, além da censura. “É a alteração de um documento histórico. Seria um apagamento do racismo da obra [...] afinal, estão querendo cortar partes dela para que ela não ajude a influenciar os leitores a terem pensamentos e atitudes racistas [...] liberdade de expressão tem limite, e o crime de ódio é um deles. Então eu acho que é uma forma de censura, mas isso não é necessariamente ruim”, alegou.
 
Os opositores se contrapõem a essa iniciativa ao alegarem desrespeito à literatura e à história. Oras, modificar uma obra literária que não é de sua autoria, seja por qual for o motivo, é uma interferência polêmica e, no mínimo, invasiva. O escritor e professor de literatura Daniel Cotrim admitiu que, se tivesse no lugar de Lobato, se sentiria mal. Ele considera também que a atitude da bisneta é como pedir desculpas por outra pessoa que fez 'mal' a alguém e que se ele não pode reparar o erro, ninguém pode.
 
Entretanto, o professor compreende a intenção de Cléo e reafirma que o preconceito não deve mais ser tolerado em ambiente algum, sobretudo, no escolar. “Como professor, entendo a atitude da Cléo. É preciso ter muito cuidado com as crianças, principalmente com a maneira como se mostra ou diz algo. Não dá para subestimar a capacidade de entendimento delas. E mais: realmente situações de racismo, preconceito e bullying não são bem-vindas, sobretudo na sala de aula”, declarou.
 
Muitas famílias não querem se desvencilhar da cultura brasileira de modo que arranquem Monteiro Lobato da infância dos menores. O autor é exemplo e referência para a literatura brasileira e quem não conhece o Sítio do Picapau Amarelo que atire a primeira pedra. Não é fácil, de fato, aceitar que quem fez tanto bem às crianças, hoje em dia pode feri-las. Entretanto, não há mais espaço para regresso.
 
Com isso, o professor ainda reiterou que a iniciativa empática de Cléo não extingue a permanência do racismo na sociedade, pois acredita que tirar termos de um livro, mesmo sendo de uma obra clássica, não impede que algumas pessoas tenham pensamentos preconceituosos, radicais e racistas.
 
É evidente que, para combater as mazelas sociais necessita-se de ações efetivas, fingir que preconceitos em obras culturais antigas nunca existiram não acrescentam na causa. A historiadora traz uma visão mais ampla ao entender que reparar historicamente é mais do que apenas uma edição. “Pensando em reparação histórica, dar mais valor e atenção a obras de autores(as) negros(as), dar mais incentivo, inclusive financeiro, para que possam produzir mais”.
 
Além disso, é pertinente analisar que, embora Monteiro Lobato seja um dos ícones da literatura brasileira e infantil, a introdução de seus livros no aprendizado da criança pode ficar em segundo plano, ou até mesmo modificar a forma em que é trabalhada. Vivemos em uma época diferente do autor em que a evolução, a adaptação e a renovação são requeridas constantemente. A estagnação está ultrapassada.
 

Bertassoni indica como alternativa uma abordagem crítica em relação às obras ao demonstrar seu ponto de vista: “Eu, sinceramente, optaria por ler outros livros até considerar seguro ser possível fazer uma leitura crítica junto à criança. No caso de querer ler o Monteiro Lobato no original de forma crítica, uma boa opção seria escolher uma obra capaz de fazer um contraponto ao racismo dele para ler em seguida e fazer a comparação com a criança”.

 
Partindo do âmbito histórico, a cultura é um patrimônio imaterial que deve ser preservada e é objeto de estudo atemporal. A alternativa indicada pela historiadora, além de continuar incluindo Monteiro Lobato na educação infantil, ajuda na criação de conceitos e ética desde menor. E, em complemento com a visão da literatura, pelas palavras de Cotrim:
 
“A literatura causa choque, tira da zona de conforto, inquieta, mas também faz refletir, relaxa, acalma”

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