05/03/2021 às 14h18min - Atualizada em 05/03/2021 às 13h58min

O trabalho e suas nuances incertas aos jovens no mundo pandêmico

Cerca de 31,4% dos jovens estão desempregados, essa taxa é maior que a da população geral. A falta de oportunidades e experiências completam o pacote em um mundo cada vez mais escasso de trabalhos

Jennifer Valverde - Editado por Andrieli Torres
Foto: Reprodução/Google

Quando mais nova, Carine Silva, pensava que entrar no mercado de trabalho seria algo um pouco mais acessível, afinal, ela sempre teve acesso ao conhecimento. “Pensei que seria fácil, agora entendo que conseguir um emprego é difícil e requer esforço”, ressalta a jovem paulistana de 21 anos que é universitária. 


Um esforço hoje que ultrapassa os níveis de educação e preparo, já que muitas vezes precisa bem mais que isso, como de um networking ou o famoso Q.I (Quem indica). Entretanto, para jovens que nunca tiveram uma experiência no mercado, ou que tenham muito pouco tempo no mesmo, é uma tarefa bastante árdua, que se intensificou com a chegada da crise causada pela pandemia. 

 

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a taxa de desemprego alcançou um percentual de 14,1% no trimestre entre setembro e novembro de 2020, com um total estimado de 14 milhões de pessoas desempregadas. Já especificamente dos jovens esse número é de 31,4% de desempregados de 18 a 24 anos no mesmo período da taxa geral, a maior taxa já vista desde o início do projeto em 2012. Fator intensificado pela falta de vagas para esse grupo, por pedidos de experiência prévia e pelo alto número de empresas falindo por não conseguirem se manter no ritmo imposto pela crise sanitária. 

 

“Antes já estava difícil, agora com a pandemia muitas empresas faliram, assim o número de vagas de emprego reduziram, dificultando mais uma possível contratação", é o que expõe a jovem universitária que se vê perdida mediante a falta de oportunidade para ingressar no mercado de trabalho. 
 



Focos e suas mudanças 
 

Para Jheny Pereira Roberto, paulistana de 20 anos que também é universitária, o focar nos estudos pode ter sido um paralelo entre privilégios e preconceitos. Ela conta que sempre teve o apoio familiar para estudar, sem precisar conciliar trabalho e estudo de forma simultânea: “Eu nunca precisei trabalhar, por isso pude me "dar ao luxo" de focar meus esforços apenas no estudo. Nunca precisei conciliar emprego e estudo, apesar de ser pobre, classe C ou D, nem sei! Mas meus pais me criaram com esse pensamento, que eles que devem prover a casa e os filhos devem estudar.” 

 

Entretanto, Jheny relata que logo no começo de janeiro deste ano, quando foi procurar emprego, sentiu na pele a frustração causada pela desconfiança das pessoas. “Em plena pandemia, eu fui entregar currículo aqui perto, em São Mateus (zona leste de São Paulo), aí as pessoas que pegavam o currículo me questionavam com ar de espanto: "Você tem 20 anos e nunca trabalhou?” Por um momento eu fiquei sem reação... Não sabia o que responder, a não ser a verdade: "Eu sempre estudei, olhe meu currículo." Elas diziam: “Mas você não tem experiência”, conta.  

 

Por mais que existam vagas de meio período, mesmo antes da pandemia eram mais escassas que as vagas integrais, o que também acabavam sendo um dos motivos de jovens abandonarem seus estudos, pois precisavam auxiliar em casa de forma financeira e muitas vezes estudar e trabalhar não integravam o mesmo plano. Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio - Contínua Educação), divulgada no dia 15 de julho de 2020 pelo IBGE, jovens entre 14 e 29 anos abandonaram seus estudos para poderem trabalhar; muitos nem concluíram o ensino médio, cerca de quatro a cada dez jovens abandonaram a sala de aula para arrumar uma ocupação.

 

Então, o espanto de ver jovens que ainda não entraram no mercado de trabalho por focar na educação, ou por não encontrar oportunidades sem ter experiência é algo rotineiro; na cultura brasileira é comum ver jovens, muitos menores, saírem da escola ou não entrarem em um curso superior para poderem ajudar no sustento de suas famílias. Alguns que encontraram oportunidades que se adequaram à rotina de estudos, hoje por conta da pandemia se veem desempregados e em desespero, com a sensação de um futuro incerto, tomando conta de suas vidas de forma quase que palpável. 

 

Jheny relata que, ao observar seus amigos que não tiveram a mesma oportunidade que ela, ou que estão em uma situação financeira difícil, sente o desespero e a incerteza saindo de dentro deles. “Tenho bastante amigos que não tiveram esse privilégio que eu tive e se viram na necessidade de escolher trabalhar ou estudar e foram trabalhar, porque livro não enche barriga. Com a pandemia isso veio à tona mais ainda! O desespero de não se ver no comércio essencial e seu emprego estar na corda bamba. A incerteza se vai ficar no emprego, se sair como vai conseguir outro em meio a esse caos.” 

 

A falta de oportunidades, de experiência e até de letramento, juntas com o medo de um futuro incerto nunca foram tão presentes no ambiente jovem quanto no último ano. É difícil saber até quando essa rotina incerta irá continuar e se após a crise os empregos serão repostos, mas uma coisa em comum Carine e Jheny tem, a esperança de entrarem no mercado de trabalho, que hoje para elas ultrapassam a barreira de cidades ou países, elas estão dispostas a olhar para fora, a fim de alcançarem uma oportunidade e enquanto não chega esse tempo, Carine afirma que a melhor maneira de estar preparada ainda é a qualificação. Ela continuará investindo em minicursos e aperfeiçoando-se cada vez mais para finalmente alcançar o nível exigido pelo mercado. 


Nota: o nome real da jovem entrevistada com o pseudônimo de Carina Silva, foi trocado para preservar a identidade dela.

 

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