19/03/2021 às 19h10min - Atualizada em 19/03/2021 às 17h07min

Movimento #euleiohot toma conta das redes sociais e traz à tona os preconceitos que envolvem a literatura hot

Autoras e leitoras se uniram para compartilhar suas experiências e lutar contra os tabus que cercam o gênero

Anna Sales - Editado por Andrieli Torres
Foto: Arquivo Pessoal de Thaísa Lima

2011. Um grande fenômeno chegava às livrarias: o primeiro livro da trilogia ‘50 tons de cinza’. O romance erótico da autora inglesa Erika Leonard James, que assina os livros como E. L. James, vendeu mais de dez milhões de cópias nas seis primeiras semanas de lançamento. Na época, era possível ver mulheres de todas as idades e em diversos locais, como nos ônibus ou em salas de espera de consultórios lendo os livros. O que antes era vendido em bancas de revista e lido às escondidas, tomou uma nova direção: cada vez mais mulheres estavam lendo romances eróticos. E com isso, elas tiveram coragem de escrever e divulgar seus romances e contos ‘hot’. 

 

Dez anos depois do lançamento e sucesso de ‘50 tons de cinza’, esses romances contam com cada vez mais autoras e leitoras. Apesar disso, diversos preconceitos ainda cercam esse tipo de literatura, que é considerada por muitos um ‘desserviço’. Recentemente, uma nova polêmica tomou conta das redes sociais: comentários diziam que "hot é um desserviço e muitas mulheres frustradas leem o gênero". A partir disso, foi criado o movimento #euleiohot, que hoje conta com mais de cinco mil publicações no Instagram. 

 

Adepta do movimento, a autora alagoana Thaísa Lima, que gosta de escrever contos hot, explica que a hashtag tem como objetivo quebrar esses preconceitos e mostrar que a escrita erótica também faz parte da literatura e merece ser respeitada. “Independente de uma pessoa gostar ou não de determinado gênero, é preciso respeitar o gosto dos outros. Não gostar de algo é um direito de todos, mas faltar com o respeito, não!”, cita.

 

Para Thaísa, o sexo nunca foi um tabu. Ela conta que sempre gostou de ler livros eróticos, e, um dia, surgiu a ideia de seu primeiro conto erótico, chamado ‘Senhor S'. “Eu estava muito insegura com a reação das pessoas à minha escrita, então, em 2017 eu conheci a plataforma Wattpad e resolvi publicar ele por lá, para ver a reação das pessoas. Publiquei sob o pseudônimo “Lyrabelisa” e esqueci o coitado. Mas, para minha surpresa, os leitores gostaram bastante e, em 2018, me assumi como escritora, passando a publicar meus livros na Amazon, inclusive o Senhor S.  que, aliás, será relançado em abril, reescrito e com nova revisão. Com esse conto, vi que eu tinha facilidade em escrever cenas eróticas e que poderia ajudar outras mulheres a se libertarem de tabus e preconceitos. Eu gosto de escrever romances, mas sou apaixonada por contos. Gosto da rapidez com que ele pode ser desenvolvido e escrito. Gosto de ver a reação dos meus leitores. Gosto da intensidade de sentimentos que ele carrega. Acho que minha maior fonte de inspiração vem da vontade de ajudar outras mulheres a entenderem que nós temos direito a sentir prazer, buscar por nossa satisfação e que não tem nada de errado em sentir desejo”, relata. 

 

O conto mais recente da autora é ‘Desejo saciado’, que narra a história de Ana, uma mulher que apesar de crescer em um lar onde sexo era considerado algo vergonhoso e cheio de tabus, se torna uma mulher independente para fazer suas próprias escolhas.

 

“Conceitos errados e preconceitos, coisas impostas por uma sociedade machista que demoniza as mulheres, foram os maiores opressores de Ana. Infelizmente existem muitas mulheres que cresceram ouvindo coisas como ela. Eu mesma venho de uma família onde as mulheres acreditavam que sexo era nojento, só servia para gerar filhos e que a mulher, em hipótese nenhuma, deveria sentir ou demonstrar prazer na hora do sexo, mesmo se fosse com o marido. É uma realidade que precisa mudar urgentemente para as mulheres se sentirem mais livres de todas essas amarras”, conta a autora.

