05/03/2021 às 23h07min - Atualizada em 05/03/2021 às 22h29min

A Febre Ferrante na literatura e na televisão

Autora anônima conquistou fãs pelo mundo todo e coleciona teorias acerca de sua identidade

Larissa Gomes - Editado por Roanna Nunes
Reprodução Internet
Quando se gosta de literatura, por vezes você acaba recebendo alguma indicação de leitura de alguém. Costumo pensar que esse hábito fortalece vínculos, afinal, o prazer em debater sobre um livro com outra pessoa é indescritível. Foi assim que tive meu primeiro contato com Elena Ferrante, por uma indicação.

Com uma narrativa bem fluida, os livros de Ferrante são facilmente devorados em horas, criando toda uma atmosfera em torno da história contada, como se você estivesse ali de cima, observando os personagens em seus cotidianos. A “Febre Ferrante” dominou não só a Itália – país de origem da escritora -, mas também todo o mundo.

A autora teve sua primeira obra publicada no início dos anos 1990, sob o título Um Amor Incômodo. O grande ápice de sua carreira veio com o lançamento da Série Napolitana, que narra a vida de duas amigas de infância na cidade de Nápoles. E é nessa cidade que se especula que tenha nascido Elena Ferrante.

O grande mistério que permeia toda a Itália (e os fãs internacionais) seria a identidade da escritora, que até então não foi confirmada oficialmente. Vivendo no anonimato e publicando suas obras sob um pseudônimo, a italiana concedeu poucas entrevistas e por e-mail até o momento.

Porém, em 2016 o jornalista Claudio Gatti postou um artigo simultaneamente no periódico Il Sole 24 Ore, no New York Reviews Books, no site Mediapart e no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung em quatro idiomas diferentes com uma teoria que revelava a identidade de Elena Ferrante. De acordo com Gatti, por trás das obras de sucesso estaria a tradutora Anita Raja, com seu marido, Domenico Starnone.

 
A tradutora Anita Raja e seu marido Domenico Starnone. Reprodução Internet.

Anita é filha de uma alemã que se mudou para a Itália durante o período Nazista e, por conta de sua familiaridade com o idioma, traduziu muitas obras do alemão para o italiano, incluindo alguns livros do aclamado Franz Kafka. Domenico Starnone é jornalista, escritor e roteirista, e colaborou com revistas e jornais italianos muito populares.

O fato de Raja trabalhar na editora italiana que publica os livros de Elena Ferrante e sua movimentação financeira ter crescido muito desde 2011 (ano em que o primeiro livro da Série Napolitana foi lançado), conforme a investigação de Claudio Gatti, sustenta as principais provas da teoria do jornalista. Além disso, a escrita de Ferrante se assemelha bastante a de Domenico Starnone, marido da tradutora, como foi relatado por uma universidade após comparações das obras da autora anônima com diversos escritores da Itália.

Não foi a primeira vez que os dois foram apontados como responsáveis pela autoria dos livros. Entretanto, o casal negou as acusações, apesar de que, com uma rápida busca por Elena Ferrante na internet, hoje você facilmente encontra o nome associado como pseudônimo de Anita Raja em alguns sites de busca.
Você pode se perguntar “Por que manter o anonimato mesmo com tanto sucesso?”. Para isso, deixo aqui um trecho retirado de uma carta de Elena Ferrante aos seus fãs no início da sua carreira:

 

“(...) acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não tenham qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”

 
Série Napolitana
 
A Série Napolitana de Elena Ferrante, lançada pela Biblioteca Azul no Brasil. Reprodução Internet.


Em quatro volumes, seguimos a história de duas garotas por diferentes fases da vida: infância, adolescência, fase adulta e maturidade. Lenu (Elena) e Nina (Rafaela) se conhecem ainda crianças e ali começam uma estranha relação de amor e ódio ao longo de toda a trama. Nina é uma aluna extremamente inteligente, porém, suas condições familiares a impedem de manter os estudos. Enquanto isso, Lenu, bastante competitiva, busca de tudo para sempre estar ao alcance da amiga na escola.

As duas crescem em um bairro da cidade de Nápoles habitado também por pessoas que, até o final do quarto livro, passamos a conhecer bem. Inclusive, o jovem destaque da sala, Nino Salvatore que – não revelarei muito – passa a ser bem presente na série.

A Série Napolitana de Elena Ferrante mostra facetas bem reais de cada nome citado, fazendo com que criemos conexões com os personagens enquanto envelhecem e partem para novos locais. O fascínio que Lenu e Nina têm, perpetuam por cada cena em que as amigas, silenciosamente, disputam entre si, expondo as inseguranças que há nas garotas durante as fases de suas vidas. Talvez seja por isso que se especula que os livros tenham sido inspirados na vida da anônima Elena Ferrante.
 
O sucesso foi tanto que em 2018 a emissora HBO (em parceria com a italiana RAI) transformou a tetralogia em série de televisão.
A Amiga Genial (L'Amica Geniale) atualmente com duas temporadas, somando 16 episódios. O objetivo é que a série de TV tenha, ao todo, quatro temporadas, sendo cada uma inspirada em um livro da Série Napolitana.

 
Série A Amiga Genial foi inspirada nos livros de Ferrante. Reprodução Internet.
 
Mas, enquanto não lançam as demais temporadas, você pode aproveitar para conhecer mais o trabalho da autora com algumas de suas obras já publicadas no Brasil, dentre elas: Dias de Abandono (2002), A Filha Perdida (2006) e, a mais recente, A Vida Mentirosa dos Adultos (2019).
 
Trailer de A Amiga Genial (2018) pela HBO. Reprodução Internet.

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