26/02/2021 às 11h57min - Atualizada em 26/02/2021 às 11h56min

Um carnaval invisível

Como a ausência do carnaval nos afetou e como sua presença nos afeta

Júlio Nesi - Editado por Roanna Nunes


Desde o início da pandemia do novo COVID-19 e as respectivas quarentenas, a ideia do cancelamento do carnaval já era ligeiramente discutida. Para alguns a ideia era absurda, para outros era a melhor maneira de controlar os casos do vírus, ainda que fosse uma ameaça ao chegar na data. E enfim, a teoria saiu do papel e o cancelamento veio à tona, foi a primeira vez na vida de muitos brasileiros que esta data festiva foi protagonizada por ruas vazias durante todo o período reservado para o feriado. É claro que houveram as festas clandestinas, mas o carnaval de 2021 foi um marco por sua ausência. Ainda assim, ouso dizer que conseguiu impactar o brasileiro com a mesma intensidade de quando se faz presente, mas desta vez o impacto não foi com seu barulho e sim com seu silêncio.

 

O impacto econômico chegou na casa dos bilhões, como o carnaval de Salvador-BA que em 2020 gerou 2,5 mil empregos e injetou R$1,8 bilhão na econômia, na época. Entretanto, as perdas vão além do financeiro, a saúde mental do povo brasileiro também sofreu com a ausência de sua maior festa, feitos de reféns por um vírus que está tirando nossa liberdade e devido a este último acontecimento, também nos priva de uma emblemática festa que dá vida ao ditado "o ano só começa depois do carnaval", foi como um golpe de misericórdia nas expectativas dos esperançosos foliões, sobrando apenas um carnaval que só existiu nas telas de televisões, computadores e celulares que apenas provocaram o já entristecido folião. A título de referência temos o caso de Maceió-AL com o tradicional bloco Pinto da Madrugada, que geralmente traz uma média de 200.000 foliões para à capital alagoana, após ser anulado e ter como prévias carnavalescas o evento online Carnavália, como uma forma dos artistas atuarem, chegou apenas na casa dos mil espectadores ao longo de sua duração.

 

Assistir a folia on-line apenas criou saudade no coração brasileiro, saudade de ver as escolas de samba desfilando, pular nos blocos, as sátiras e críticas às autoridades nacionais e internacionais. O ano de 2021 será conhecido como o ano do carnaval com poucas polêmicas, oposto do ocorrido no ano passado, como a Mangueira, escola de samba que em 2019 nos trouxe o enredo "História pra ninar gente grande", desfile politizado que mostrou personalidades brasileiras históricas que foram 'apagadas', uma delas foi a vereadora Marielle Franco. Em 2020 a mesma escola levou à Marquês da Sapucaí o samba-enredo "A verdade vos fará livre" que além do teor político, pisou em área religiosa ao retratar Jesus Cristo como mulher, negra e pobre, interpretado pela rainha de bateria Evelyn Bastos. Em ambos os momentos a escola se encontrou no centro de discussões, críticas e elogios e pôs fogo nos já existentes debates sobre: "até onde a cultura pode chegar?", debate tão enraizado nesse evento que até esse ano veio à tona.

Gilson Machado, ministro do turismo, ligou o cancelamento do carnaval à ira divina, ligando uma foto do desfile da escola Gaviões da Fiel às ruas vazias. O desfile que na verdade foi em 2019, não 2020 como o ministro editou na foto, foi uma reedição de um samba-enredo apresentado pela mesma escola em 1994, sobre a história do tabaco, chamado "A Saliva do Santo e o Veneno da Serpente", que em uma parte mostra a figura de Jesus Cristo sendo vencido pelo diabo. A polêmica surgiu em razão do ministro implicar que a pandemia que já causou mais de dois milhões de mortes ao redor do mundo foi resultado de ira divina por um suposto deboche festivo.


Apesar das controvérsias e natureza polêmica, o carnaval nos marca independente de sua presença e as telas são incapazes de reproduzir o festival em todo o seu esplendor, como diz a letra do Frevo da Saudade, de Nelson Ferreira:

"Quem tem saudade não está sozinho, tem o carinho da recordação. Por isso, quando estou mais isolado, estou bem acompanhado com você no coração".

O fato de sofrermos tamanho impacto com a ausência da semana comemorativa é a prova de sua importância para a população e a sensação de esperança é apenas intensificada para o próximo ano.

 

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »