27/02/2021 às 23h31min - Atualizada em 27/02/2021 às 23h25min

Projeto 'Ruptura' expõe drama de anos da mineração em quatro bairros de Maceió

Bairros Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto acumulam ruínas e casas vazias com famílias forçadas a se mudar

Anna Sales - Editado por Andrieli Torres
Foto: Ana Paula Silva

Maceió, 1941. Uma empresa vem em busca de petróleo às margens da Lagoa Mundaú, a mando do Conselho Nacional do Petróleo, criado durante a época em que Getúlio Vargas era presidente do Brasil. O petróleo não foi encontrado, mas outra descoberta importante foi feita; um leito de sal-gema, na região do bairro do Mutange, que é beirado pela Lagoa Mundaú. 

 

Apesar disso, as empresas não deram valor à descoberta. Mas o empresário baiano Euvaldo Luz viu potencial na exploração. Porém, apenas em 1965 ele pôde começar os estudos geológicos, pois anteriormente a concessão para exploração era de um grupo internacional. Em 1966, surge a Salgema Indústrias Químicas Ltda, mas apenas dez anos depois, em 1976, é que o material começa a ser explorado. Uma fábrica para extrair a sal-gema e transformá-la em cloro e soda cáustica foi criada no bairro do Pontal da Barra.

 

Desde então, a Salgema passou por duas mudanças, em 1996, mudou de administração e passou a se chamar Trikem. Em 2002, a Trikem se funde com outras empresas e passa a se chamar Braskem. A Braskem hoje conta com a Petrobrás e a Odebrecht como sócias majoritárias.

 

Era fevereiro de 2018, após fortes chuvas ocorridas em Maceió, misteriosas rachaduras começaram a aparecer em casas e prédios no bairro do Pinheiro, que fica na parte alta da capital. Geólogos e engenheiros começaram a estudar o que poderia ter causado essas rachaduras em diversos pontos do bairro. Em março, novas chuvas e mais um susto: um tremor de terra de magnitude 2,5 foi sentido no Pinheiro e em dois bairros próximos; Bebedouro e Farol. 

 

Um ano depois, em 2019, os bairros do Mutange e Bebedouro, que são vizinhos ao Pinheiro, começaram a apresentar rachaduras em várias residências. E em julho do mesmo ano, moradores do Bom Parto, que também é próximo desses bairros, denunciaram o aparecimento de rachaduras em algumas residências. Após diversos estudos feitos pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e pela Defesa Civil, foram identificadas  três principais fissuras, cada uma com cerca de 1,5 km de extensão, afetando 2.480 moradias somente no Pinheiro. Estudos da CPRM concluíram que a extração de sal-gema, feita pela mineradora Braskem, na região onde existiam falhas geológicas provocaram a instabilidade no solo. 

 

Apesar dos estudos, a Braskem não acreditava ser responsável pelo problema. Mas uma charge de 1985, feita pelo jornalista Ênio Lins e uma reportagem dos ainda estudantes de jornalismo, Mário Lima e Érico Abreu, já alertavam para o problema da extração da sal-gema. A empresa Salgema mostrou à época aos estudantes que quando se extrai o sal das cavernas subterrâneas, elas ficavam vazias e eles colocavam água para encher, mas com o tempo, poderia haver movimentação e abalos sísmicos. 

 

De 2018 até 2021, diversas casas e prédios foram desocupados e alguns foram demolidos nos quatro bairros afetados pelas rachaduras. Um mapa com as áreas para desocupação e de maior risco foi criado, e a cada novo estudo, a área a ser desocupada só aumenta. 15 poços para a exploração da sal-gema que ficavam nos bairros foram desativados. A Braskem realizou um programa de compensação financeira e apoio à realocação, mas alguns moradores dizem que não receberam a indenização ou o valor foi baixo. As ruas parecem pertencer a um bairro fantasma ou a um cenário de guerra. Em várias paredes das casas que foram desocupadas, há palavras que expressam a dor e a revolta de famílias que viviam há anos nos bairros. 

 

A partir dessa inquietação, surgiu o 'Projeto Ruptura', que é formado por 12 fotógrafos alagoanos, dentre eles, três fotógrafas diretamente impactadas pelo problema com as rachaduras. A ideia partiu da fotógrafa Andréa Guido, moradora do bairro do Pinheiro, que sugeriu ao fotógrafo Jorge Vieira que ambos encabeçassem  um projeto que mobilizasse retratistas que quisessem documentar a tragédia socioambiental que está em curso nos quatro bairros. 

