25/03/2021 às 20h23min - Atualizada em 25/03/2021 às 20h15min

Aqui e acolá: o cordel na cultura brasileira

Parte da cultura e tradição brasileira, a literatura de cordel traz histórias, versos e sonoridade

Karina Almeida - Editado por Roanna Nunes
Poesia que Transforma (2018), Bráulio Bessa | Divulgação


O que é preciso para montar um cordel? Palavras, versos, estrofes e, com certeza, muita criatividade. Os cordéis constituem uma tradição brasileira de arte, poesia e literatura. Um dos maiores cordelistas da atualidade é o cearense Bráulio Bessa que, aos 36 anos, espalha cultura e essa literatura pelo Brasil.
 

“Cada um tem o sorriso / e a dor que lhe convém. / Tudo que vai abre espaço / pra tudo aquilo que vem. / Feliz na vida é quem é / feliz com a vida que tem”.

Trecho do poema Felicidade, de Bráulio Bessa

 

Apesar de ter mais notoriedade no Nordeste do país, os cordéis tiveram origem em terras portuguesas. O nome remete ao modo como eram divulgados: pequenos folhetos presos em cordas para exposição. A literatura de cordel chegou ao Brasil no século XIX por Salvador (BA) e, com o tempo, os livretos adquiriram características próprias. 

O paraibano Leandro Gomes de Barros é considerado o precursor do movimento com moldes brasileiros por inovar nas rimas, estrofes e temáticas. Seus versos contavam histórias populares que encantavam a população. Percorrendo o folclore, os aspectos sociais e a vida cotidiana, o cordelista fez sucesso e vendeu abundantemente seu trabalho. Em 1906 fundou uma pequena gráfica para imprimir e divulgar seus folhetos e, dessa forma, difundiu a literatura de cordel em diferentes regiões. O dia do cordelista, 19 de novembro, é uma homenagem ao grande nome dos cordéis.  


Tradicionalmente, os cordéis são pequenos folhetos ilustrados com xilogravuras nas capas. Em poucas palavras, mas com grandes significados, podem contar histórias, tradições, lendas, aspectos religiosos e muitos outros temas. É uma literatura abrangente que narra acontecimentos com grande foco no cotidiano utilizando rimas e versos. A métrica, detalhe que torna as obras tão particulares, possibilita que os cordelistas as declamem com melodias, entregando as histórias com uma sonoridade marcante. 

Com o tempo, surgiram muitos cordelistas pelo país e tornou-se uma literatura influente e muito apreciada. João Martins de Athayde, Rodolfo Coelho Cavalcante e Patativa do Assaré são alguns nomes de sucesso de diferentes épocas. Seus textos abordaram os costumes das regiões, imortalizaram lendas populares e revelaram façanhas de personagens históricos em versos. Muitos retratavam apenas a realidade e a cultura do nordeste de forma rica e reveladora. Hoje, contudo, os cordelistas escrevem sobre tudo, todos e até mesmo, nas redes sociais. 

Bráulio Bessa começou a escrever ainda cedo, com apenas 14 anos, sobre a vida no sertão. Tinha como grande inspiração o cordelista Patativa do Assaré e, com muito orgulho, passou a colocar nas palavras toda a vastidão da cultura nordestina. A fama chegou quando criou uma página na internet em 2012 e, posteriormente, com as apresentações semanais no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo. O poeta já alcança milhares de leitores, lançou três livros e possui mais de 3,8 milhões de seguidores no Instagram. 

É nas redes sociais que a literatura de cordel ganha espaço e os artistas mais contemporâneos divulgam seus cordéis. No virtual, cordelistas encontram diferentes formas de produzir seus conteúdos e até mesmo promover encontros para enaltecer essa poesia popular. São escritores do nordeste brasileiro e das mais variadas localidades que expressam sentimentos e demonstram suas raízes por meio das rimas. A composição possibilita a abordagem de diversos assuntos de forma dinâmica, atrativa e para diferentes públicos. Esse novo modo de se fazer cordéis mantém viva a tradição e difunde essa cultura para cada vez mais pessoas. 

Percorrendo diferentes gerações, de Barros até Bessa e muitos outros espalhados pelo Brasil afora, os cordéis são parte da cultura brasileira. Diante de tal importância, em 2018 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu a literatura de cordel e cedeu o título de Patrimônio Cultural Brasileiro. Os cordéis continuam, até hoje, como uma literatura popular que resiste ao tempo, aos fatores sociais e às tecnologias.   


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