23/05/2019 às 17h49min - Atualizada em 23/05/2019 às 17h49min

A hora do Crime, por Mércia Ferreira

Impressões sobre os contos de terror

Socorro Moura - Editado por: Leonardo Benedito
Imagem: Divulgação
Cada gênero provoca as suas respectivas sensações. No meu caso, comédia gera alívio, drama traz melancolia, e a depender do romance, tenho paz. E contos de terror? Geralmente não sei descrever além de angústia e que logo finda ao acabar a história. Finda porque vem de uma curiosidade sem muita lógica. É o mórbido que nos habita. Porém, ao participar do Clube de leitura da Geleia Total - um grupo que promove cultura no Piauí - conheci o livro de Mércia Ferreira, natural de Piripiri, cidade ao norte do Estado.

Mércia participou da discussão dos seus contos de terror e compartilhou um pouco do seu processo criativo e de algumas curiosidades sobre sua vida. Assim, a obra em questão trata-se de “A hora do crime”, um livro curtinho, mas bem interessante, em que seus enredos remetem a questões sobre sanidade mental, passando pelo binômio pais e filhos e não deixando de contemplar o sobrenatural, que sinceramente, eu adoro.

Até a discussão em grupo, não tinha me atentado para as críticas às condutas humanas. Meu deleite tinha ficado entorno da construção das histórias e seus desfechos. Tenho que admitir que o gênero terror não costuma ser uma procura imediata e, ultimamente, só tenho me proposto a ler, por conta de algum projeto que colocassem a leitura em pauta. Quando deixei um pouco de lado a atitude de apenas me entreter, o interesse por outras obras, inclusive da própria autora, vieram por consequência. Abrindo um parêntese, ao conhecer Horacio Quiroga, por exemplo, e pesquisar por resenhas críticas, pude então começar “sacar” o que de fato está por trás desse estilo, de certa forma desprezado por mim por pura falta de atenção.

No entanto, como ser uma leitora mais ativa será tema para outro momento. E voltando para Mércia, pude perceber que seus contos prendem por envolver pré-adolescentes, entre 10 e 17 anos, e também por usar questões pertinentes a essa idade para extrair o fúnebre necessário para uma boa história, pois quando se fala de pessoa mais jovens, não há como não pensar em questões paternais, suas inseguranças, dificuldade de socialização, obsessões e desejos. Como todo bom conto, há o envolvimento de inocentes em jogos cruéis, mas não posso deixar de notar que por trás de todas as características já esperadas de certos gêneros, há questões humanas primárias e contundentes.

Invariavelmente, a sanidade mental é a pitada encontrada em todo o livro. Uma sanidade que sutilmente traz suas causas e cujas consequências é que nos premiam com bons enredos. Gosto disso. Não é o terror pelo terror, mas com o sangrento na dose certa e quando coube, o sobrenatural que igualmente assusta e atrai. Mércia se inspira de fato com tal temática, e quando uma boa história vem à mente, é premente a necessidade de contá-la. E faz bem. No grupo, há quem não deixou de contextualizar e trazer mais para o agora, lembrando de que a realidade de crianças problemáticas e criminosas é algo real. A nossa cultura da romantização não permite que façamos essas analogias e tão pouco as admitissem, mas existem. O que não faltam são exemplos. De qualquer forma, existe esse gancho e que seja percebido o seu valor. Por fim, a minha relação com o tema melhora. Quero outras histórias da autora e a leitura está recomendada!

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