 

Apesar de ser bem resolvida com sua escrita, isso não impediu que Thaísa recebesse comentários sem noção sobre suas obras. Ela relata que já recebeu críticas que diziam: "Você fez tudo aquilo que escreveu?", "Se inspirou numa experiência da sua vida real para escrever aquela cena?", ou "nossa, como você tem coragem de expor assim as coisas que você faz?" e até mesmo um "essa história foi inspirada na sua última aventura sexual?". Segundo Thaísa, algumas pessoas acreditam que a vida particular do autor está intimamente ligada com o que ele escreve e esquecem da criatividade que eles usam para criar novas histórias. 

 

A leitora M.V acredita que o hot também é uma maneira das mulheres se libertarem e se sentirem acolhidas. Ela disse que gosta de ler especialmente os contos. “Eu gosto do estilo de escrita feminino, algo bem mais realista e que consegue me prender, não só pela eroticidade, que é bem mais sutil, mas sabe ser instigante e excitante sem precisar de vulgaridades desnecessárias, e sim pelo envolvimento dos personagens, por ter uma boa história, e não apenas putaria escrachada. Acompanho uma página que posta esses contos eróticos e o que eu noto é que a leveza com que são escritos é totalmente perceptível, pois eles não precisam seguir um padrão de “putaria sem noção” e cheia de frases prontas de filme pornô para descreverem o que aconteceu. Cada mulher descreve da sua maneira, e acaba sendo bem mais gostoso de ler pela espontaneidade. Eu me sinto mais imersa no que estou lendo do que aqueles contos eróticos de um site genérico, que ao meu ver, quase sempre é extremamente forçado, e as poucas mulheres que se arriscam a escrever, escrevem de uma maneira que a gente, mais sensível à leitura, consegue perceber que não fluiu naturalmente, e sim está seguindo um molde para agradar homens”, relata. 

 

Os comentários sem sentido não ficam restritos só às autoras. Carolina Mariz, que gosta de ler literatura hot, conta que toma bastante cuidado em relação a quem vai falar sobre esse gosto pessoal, pois às vezes escapam comentários em tom de deboche, como ‘hm, safadinha’. Ela conta que na época em que ‘50 tons de cinza’ foi lançado, tinha preconceito com a literatura hot, mas acabou lendo para ter uma opinião. No fim, acabou gostando e procurando mais leituras com foco em romance de época e contemporâneo. 

 

“Eu gosto de histórias onde acontecem o inesperado, mas às vezes, nada melhor que um bom clichê com o final previsível. Gosto também da perfeição vista nos personagens masculinos, que muitas vezes não passam de vontades dos autores e leitores, e que costumam ser bastante incomuns na nossa realidade. Quando leio uma boa história, fico esperançosa, pois os personagens costumam ter um nível de perfeição acima da média encontrada na vida real, então espero um dia encontrar uma relação semelhante”, relata Carolina. 

 

A partir de uma fanfic escrita em 2015, no site Spirit Fanfiction, a alagoana Paula Santos, começou a escrever livros com essa temática. No primeiro momento, para testar, escreveu apenas duas cenas no livro. E a partir daí, foi desenvolvendo mais histórias. Os livros de Paula possuem a característica de terem bastante história antes das cenas eróticas. Para ela, isso gera a conexão com os leitores, pois o relacionamento do casal é desenvolvido antes de chegar às cenas. Apesar disso, ainda há um julgamento sobre os livros. “Ainda tem pessoas que julgam por uma capa, ou gênero, e na maioria das vezes a história por trás não é somente a classificação +18. Não deveria haver vergonha por lerem esse gênero ou se identificarem com ele, pois qualquer leitura é válida. O movimento #euleiohot veio para mostrar a força por trás desse gênero aqui no Brasil, que só vem crescendo e eu como leitora e autora também fico feliz de ver essa movimentação toda. Mas acredito que ainda falta ter a mente mais aberta, normalizar esse tipo de leitura, porque os livros vão além dessas cenas, com enredos complexos e intrigantes. Eu deixo um recado: se abram mais para experiências novas, que esse gênero é cheio de pequenos detalhes e rico em sentimento. Tudo fica mais livre e divertido desse jeito”, comenta Paula. 

 

Em 2011, após se sentir péssima e ser salva pelos livros ao passar por uma separação difícil,  Carol Teles decidiu que iria escrever suas histórias. Então, começou a usar o Wattpad, plataforma onde o escritor publica os capítulos e as pessoas podem ler gratuitamente. Ela diz que não esperava a proporção que a história iria tomar, sendo lida por diversas pessoas. Dois anos depois, ela já estava publicando na Amazon. 

