20/03/2021 às 01h57min - Atualizada em 20/03/2021 às 01h25min

Yoñlu: A curta trajetória de um prodígio musical

O jovem Vinícius se suicidou aos 16 anos, deixando um legado com mais de 60 canções

Larissa Gomes - Editado por Roanna Nunes
Reprodução Internet

Era inverno na capital gaúcha quando Vinícius Gageiro Marques nasceu, em 1 de setembro de 1989. Filho de professores universitários, Vinícius cresceu em um ambiente confortável tendo um ótimo relacionamento com os pais. Desde cedo, conforme relatou a mãe, Ana Maria, em entrevista à Rolling Stone, se mostrou um garoto sensível e emocionalmente frágil. Ela e o marido, Luiz, decidiram, então, levar o filho (mesmo com a pouca idade) ao analista.

Vinícius, carinhosamente apelidado de Pipoca no colégio que frequentava, tornou-se um jovem exemplar. Lia Franz Kafka aos 12 anos e tinha capacidades intelectuais impressionantes para um rapaz de sua idade. Os pais contam como era dedicado a tudo que fazia; estudava a fundo cada assunto que o interessava.

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Dentre suas principais paixões, a música tinha o maior espaço. Aos 4 anos começou a tocar bateria e logo vieram o piano e a guitarra. Seu quarto, repleto de CDs dos Beatles, Vitor Ramil, The Strokes, R.E.M e de tantos outros artistas que admirava, virou também o seu estúdio, seu palco. Ali, Vinícius produzia suas próprias músicas, sozinho. Ao todo, os pais encontraram cerca de 60 canções.

 
Reprodução Internet.

Nesse período, os anos 2000 e o século XXI traziam inovações tecnológicas. O adolescente possuía um blog no qual compartilhava momentos com a família, as fotos que tirava de seu cotidiano e seus pensamentos. Foi nesse mundo cibernético que nasceu Yoñlu.

Vinícius fazia parte de fóruns na internet sob o nome Yoñlu e compartilhava suas músicas com colegas de diferentes nacionalidades. Seu talento musical era muito apreciado, recebendo chuvas de elogios, às quais ele respondia com um inglês fluente, curiosamente aprendido com séries de TV e filmes.

 
Reprodução Internet.

A voz aveludada transmite calma, leveza e, como alguns internautas comentam nas músicas hoje postadas no Youtube: te faz sentir saudades. Algumas de suas letras são brincalhonas, mostrando seu lado “Pipoca” do colégio. Outras são mais densas e refletem sentimentos profundos de Yoñlu, até mesmo sua convivência com a depressão, doença que fez com que desistisse de viver. De acordo com a mãe, que, além de professora era psicanalista, Vinícius também tinha transtorno dismórfico corporal — o jovem se preocupava excessivamente com defeitos mínimos e/ou imaginários em seu físico.

 
Desenhos de Vinícius, Yoñlu. Reprodução Internet.

Ele começou a entrar em fóruns de suicídio e, um dia, seus pais encontraram sobre sua cama a música Suicide Song. Foi um período bem complicado na casa dos Gageiro Marques. Vinícius era atentamente vigiado pelos pais que temiam o pior. Até que, no dia 26 de julho de 2006, ele consegue ficar sozinho por horas, sob a desculpa de que daria um churrasco com os amigos e queria privacidade.

Naquela tarde de quarta-feira, com o incentivo de colegas virtuais em um fórum, Vinícius, o Yoñlu, se suicida aos 16 anos, deixando uma carta para os pais e um CD com músicas. 

 

Legado Musical

Posteriormente, suas músicas foram compiladas em dois CDs. Em 2007, sob o selo da Allegro Discos, é lançado Yoñlu. Adiante, em 2009, a Luaka Bop lança A Society In Which No Tear Is Shed Is Inconceivably Mediocre (tradução: Uma sociedade em que nenhuma lágrima é derramada é inconcebivelmente medíocre).
 
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Das faixas, destaca-se Mecânica Celeste Aplicada, feita em homenagem a uma amiga próxima, Luana, por quem parecia estar apaixonado. “Ele era sensível, parece que a gente se conhecia há muito tempo”, a jovem contou na entrevista à Rolling Stone.
 
"O Sol vê tudo
Mas não conhece o amor
De uma garota
Que tem o dom de deslocar, assim

A lua de Netuno no ar"

- Mecânica Celestre Aplicada

Outra canção que chama a atenção é Humiliation, cujo teor melancólico revela a tristeza e os pensamentos recorrentes de desilusão da vida.
 
"Why does it always have to end with humiliation for me?"
(Por que sempre tem que acabar em humilhação para mim?)


- Humiliation

A sonoridade de Yoñlu era experimental, criativa e tinha influências de diversos estilos, mostrando desde o folk, o rock e a bossa nova até uma mixtape com sons de sua impressora. E desse universo criativo e musical somado aos seus desenhos, surgiu o projeto do filme Yonlu.
 

O Longa-Metragem Yonlu


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Em agosto de 2018, o diretor Hique Montanari lança Yonlu, contando a história do jovem artista sob uma perspectiva sensorial e dramática. Protagonizado pelo ator e cantor Thalles Cabral, também natural de Porto Alegre, assim como Vinícius, o longa mostra cenas do cotidiano do adolescente e foi produzido em dois anos, porém, Montanari já preparava o roteiro desde o início da década.

 

O trabalho recebeu o Prêmio Humanidade por conta de sua mensagem social, além de ter sido premiado em festivais de cinema em São Paulo, Amsterdam e Milão.

A trilha sonora é composta pelas músicas originais de Yoñlu, apesar de Thalles cantar em determinados momentos que ilustravam o processo de composição e gravação das canções. Algum tempo depois, o artista incluiu o cover de Katie, Don’t Be Depressed de Yoñlu no seu projeto 12 X Single (2019).

 

 
"Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o de felicidade nos momentos mais sombrios".
 
Yoñlu (Vinicius Gageiro Marques)

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