 

No início de 2019, Jorge Vieira tinha realizado um projeto chamado “Pinheiro – bairro de vidas rachadas”, no início do agravamento das rachaduras, que ainda estavam restritas ao bairro do Pinheiro. “Ainda não havia desocupações, então apenas anunciadas, e a abordagem fotográfica foi em torno dos dramas familiares, e sua perspectiva de terem que se afastar dos parentes, dos amigos, dos vizinhos de tanto tempo, daí o título “vidas rachadas”. Os moradores ainda não tinham noção exata da dimensão que o problema tomaria, com a total remoção de todos das áreas atingidas. Este quadro foi o encontrado quando da realização do projeto 'Ruptura' que, além do Pinheiro, envolveu os bairros do Bom Parto, Mutange e Bebedouro. Nesse momento, o cenário foi bem mais desolador, com moradias em escombros, pontos comerciais fechados e muitos moradores já removidos. Encontramos muitas marcas das vidas deixadas para trás. O impacto imagético teve uma dimensão muito maior, com o registro dos sonhos abandonados, das saudades esquecidas, dos rumos incertos”, conta.

 

E no meio desse cenário de destruição, alguns moradores ainda resistem. É o caso de Andréa Guido, que desde 1985 mora no mesmo condomínio, no bairro do Pinheiro. “O sentimento de ainda ser moradora é terrível e avassalador, basta olhar da janela do quarto durante o dia para ver as casas e prédios sem telhados, portas e janelas ou quando anoitece, perceber uma escuridão e um silêncio absurdo! É como se aos poucos essa destruição pudesse nos alcançar e não temos poder para deter tanta destruição. E em todos esses anos morando aqui, são muitas lembranças que carrego comigo. Minha adolescência cercada de amigos, as festas de São João, a segurança do meu prédio, mas as melhores lembranças estão diretamente relacionadas à família, como o nascimento da minha filha, Ana Beatriz, há 25 anos, e dos meus sobrinhos João, Bruninho e Matheus. Além de poder acompanhar o mais perfeito pôr do sol. Além disso, quando sai um novo mapa, vemos que a área só vem aumentando. É um misto de sentimentos, se entramos no mapa ficaremos sob o jugo da empresa e sua equipe técnica, se não entramos no mapa vamos ficando cada vez mais isolados. É como eu disse no início, a cada dia que passa o bairro vai ficando cada vez mais absurdamente silencioso”, expõe. 

 

Apesar de ter tido a ideia do projeto, Andréa relata que é muito difícil tirar fotos quando passa nas ruas do Pinheiro, pois é tomada por um sentimento de tristeza e abandono. “Quando estava fotografando para o 'Ruptura', o mais difícil foi registrar as pessoas que iriam deixar suas casas para trás. Cada rua, cada casa, cada prédio, tem seu impacto. Mas o maior deles foi quando vi e registrei a demolição dos prédios do Jardim Acácia e os vários caminhões de mudança saindo do bairro. Esse é um trabalho que me traz um grande misto de emoções, tanto pelo que foi por mim produzido quanto pela visão do grupo que também imprimiu seu olhar a tudo o que está acontecendo. Ter as fotos nas paredes do Pinheiro e Bebedouro, assim como no site do 'Projeto Ruptura' é uma sensação de colocar devidamente registrado na  história de Maceió o que vem acontecendo nos cinco bairros afetados pela mineração. A importância do Ruptura é de luta e alerta! Todos precisam saber o que está acontecendo, afinal, os bairros estão fadados  a desaparecerem do mapa", relata. 


No início de janeiro de 2021, Ana Paula Silva, teve que deixar a casa que viveu durante 25 anos no bairro do Bebedouro. Com tanto tempo morando no local, Ana Paula fala que a melhor lembrança que carrega do local são as pessoas. “O vínculo com os vizinhos, colaboradores dos mercados onde comprava, o cabeleireiro que eu ia. Eles são as mesmas pessoas que durante todos os anos  convivi, conversei, sorri e até chorei. Esses valores não tem preço. O sentimento ao sair foi de que estava sendo punida por algo que não fiz. E essa punição foi a expulsão da minha própria casa."
 

Sobre o convite para participar do projeto, ela diz que ficou muito grata com a oportunidade. “Quero que ‘milhões’ de pessoas sintam através das nossas imagens o que passamos, o que fomos obrigadas a deixar para trás. Ao tirar as fotos, em todas as residências que entrei para capturar as imagens percebi e tive um pesado sentimento, como ser expulso se não termos culpa do que aconteceu? Sorrindo? Não. Ninguém sai sem um sentimento de ódio no coração. Objetos deixados para trás contam a história de várias famílias, destruídas psicologicamente. Foi bem difícil tirar as fotos, as ruas estavam vazias, sem vida,só destruição de todos os lados. As pessoas precisam ser mais unidas umas às outras, em especial nesse desastre, que não é só para quem viveu nesses quatro bairros mais de Maceió. Mas para isso, o conhecimento é fundamental”, relata. 