 

A autora conta que gosta de escrever romances que tenham cenas eróticas no meio. Seu livro que mais aborda a temática erótica é ‘Noites Mundanas’. Com uma personagem principal fora do que é normalmente visto neste tipo de história, Carol conta que a inspiração veio nos subversivos personagens de ‘Noite na Taverna’, de Álvares de Azevedo. “Noites Mundanas é a história mais crua que já escrevi. Emília, a protagonista, foi construída depois de eu ler dezenas de casos de mulheres presas por terem matado os maridos. Lembro que pensei: caramba, talvez nessa situação eu fizesse o mesmo. A maioria das mulheres fariam o mesmo. Grande parte delas vêm de uma vida de desgaste físico e emocional por conta de homens que acham que somos empregadas com buracos entre as pernas. E, bem, sabemos que não é assim. Nunca recebi comentários negativos por este conto, mas sei que ele causa estranhamento em todo mundo que lê. Inclusive, tive grandes debates por causa dessa história com meus leitores. Ela não acaba como a gente espera, com aquele eterno felizes para sempre e sorrisos que sabemos que mulher destruída nenhuma no mundo teria, mesmo que conhecesse o príncipe encantado para ajudar a remendar os cacos. Uma vez quebrado, um vaso jamais voltará a ser o mesmo.  Mas ainda assim mulheres como Emília existem, e elas não podem ser ignoradas pela literatura. E eu não tento justificar os erros dela por conta de um passado sombrio. A partir de um certo ponto da história, a gente entende que Emília começa a caminhar na crueldade com as próprias pernas, não movida a sei lá o que que movem os psicopatas. Ela só é assim. Então é normal o estranhamento. A personagem não é uma mocinha, não tem um final feliz no estilo romance, nem mesmo ao modelo Scarlett Ohara. O estranhamento é perceber que pessoas como ela podem ficar bem daquele jeito”, explica a autora. 

 

Sobre o movimento #euleiohot, Carol conta que é indiscutivelmente a favor de qualquer movimento que leve as pessoas a lerem livros. “Não me importa se são guias de como montar um motor de combustão, ou um livro hot. Livro é livro. E nada amplia nossa visão de mundo tão bem quanto um livro. Hoje em dia temos mais mulheres lendo livros do que há dez anos, quando a Intrínseca lançou 50 tons de cinza. Sempre tivemos Biancas e Júlias e Sabrinas nas bancas de revistas, que essencialmente são as mesmas coisas, mas 50 tons dividiu um mundo de mulheres que se entendem capazes de ter uma postura sexual positiva e empoderada para aquelas que não tinham. Eu nem gosto do livro, mas adoro ver como esse simples fato, o lançamento de um livro, gerou um movimento saudável de mulheres em busca de libertação sexual. Até hoje ouço maridos dizendo que dão livros hot para as esposas porque isso melhorou a vida a dois deles, o que acho bem divertido. A literatura hot impediu divórcios por aí. Imagina o poder que tem isso!”, comenta. 

 

Assim como Carol Teles, que acredita que ‘livro é livro’, a leitora J.S. conta que começou a ler livros hot sem necessariamente procurar por eles. Ela disse que não costuma julgar um livro pela capa: se a sinopse interessar, lê. “Em um mundo predominantemente machista, onde a maioria dos produtos é feito para o público masculino e apenas do ponto de vista deles, eu sinto que a literatura é o meio mais acolhedor que as mulheres se expressarem. Gosto de ler histórias com pessoas reais, sem personagens perfeitos. Pessoas com problemas, enfrentando crises e desafios de relacionamentos ou não. Não precisa ter final feliz, na maioria das vezes acho até irreal. Prefiro o ponto de vista feminino e em sua maioria escrito por autoras mulheres. Acho interessante observar como algo tão íntimo pode ser abordado de diversas maneiras, sempre trazendo mais pontos de vista.”

 

J.S. deixa ainda um recado para quem costuma julgar as pessoas que leem literatura erótica. “Se você não gosta, você não lê. Julgar qualquer pessoa pelo gosto pessoal é um ato extremamente imaturo. Só porque leio Machado de Assis não significa que não posso ler Kylie Scott. Uma história não perde sua importância  só porque outra existe. Nenhuma leitura é inválida. O que alguém retém de uma história pode não fazer sentido para mais ninguém além dela e na maioria das vezes, é só isso que alguém precisa”, finaliza.


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