 

Com o 'Ruptura', Ana Paula espera denunciar o que uma ação desenfreada de uma mineradora pode causar a um estado. Ela diz que gostaria que a empresa fosse expulsa do estado, mas sabe que isso é quase impossível de acontecer. Então, para ela, o que resta confiar nas autoridades, para que elas sejam mais rigorosas na fiscalização. 

 

Há 24 anos, Dilma de Carvalho saía da casa dos seus pais, no bairro do Pinheiro, para ir para sua casa própria. Ela relata que apesar de sair do Pinheiro, o bairro nunca saiu da vida dela, pois os pais e os avós ainda moravam no bairro. Dilma guarda boas lembranças da época em que morava lá. “Minhas melhores lembranças são da vida pacata, sentar na porta à noite para  conversar com os vizinhos, estudar no Grupo Escola Prof. Sebastião da Hora, na Pitanguinha e voltar para casa com a professora que era minha vizinha de frente, nossa tia Salete. Na adolescência, ser membro da Comunidade Jovem de Nazaré  (CJN), estudar no CEPA, andar a pé até o Sanatório para encontrar amigos, bater papo na Pracinha Arnon de Melo e curtir as festas juninas do Conjunto Divaldo Suruagy. Inclusive, o local difícil que fotografei para o Projeto RUPTURA foi o Conjunto Divaldo Suruagy. Ver os prédios vazios, toda a vida comunitária em ruínas foi uma dor que não sei dimensionar. Recentemente fotografei a Igreja da minha CJN em ruínas."

 

Para Dilma, o sentimento ao passar nas ruas dos bairros é de profunda tristeza. “Ao me deparar com um cenário de guerra, o primeiro sentimento é de profunda tristeza. Depois vão se associando a esse sentimento de revolta e de necessidade de gritar ao mundo, de exigir responsabilidade dos poderes públicos e privados. Hoje impera mais o sentimento de exigir Justiça e de dar voz às vozes emudecidas pela tristeza e pela depressão, que afeta os ex- moradores dessas localidades. A fotografia sempre cumpriu esse papel de denunciadora.  Nós, do 'Ruptura', temos o intuito de que nossas fotografias ganhem o mundo e possam documentar, e mais, denunciar, e deixar  para registros históricos futuros o que foram esses bairros, a importância deles para as vidas dos seus habitantes e para a economia, cultura e demais vieses históricos-sociais. Também queremos gerar mais empatia em quem pensa que não será afetado por essa tragédia. O 'Ruptura' cumpre o papel de denunciar, porém, tudo é feito com muita empatia, respeitando as dores, os momentos individuais de cada morador, de cada ser humano que se identifica como um expulso de seu chão, sem ter sua voz ouvida. Através da arte fotográfica, se mostra o íntimo da dor e a maldade da ganância financeira."

 

Jorge Vieira, que encabeçou o projeto, diz que o 'Ruptura' tem como uma de suas premissas levar ao conhecimento da sociedade como um todo, a dimensão da tragédia humana, ambiental e econômica, e também social, que está sendo vivida nos bairros atingidos pelas rachaduras da Braskem. Para ele, a divulgação do conteúdo visa estimular que os demais maceioenses sintam como sua essa problemática. Segundo Jorge, o “Ruptura” gera nele um misto de tristeza, indignação e revolta, numa ‘costura’ de solidariedade com as pessoas atingidas. No que a câmera registra escombros, ele diz ver histórias violentadas, sonhos desfeitos, vidas esvaziadas. Para Jorge, as rachaduras que dividem o solo e destroçam as moradias, também quebram a dignidade de uma gente tratada aos empurrões em deixar seus lugares para trás.

 

“Apesar da satisfação de ver um ciclo cumprido, fica a sensação de impotência, de que todo o esforço e dedicação tem força mínima diante do poder econômico e político que controla toda essa situação, em detrimento dos interesses dos moradores atingidos. Não obstante, sinto-me oxigenado por estar alinhado com o papel sociopolítico e cultural da fotografia, é recorrente a sensação de impotência, incrementada pela indignação frente ao trato impessoal dado às vidas atingidas. De todo modo, o 'Ruptura' é uma contribuição para que se mantenha pulsante a atenção sobre a tragédia das rachaduras, na expectativa de que a gente afetada seja minimamente atendida em suas reivindicações com base na dignidade. O projeto 'Ruptura' me possibilitou estabelecer mais uma vez conexão com esse drama humano que todo maceioense deve tomar como seu. Minha solidariedade a essa gente que merecia levar suas vidas conforme seus sonhos e vontades”, finaliza Jorge.
 

Para visualizar as fotografias do 'Projeto Ruptura', basta acessar o site:     

 

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